Isolde (o pacto dos 12)

Uma nova leitura da “Inconfidência”: o “Pacto dos 12” e a missão “Vendek” O Alferes Joaquim José da Silva Xavier - Patrono Cívico da Nação brasileira, atuou na Europa como emissário e titular de um restrito grupo de integrantes da arriscada missão “Vendek”, desde setembro de 1786 até o trimestre final de 1787. Dentro deste período, de 21 de março até 12 de maio de 1787, durante 52 dias o Alferes acompanhou a primeira etapa da jornada do Ministro Thomas Jefferson - considerada “estranha” por alguns autores - quando ambos visitaram portos franceses e italianos do mar Mediterrâneo, acompanhados por um estudante de Medicina, o mineiro Domingos Vidal Barboza. entrevistar Vidal, só conseguiu encontrá-lo em Dijon - onde este jovem jazia gravemente enfermo porque vitimado pelo extremo frio setentrional. Após deter por duas vezes a jornada para proporcionar cuidados e restabelecer a saúde do jovem estudante, o Ministro prosseguiu até Nimes - onde chegou em 19 de março e enviou imediata mensagem ao emissário “Vendek”- que ali compareceu no dia seguinte, dia 20 ou 21 de março de 1787. Este estudante, deixou o curso trimestral de Medicina que seguia na Universidade de Montpellier e, ao final de janeiro de 1787, “trancou matrícula” para ir a Fontainebleau, em pleno inverno europeu, onde informaria o Ministro sobre as metas da causa brasileira. Ao mesmo tempo, o Ministro Thomas Jefferson, tendo deixado Paris para comparecer ao encontro e entrevistar Na segunda (2ª) etapa desta viajem, o então Ministro Thomas Jefferson visitou - sozinho, vários portos do litoral francês do Oceano Atlântico, nos quais cumpriu os mesmos objetivos da primeira etapa daquela sua “não mais estranha” jornada de 1787. durante um total de oito dias (no castelo dos nobres De Laye e em Lyon), Ministro (Referir cartas de TJ a auxiliares em Paris, onde constam inf. de fatos que documentam detalhes comprovantes.) No presente texto do informal relatório de uma pesquisa sobre o movimento precursor da chamada “Inconfidência”, foram reunidas fotocópias de documentos que contém comprovantes de fatos históricos, sendo alguns talvez inéditos. Nestes comprovantes bicentenários estão contidas notícias que, manuscritas à época ou impressas muitos anos mais tarde, tornam evidente e irrecusável a presença, na Europa, do Alferes do Regimento de Cavalaria Regular - ou dos “dragões” de Vila Rica, Joaquim José da Silva Xavier - o “Tiradentes”. Nosso heróico Patrono Cívico terá chegado a Lisboa no início de setembro de 1786, atendendo a um chamado feito por estudantes brasileiros, integrantes do “Pacto dos 12” que, secretamente reunidos em Coimbra, em ato solene e grave deram-se as mãos e se Conjuraram - criando um forte compromisso de tornar livre a colonizada terra natal. Para cumprir essa parte de sua missão libertária, o Alferes - o “animoso” ou arrojado emissário do grupo “Vendek”, terá discretamente embarcado em algum cargueiro luso, e viajado como marinheiro até o porto de Lisboa, conforme teria sido projetado anteriormente. Desembarcando em Lisboa, dali terá partido para Montpellier, onde entraria em contato com um estudante universitário, oriundo do Rio de Janeiro. Este jovem carioca, José Joaquim Maya Barbalho, contava com a total confiança de um de seus mestres de Medicina - um médico maçom, o Dr. Vigarons. O Alferes Xavier, recém chegado em Montpellier, agindo como emissário do grupo “Vendek” terá entrado em contato com Maya Barbalho e, de imediato, ambos terão tratado de iniciar correspondência com Thomas Jefferson, enviando um breve bilhete, datado em Montpellier em 2 de outubro de 1786 (ver: Doc. 29). Duas semanas depois, em 16 de outubro de 1786 - já em Paris, o Dr. Vigarons - a pedido de seu aluno Maya Barbalho, entregou a primeira carta do emissário “Vendek” ao Ministro Thomas Jefferson, e com ele terá comentado algo do que já sabia sobre a causa libertária brasileira. Naquela primeira e breve carta ou mensagem em forma de“bilhete”, o emissário “Vendek” (ou o Alferes Xavier, o“Tiradentes”), dirigindo-se ao grande líder libertário republicano, “disse” o que segue, aqui livremente traduzido do