DISCURSO CPOR 1966 50 anos
1966, um ano que não começou e nem acabou
O Brasil é um país em permanente construção: rasga, explora, germina, corta, fermenta, eclode! Vivemos em permanente tensão entre o arcaico e o moderno, ou mesmo o hipermoderno. Arcaico, em certo sentido, dos yanomami coletores e caçadores ou dos caiapó guerreiros e cultivadores de dezenas de variedades de mandioca e de outras plantas; e moderno da alta tecnologia, de construção de aviões, que inventamos, ou de poços de petróleo que perfuramos para além do fundo do mar.
Entretanto, é preciso registrar, como Harari no livro SAPIENS,i que os coletores e caçadores, entre os 70.000 e 12.000 anos de nossa existência eram os mais competentes representantes da espécie humana em toda historia da humanidade. Tinham o cérebro mais pesado, capazes de realizar quaisquer tarefas. Os coletores e caçadores sabiam muito mais do que todos os seus sucessores, tinham mais tempo livre para si e os seus, compreendiam a natureza e todos os seus ciclos, como parte inseparável dela.
A agricultura surgida a partir dos doze últimos milênios fez surgir também a cultura sedentária, acumuladora, inventora da moeda e do comercio, das associações, sistemas de crença e de outras novidades que passaram a existir entre os grupos mais ou menos evoluídos nesse sentido. Saiu de cena a natural cooperação e entrou em ação a exploração do outro.
Se pensarmos bem direitinho, veremos que o Brasil é um grande pedaço do continente sul americano em fermentação e efervescência constante, interminável processo porque estamos construindo uma nova civilização nos trópicos com a mistura de gentes de todas as latitudes.
De acordo com as fontes clássicas sobre a formação econômica e cultural do Brasil (Celso Furtado, Caio Prado, Alberto Torres, Sergio Buarque e Gilberto Freyre) o ciclo do pau brasil é definitivo e indelével para nossa cultura porque o país foi batizado com o nome da árvore e o conserva. O nome da nova terra, originalmente Pindorama (terra das Palmeiras), também foi Terra de Santa Cruz, Terra dos Papagaios,ii Terra de Vera Cruz, Terra do Brasil e, finalmente Brasil.
O vocábulo brasileiro apareceu pela primeira vez em 1562iii não para designar o nativo do Brasil, mas para indicar os que se dedicavam ao negócio do pau brasil, i.e. aqueles que cortavam as árvores e levavam os troncos para os navios. Assim no lugar de sermos designados como ‘brasilianos ou brasilienses’, gramaticalmente corretos para o caso, ficamos conhecidos como ‘brasileiros’,iv o que, à época, era sinônimo de predadores e entreguistas, pois muitos se dedicavam à exploração clandestina dos recursos naturais da terra descoberta, entregando-os aos comerciantes que visitavam a costa brasileira, de qualquer bandeira, inaugurando o processo predatório do meio ambiente e do sistema econômico.
A sucessão de ciclos exploratórios surgidos pela presença portuguesa, pela disponibilidade da mão de obra africana e, principalmente, pela associação com os índios fez com que a expressão ‘fazer brasil’ se vulgarizasse, tornando-se corrente na Europa, especialmente durante os séculos XVI e XVII com o sentido de ‘vamos lá nos enriquecer rápida e facilmente’; isso não sem o protesto de muitos outros que já se incomodavam, como já ocorrera com o nome da Terra descoberta, agora se batiam contra os destinos de um continente inteiro tão entregue à exploração estrangeira.
Foi essa consciência que levou o brasileiro Hypólito José da Costa Pereira fundar, em Londres, 1808, a publicação “Correio Braziliense” dedicado à veiculação das idéias libertárias, vindas da conjuração mineira e da revolução francesa. A formação do Império brasileiro em 1822 consolidou o nome e nosso destino.
“A vida é um novelo que Deus vai desenrolando devagar e nós cumprindo afoitos, em pecados e virtudes, sem nem saber por quê. Essa vida é na verdade uma penca de novelos. Não. Para ser exato, uma penca de bilros é o que a vida é. O rendeiro é Deus. Lá de cima, sem hora, espetando os alfinetes nos moldes de papelão de nossas sinas. Ele vai tramando, retramando nosso destino.”v
Ainda por cima, somos Minas. Não entramos no Portão das Armas do CPOR em 1966 de mãos vazias: todos tinham Minas na bagagem e isso não é pouco. Carregamos a herança mineral de mais de 300 anos.
Nascidos em alterosas paragens, nossos espíritos só aspiravam as alturas do firmamento, muito além do montanhoso horizonte. E nossos corpos, como as águas de um regato, dirigiam‑se aos vales. As águas que correram há séculos, as que hoje correm: um só e o mesmo rio. E, como as águas, os tropeiros desciam de Vila Rica para o Rio de Janeiro e subiam de volta. Comitivas de tropeiros que levavam e traziam cargas entre litoral e a próspera Capitania de Minas. Produtos agrícolas e pecuários e, sobretudo, dezenas de arroubas do ouro e das pedras preciosas mineiras, mercadorias de demanda crescente nos mercados europeus. Não raro também iam filhos da riqueza para o Rio de Janeiro e daí para Portugal para se matricularem na Universidade de Coimbra ou outras européias.
