Vieira, presente
FRIDAY, NOVEMBER 10, 2006
Vieira, presente.
O futuro do presente; ou
Por que deu no que deu? Ou
Vieira, presente.
Excertos extraídos por Carlos A.R. De Xavier do Sermão do Bom Ladrão, de Padre Antônio Vieira (1608/1697)
“Chamam-se sátrapas, porque costumam roubar assaz. E este assaz é o que especificou melhor S. Francisco Xavier, dizendo que conjugam o verbo rapio por todos os modos. O que eu posso acrescentar, pela experiênciqa que tenho, é que não só do Cabo da Boa Esperança para lá, mas também das partes daquém, se usa igualmente a mesma conjugação. Conjugam por todos os modos o verbo rapio: porque furtam por todos os modo da arte, não falando em outros novos e esquisitos modos, que não conheceu Donato, nem Despautério. Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos, é que se lhe apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo.
Furtam também pelo modo imperativo, porque como têm o mero e misto império, todo ele aplicam despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto se lhes mandam; e para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos. Furtam pelo modo optativo, porque desejam tudo quanto lhes parece bem; e gabando as coisas desejadas aos donos delas, por cortesia sem vontade, as fazem suas. Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito; e basta só que ajuntem a sua graça, para serem, quando menos, meeiros na ganância.
Furtam pelo modo potencial, porque sem pretexto, nem carimônia, usam de potência para roubar. Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que furtem, e estes compram as permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes, em que se vão continuando os furtos. Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas; porque a primeira pessoa do verbo é a sua; as segundas os seus criados e as terceiras, quantas para isso têm indústria e consciência.
Furtam juntamente por todos os tempos, porque o presente (que é o seu tempo) colhem quando dá de si o triênio; e para incluírem no presente o pretérito e o futuro, do pretérito desenterram crimes, de que se vendem os perdões e dívidas esquecidas, que se pagam inteiramente; e do futuro empenham as rendas e antecipam os contratos, com que todo o caído e não caído lhes venham a cair nas mãos. Finalmente, nos mesmos tempos não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plus-quam-perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtarão, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse.
Em suma, que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: o furtar por furtar. E quando eles tem conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis provìncias suportado toda a passiva, eles, como se tivessem feito grandes serviços, tornam-se carregados de despojos e ricos; e elas, as províncias, ficam roubadas e consumidas.
Rei dos reis e Senhor dos senhores, que morrestes entre ladrões para pagar o furto do primeiro ladrão – e o primeiro a quem promestes o Paraíso foi esse ladrão – para que os ladrões e os reis se salvem ensinai com vosso exemplo, e inspirai com vossa graça a todos os reis, que não elegendo, nem dissibulando, nem consentindo, nem aumentando ladrões, de tal maneira impidam os furtos futuros, e façam restituir os passados, que em lugar de os ladrões o levarem consigo, como levam, ao Inferno, levem eles consigo os ladrões ao Paraíso, como Vós fizestes hoje: Hodie mecum eris in Paradiso.”
Sobre a austeridade do padre Antônio Vieira, aqui vai um trecho de carta de Vieira ao padre Francisco de Morais, da Bahia, em maio de 1693:
“ E para que vós também a tenhais, a austeridade, sabei, amigo, que a melhor vida é esta. Ando vestido de um pano grosseiro cá da terra, mais pardo do que preto; como farinha de pau; durmo pouco; trabalho de pela manhã até à noite; gasto parte dela em me encomendar a Deus; não trato com mínima criatura; ... choro os meus pecados; faço com que outros chorem os seus ...”
Por que deu no que deu? Ou
Vieira, presente.
Excertos extraídos por Carlos A.R. De Xavier do Sermão do Bom Ladrão, de Padre Antônio Vieira (1608/1697)
“Chamam-se sátrapas, porque costumam roubar assaz. E este assaz é o que especificou melhor S. Francisco Xavier, dizendo que conjugam o verbo rapio por todos os modos. O que eu posso acrescentar, pela experiênciqa que tenho, é que não só do Cabo da Boa Esperança para lá, mas também das partes daquém, se usa igualmente a mesma conjugação. Conjugam por todos os modos o verbo rapio: porque furtam por todos os modo da arte, não falando em outros novos e esquisitos modos, que não conheceu Donato, nem Despautério. Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos, é que se lhe apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo.
Furtam também pelo modo imperativo, porque como têm o mero e misto império, todo ele aplicam despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto se lhes mandam; e para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos. Furtam pelo modo optativo, porque desejam tudo quanto lhes parece bem; e gabando as coisas desejadas aos donos delas, por cortesia sem vontade, as fazem suas. Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito; e basta só que ajuntem a sua graça, para serem, quando menos, meeiros na ganância.
Furtam pelo modo potencial, porque sem pretexto, nem carimônia, usam de potência para roubar. Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que furtem, e estes compram as permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes, em que se vão continuando os furtos. Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas; porque a primeira pessoa do verbo é a sua; as segundas os seus criados e as terceiras, quantas para isso têm indústria e consciência.
Furtam juntamente por todos os tempos, porque o presente (que é o seu tempo) colhem quando dá de si o triênio; e para incluírem no presente o pretérito e o futuro, do pretérito desenterram crimes, de que se vendem os perdões e dívidas esquecidas, que se pagam inteiramente; e do futuro empenham as rendas e antecipam os contratos, com que todo o caído e não caído lhes venham a cair nas mãos. Finalmente, nos mesmos tempos não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plus-quam-perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtarão, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse.
Em suma, que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: o furtar por furtar. E quando eles tem conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis provìncias suportado toda a passiva, eles, como se tivessem feito grandes serviços, tornam-se carregados de despojos e ricos; e elas, as províncias, ficam roubadas e consumidas.
Rei dos reis e Senhor dos senhores, que morrestes entre ladrões para pagar o furto do primeiro ladrão – e o primeiro a quem promestes o Paraíso foi esse ladrão – para que os ladrões e os reis se salvem ensinai com vosso exemplo, e inspirai com vossa graça a todos os reis, que não elegendo, nem dissibulando, nem consentindo, nem aumentando ladrões, de tal maneira impidam os furtos futuros, e façam restituir os passados, que em lugar de os ladrões o levarem consigo, como levam, ao Inferno, levem eles consigo os ladrões ao Paraíso, como Vós fizestes hoje: Hodie mecum eris in Paradiso.”
Sobre a austeridade do padre Antônio Vieira, aqui vai um trecho de carta de Vieira ao padre Francisco de Morais, da Bahia, em maio de 1693:
“ E para que vós também a tenhais, a austeridade, sabei, amigo, que a melhor vida é esta. Ando vestido de um pano grosseiro cá da terra, mais pardo do que preto; como farinha de pau; durmo pouco; trabalho de pela manhã até à noite; gasto parte dela em me encomendar a Deus; não trato com mínima criatura; ... choro os meus pecados; faço com que outros chorem os seus ...”
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