texto original do “bilhete“, manuscrito em idioma francês arcaico (ver: Doc.29). “Monsenhor”, “Tenho algo de grande conseqüência a Vos comunicar, mas como o estado de minha saúde não me permite poder ter a honra de ir Vos encontrar em Paris, eu Vos peço ter a bondade de me dizer se posso, com segurança, Vos comunicar por carta; porque sou estrangeiro e, por este motivo pouco informado quanto aos usos no país. Eu Vos peço perdão pela liberdade que tomo e Vos peço também endereçar resposta ao Senhor Vigarous, Conselheiro do Rei e Professor de Medicina naUniversidade de Montpellier. Sou, com todo o respeito, Monsenhor, Vosso muito humilde e obediente Servidor, “Vendek”. Tal texto, Doc.29, manuscrito - quando impresso, consta às fls. 427 do volume referente a 1786, na coleção “The papers of Thomas Jefferson” : ver: Doc. 30 desta pesquisa. Ao ler esta primeira mensagem do brasileiro “Vendek”, o Ministro Thomas Jefferson terá comentado o assunto com o portador - o Dr.Vigarons, um médico maçom e Professor de Medicina na Universidade de Montpellier. Durante o diálogo certamente mantido naquela ocasião em Paris, o Ministro Jefferson fez duas breves anotações na folha avulsa do bilhete recebido. Em primeiro (1º) lugar, corrigiu a grafia do sobrenome do portador - que na mencionada carta erroneamente consta como “Vigarous”. Em segundo (2º) lugar anotou, entre chaves, o nome “[Joze da MAIA]”, para memorizar o nome de José Joaquim Maya Barbalho - um estudante carioca, aluno do Dr. Vigarons - aluno esse que se tornaria um intermediário, facilitando a entrega daquela arriscada correspondência entre políticos. Ainda quanto às anotações feitas pelo Ministro na primeira carta de “Vendek”, cabe notar que as mesmas, curiosamente, não foram comentadas pelo Editor, em nota que tambàs fls. 427 do volume referente a 1786, na coleção “The papers of Thomas Jefferson”. Talvez impressionado com as informações recebidas, o destinatário, Ministro Jefferson, terá tomado um especial interesse pelas intenções libertárias dos brasileiros e, de imediato, redigiu sua primeira (1ª) resposta a “Vendek”, datada em Paris no dia 16 de outubro de 1786. Feito isso, entregou tal resposta ao mesmo portador - que a levaria a Montpellier, onde a mesma seria entregue a Maya Barbalho e este, por sua vez, a levaria ao local onde encontraria “Vendek”. Entretanto, esta importante e urgente resposta ou mensagem só chegou às mãos do destinatário em 21 de novembro de 1786, ou seja, trinta e seis (36 ) dias depois de ter sido escrita pelo Ministro Jefferson, em Paris. Ao recebê-la, na mesma data ”Vendek” redigiu sua segunda (2ª) carta ao Ministro Jefferson. Esta segunda carta, impressa às fls.546 e 547 do volume referente a 1786 na coleção “The papers of Thomas Jefferson”, foi fotocopiada e enumerada nesta pesquisa como Doc.31. Cabe notar ainda que, ao ser publicada, ocorreu um raro “engano tipográfico”, isto é, essa carta foi datada em Montpellier pelo emissário mineiro em 21 de novembro do ano de 1786 - e não em 1785, conforme se vê no respectivo comprovante documental (ver: Doc. 31). Quanto ao texto original, manuscrito em duas folhas avulsas - frente e verso (Doc.s 32, 32.1 e 32.2), o emissário do grupo “Vendek”, “diz” o que segue e que foi livremente traduzido do idioma francês arcaico: “Monsenhor, “Acabo de ter a honra de receber a Vossa carta de 16 de outubro, e lamento não a ter recebido antes porque me foi preciso permanecer no campo até hoje, por motivo de saúde; e, vendo que minhas informações Vos serão certamente entregues, vou ter a honra de - a Vós, as comunicar: “Eu sou brasileiro, e Vós sabeis que a minha infeliz pátria geme em temível escravidão - que se torna cada (vez) mais insuportável depois da data de Vossa gloriosa independência, eis que os hostis opressores nada poupam para nos tornar infelizes, acreditando que seguiremos os Vossos passos;e como sabemos que estes agem contra a lei da natureza e da humanidade, nós nos decidimos a seguir o Vosso marcante exemplo que nos foi dado e, como conseqüência, quebrar nossas cadeias e reviver nossa liberdade que está de todo morta e destruída pela força, que é o único