Nossa inspiração, Tiradentes: a liberdade, o vôo sem limites. Sua meninice, a orfandade, sua capacidade de se impor, de inspirar confiança a quem conhecesse, por onde andasse. A escola de vida com o padrinho, os livros, as aulas de francês. A convivência com o primo botânico Frei Veloso, e o aprendizado sobre as plantas. A fruição da beleza da vegetação rupestre e a descoberta de suas utilidades. A canela-de-ema, tocheiro para alumiar os terreiros das casas, isca de fogo e remédio para os rins. Outras flores, pura beleza: a Laelia flava, a Cambessedessia, a Lavoisieria, nomes recentes que a ciência lhes deu. Que nome lhe daria o vento das montanhas?
Na primavera de 1775, ao retornar de uma viagem com Frei Veloso, Joaquim José se apresentou ao Comandante do Regimento dos Dragões que acabava de criar novas companhias da tropa paga. Começou no dia primeiro de dezembro, diretamente no posto de Alferes, e, mais tarde, comandou uma das oito unidades do Regimento, a de Sete Lagoas, responsável pela vigilância de toda a região dos Gerais.
Já tinha incorporado o apelido de “o Tiradentes”, mas, naquela função, era o Alferes Xavier. Amigo antigo do Capitão-mor de Vila Rica desde quando viajavam juntos para o Rio de Janeiro, no encalço dos “assaltantes do caminho do ouro” armados em emboscadas e esconderijos pelos atalhos da Serra da Mantiqueira. Tinha muitas habilidades: sabia tirar e colocar dentes, aliviar as dores de quem lhe pedisse socorro, indicar caminhos, detectar jazidas minerais, avaliar mercadorias, terrenos e animais de tropa. Conhecia como as palmas de suas mãos, as Minas e os Gerais, e também a Bahia.
Minas não é palavra montanhosa,
É palavra abissal.
Minas é dentro e fundo.
As montanhas escondem o que é Minas.
No alto mais celeste, subterrânea,
é galeria vertical varando o ferro para chegar ninguém sabe onde.
Ninguém sabe Minas.
A pedra,
o buriti,
a carranca,
o nevoeiro,
o raio, selam a verdade primeira,
sepultada em eras geológicas de sonho.
Só mineiros sabem.
E não dizem Nem a si mesmos
o irrevelável segredo chamado Minas.vi
Nosso grupo estava embebido disso: brasilidade e mineiridade.
Em 1965 quando dissemos, sim, somos voluntários da Pátria para freqüentar esse curso, nos encontramos e formamos essa tropa menos de um ano depois! Tantas e tão diversas fisionomias quantas são as do Brasil. Bela seleção fez quem nos escolheram. Acertaram na mosca. Representantes dessas históricas famílias mineiras lá estavam. Tínhamos o melhor extrato:
dos Pacheco, dos Mendonça, dos Silva, Santos, Garcia, dos Pompeu, Fraga, Mascarenhas, Ramos, Nogueira, Cunha, Correia da Costa, Paes, Souza, Tavares, Sampaio, Pampolini, Vilela, Domingues, Gervásio, Cabral, Costa, Moreira, Machado, Garzon, Rabelo, Araújo, Ivo, Rocha, Teixeira, Rondas, Mundim, Alvarenga, Marques, Bastos, Cerqueira, Pereira, Kiefer, Mata Machado, Melo, Rezende, Soares, Mattos, Pereira, Portugal, Muzzi, Tavares, Azevedo, Dornas, Bastos, Ministério, Ribeiro, Ab’Saber, Paixão Araújo, Souza, Lacerda, Costa, Andrade, Dolariva, Milton, Monteiro, Ferreira, Gontijo, Moreira, Diniz, Fazito, Pinto, Marchetti, Freire, Marchi, Arantes, Madeira, Castanho, Carvalho, Caldeira, Meireles, Brito, Castelo Branco, Sanches, Silveira, Frossard, Magalhães, Madruga, Muniz, Oliveira Penna, Morais, Rocha, Giroski, Chamon Simão, Bernucci, Dias e Raso Assumpção e, claro, Xavier; também Bonfioli, Vieira, Rodrigues, Campos, Paiva, Mendes, Queiroz, Salina, Senna, Antipoff, Leroy, Zaramela, Meyers, Botelho, Veloso, Faria Lopes, Alves, Gomide, Bandeira, sintam-se todos enunciados, engenheiros, artilheiros e infantes.