direito dos Europeus sobre a América. Mas se trata de ter um poder que dê a mão aos Brasileiros, já que a Espanha não deixará de se unir a Portugal; e, apesar dos recursos que nós temos para nos defender, não poderemos fazê-lo ou, ao menos, não seria prudente nos arriscarmos sem ter certeza de sermos bem sucedidos”. “Isso posto, Monsenhor, é a Vossa Nação que acreditamos (ser) mais adequada a (nos) dar socorro não somente porque nos deu o exemplo e, também, porque a natureza nos fez habitantes do mesmo continente e, de alguma forma, compatriotas.” “De nossa parte, estamos prontos a dar todo o dinheiro que for necessário e a testemunhar, a qualquer tempo, nosso reconhecimento aos nossos benfeitores. “Monsenhor, eis aí, aproximadamente, o esboço de minhas intenções e para me desempenhar dessa incumbência vim à França; porque não poderia (ir) à América sem dar suspeitas em quem disso soubesse; cabe a Vós agora julgar se estas (suspeitas) podem ocorrer e, neste caso, se desejardes consultar Vossa nação, estou pronto a Vos dar todas as informações que julgardes necessárias. “Tenho a honra de ser, com a mais perfeita consideração, Monsenhor, Vosso muito humilde e muito obediente servidor, “Vendek”. Nesta segunda carta brasileira, o emissário “Vendek”- de início, afirma ter recebido a longa resposta do Ministro Thomas Jefferson, por ele datada em Paris em 16 de outubro de 1786. Entretanto, esta mencionada e importantíssima resposta, não foi encontrada por esta pesquisa, em arquivos consultados há algumas décadas, na Capital dos Estados Unidos e no Estado da Virgínia. Enquanto ocorriam os primeiros contatos por correspondência entre brasileiros e o Ministro em Paris, o carioca José Joaquim Maya Barbalho estudava na Universidade de Montpellier, e já preparava sua Defesa de Tese de Doutorado em Medicina, cuja realização ocorreria no primeiro semestre do ano seguinte. Ao mesmo tempo, Maya submetia-se a tratamento médico, por ser portador de adiantado mal pulmonar. Em 26 de dezembro de 1786, em Paris - e em pleno recesso natalino, o Ministro Jefferson escreveu ao emissário “Vendek” a sua segunda (2ª) resposta, avisando o fato de ter recebido sua carta datada no dia 21 do anterior mês de novembro, e confirmava sua intenção de brevemente encontrá-lo em Montpellier, ou em suas vizinhanças (Doc.33 - texto não fotocopiado, porém o conteúdo do mesmo foi mencionado neste breve relatório). Dez dias depois de ser datada em Paris a segunda resposta do Ministro, o emissário “Vendek” enviou sua última e terceira (3ª) carta ou bilhete no dia 5 de janeiro de 1787, avisando ao Ministro Thomas Jefferson que o encontraria em Nimes, ou em qualquer outro local que lhe fosse indicado. No mesmo texto, o mineiro “Vendek” diz ainda que, para realizar o que havia afirmado apenas aguardava suas ordens. Ao referir-se à segunda resposta recebida, o emissário “Vendek” agradece ao Ministro e diz : “Monsenhor”, “A notícia que tive a honra de receber de vossa vinda a essa parte da França me deu muito prazer e eu me felicito porque vejo que me seria essencial ter a honra de Vos falar e o estado de minha saúde não me permite viajar a Paris. Se eu puder saber o dia de Vossa chegada a Nimes, e Vosso alojamento, não deixarei de ter a honra de ir Vos encontrar, o que estou pronto a fazer (ali), ou em qualquer outro lugar que Vos for mais agradável e para isso aguardo Vossas ordens. Aguardando, me orgulho de ser, com o maior respeito, Monsenhor, Vosso muito humilde e obediente Servidor, Vendek” (ver: Doc.34). A terceira (3ª) resposta ou mensagem do Ministro, escrita ao chegar a Nimes em 19 de março de 1787, foi publicada nos Estados Unidos às fls. 225 do volume referente a 1787 da coleção “The papers of Thomas Jefferson”. Este documento comprovante contém o texto original de tal resposta que, tendo sido manuscrita em irregular caligrafia, é quase ilegível. Desejando manter total anonimato, nesta última resposta o autor também avisou seu interlocutor que, ao procurar localizá-lo em Nimes, deveria perguntar, somente, por “...um viajante estrangeiro”, recém chegado à cidade (ver: Doc.40). Tal mensagem terá sido levada de