“Quem somos nós? Existimos para quê? Por que? Para nada? Somos o povo dos heróis assinalados, mas somos mesmo é o povo dessas multidões medonhas de gentes, enganadas e gastadas, o povo escarmentado na carne e na alma. Somos o povo que viu e que vê. O povo que vigia e espera. Minas estelar, páramo, mãe do ferro, mãe do ouro e do azougue. Mãe mineral, fulgor sulfúrico. Minas sideral, lusa quina de rocha viva enterrada além-mar. Minas antiga, cruel satrapia do fel e da agonia, sou eu que te peço: ponha um final nesta agonia, relampeja agora, peça a morte. Morra! Morra e renasça. Rolem pedras saltadas do mar petrificado; rolem, arrombem o subterrâneo paredão de granito que aprisiona o povo e o tempo, escravizando, sangrando, esfomeando, assassinando. Minas, árvore alta. Minas do esperma, do milho, da pétala, da pá, da dinamite. Minas carnal da flor e da semente. Minas mãe da dor, mãe da vergonha. Minas, minha mãe crepuscular. Havemos de amanhecer. O mundo se tinge com as tinhas da ante-amanhã”.vii
Em 1966 ao redor de nossos 20 anos tínhamos o sentimento explodindo dentro de nós. Tínhamos todos, cada um a seu modo, ânsia de levar o Brasil avante e de ver frutificar tantas promessas, tantas esperanças adiadas. “Queríamos já, o que Stephan Zweig profetizou, ao escrever, em 1942, ‘Brasil, país do futuro”. O Exército brasileiro nos acolheu, nos educou, nos ensinou o patriotismo de caserna, irremovível em nossas almas, nos deu condições de exercer com plenitude nossas potencialidades.
Em 1966 o Brasil passava da metade do seu sexto século de história ainda preso aos mesmos mecanismos de exploração dos recursos naturais, da economia primária e recém ingressava na industrialização; assistimos ainda desde lá, a corrida das gentes do campo para os centros urbanos. Em 50 anos nasceram 150 milhões de brasileiros e mudamos o perfil demográfico. Quase toda a população hoje vive nas cidades.
Ingressamos na era dos grandes projetos de energia, comunicação e transporte, e estruturas de base sem os quais não poderíamos entrar naturalmente nos tempos modernos da globalização. Esses feitos já explicam muita coisa. Muitos países da América, África ou do oriente ainda não alcançaram essa fase do desenvolvimento tecnológico e de infra-estruturar. Talvez seja um dos grandes legados desse período que acompanhamos de perto, a preparação do Brasil para nova decolagem.
Já havíamos tido uma chamada decolagem da economia nos anos 30, como nos explicou Francisco Iglesias, mas aqueles avanços, outros e outros ainda não foram suficientes por conta das repetidas vezes que retrocedemos e recomeçamos a construção da Nação.
Provamos capacidades em várias áreas do conhecimento, do empreendedorismo à inovação tecnológica; mostramos ao mundo várias vezes o brilho nas artes, nos esportes, na música, na cultura popular, assim como a dizer que não podemos, mais uma vez deixar passar o bonde hoje supersônico da história. Estamos preparados e a postos para fazer realidade os 200 anos da independência e, os 100 anos do Manifesto Antropofágico dos modernistas de 1922, temos condições de exercer plenamente a cultura e cidadania.
"Tupy, or not tupy that is the question. (...)
Não percamos o foco: “escrevemos hoje a história do futuro”.
Darcy ensina que “não é nenhuma utopia descabelada, é importante por os pés no chão”. O que ele chama de “utopia de pé no chão” é o seguinte: “não está nem no horizonte mais longínquo do povo brasileiro, uma coisa tão simples, tão singela, que todo mundo tem, como a possibilidade de se comer todo dia, uma possibilidade de todo doente ter um tratamento sem estar preocupado com a conta; uma possibilidade de cada homem ou mulher, maior de 16 anos, terem um emprego seguro; uma possibilidade de toda criança ter uma escola, mas uma escola que não seja para ofendê-la. Que não seja feita para mostrar que ela é pobre porque é burra, como a escola prova, mas uma escola que compense o atraso que a criança traz da família, dando a ela uma atenção especial. Uma escola na qual ela possa progredir”.viii
“Precisamos reinventar a educação, aluno e o professor trabalhando junto o tempo todo, um sonho. Ambos ensinam ambos aprendem. Recebem para estudar, pesquisar e trabalhar. Preparam nosso povo para vencer esse milênio, arquitetar o futuro e colher os frutos das árvores que havemos de plantar e para, novamente, fazer germinar suas sementes. Mas a utopia não se acaba aí: “Nós devíamos partir deste ponto. Há uma utopia do Brasil, que é essa coisa tão singela.
A maior necessidade desse país é tomar consciência de que esta tarefa utópica tem que ser feita, mas, ela só pode ser feita se nós proibirmos o passado de proibir o futuro. Para construir aqui a beleza de nação que podemos ser. Havemos de ser! Para tanto, é indispensável impedir o passado de construir o futuro; quero dizer, tirar da gente que nos regeu e infelicitou através dos séculos o poder de continuar conformando-deformando nosso destino. É hora de lavar os olhos para ver nossa realidade. ”ix
Agora, existe a possibilidade de que o futuro sempre decorrer do passado”, portanto, mãos à obra hoje, pois o futuro já é amanhã cedo.
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