Nimes por “alguém”, possivelmente ligado à Maçonaria. Ao chegar ao destinatário em Montpellier, a referida mensagem provocou a rápida partida de “Vendek” a Nimes - onde encontraria o Ministro Thomas Jefferson, bem como o estudante mineiro Domingos Vidal Barboza - que desde Dijon já acompanhava o Ministro. Recapitulando datas e textos da citada correspondência: Três cartas ou bilhetes do Alferes mineiro (ou “Vendek”) ao Ministro Thomas Jefferson, e três respectivas respostas, ou mensagens do Ministro ao emissário mineiro do pequeno grupo “Vendek”. A correspondência trocada entre “Vendek” e o Ministro Thomas Jefferson foi composta, ao todo, por seis (6) cartas e/ou bilhetes, datados em 1786 e 1787 - como segue: A 1ª carta de “Vendek”, manuscrita em Montpellier em 2 de outubro de 1786 (Doc.29), e mais tarde impressa às fls.427 do volume referente a 1786 da coleção “The papers of Thomas Jefferson”(Doc.30). Tal carta obteve uma (1ª) longa resposta do Ministro Jefferson, datada em Paris, em 16 de outubro de 1786. Cabe notar que o texto de tal resposta foi procurado por esta pesquisa em arquivos consultados na Capital, Washington D.C., e no Estado da Virgínia, porém o mencionado texto não foi encontrado. A 2ª carta de “Vendek”, datada em 21 de novembro de 1786 (Doc.31), publicada às fls. 546 e 547 do volume referente a 1786, da coleção “The papers of Thomas Jefferson”, obteve uma (2ª) segunda e amável resposta do Ministro Jefferson, em Paris, datada em 26 de dezembro de 1786 - em pleno recesso natalino (Doc.33: não fotocopiado neste relatório por não constar sua publicação nos States). A 3ª e última carta ou bilhete de “Vendek”, foi datada em Montpellier em 5 de janeiro de 1787 - e obteve, como (3ª) terceira e última resposta, um chamado urgente do Ministro - convocando-o, em Nimes, em 19 de março de 1787 (Doc.40, ver - fls. 225, do volume referente a 1786, na coleção: “The papers of Thomas Jefferson). A “estranha Jornada” Naqueles distantes dias do final de março de 1787, teve início a primeira etapa da “estranha jornada” percorrida na Europa pelo Ministro Jefferson - que, tendo “Vendek” e Vidal como acompanhantes, formara um trio de viajantes, os quais - reunidos, seguiram de Nimes ao porto de Marselha - onde chegaria a nau tendo a bordo José da Silva e Oliveira Rolim, o “Inconfidente”, Padre Rolim. Nascido na área “do Tejuco” e sendo filho do “Caixa dos Diamantes” da “Demarcação Diamantina”, o irrequieto “Padre Rolim” tudo conhecia quanto aos minérios e jazidas de inúmeras pedras preciosas, além de jazidas dos valiosíssimos diamantes da região - diamantes esses que, eventualmente, poderiam financiar sozinhos o levante libertário pretendido pelos brasileiros. Tal levante também havia sido projetado dois anos antes, em Coimbra, por jovens precursores integrantes do “pacto dos 12” estudantes brasileiros, os quais decidiram tornar livre a Colônia natal, e para cumprir tal fim se Conjuraram, ao final do ano letivo europeu, em julho de 1785. Cerca de dezoito meses depois, nos últimos dias de março de 1787, os três viajantes - o Ministro Thomas Jefferson, o emissário “Vendek” e o ex estudante Vidal, tendo ido a Marselha para receber o Padre Rolim, ali se detiveram durante alguns dias, aguardando a chegada da nau que conduzia tal personagem. Entretanto, essa nau que mensalmente era esperada e atracava naquele porto, por ignorados motivos, dessa vez não chegou na ocasião marcada. Decidindo aguardar a nova data de chegada do Padre Rolim a Marselha, nos - primeiros dias de abril os três viajantes passaram a visitar outras áreas do Mar Mediterrâneo, e a fazer iniciais contatos com outras empresas e pessoas, em outros portos e vilas. Em 13 de abril de 1787, dia do 44º aniversário de Thomas Jefferson, a carruagem do Ministro foi por ele deixada em depósito em Nice e, a seguir, os viajantes terão contratado guias, bons conhecedores daquelas áreas montanhosas, guias esses que, seguidos por suas mulas de carga e animais de montaria para transporte de passageiros, costumavam enfrentar veredas perigosas, e viajar tranqüilos à beira de abismos. O caminho a ser percorrido teve, como primeira escala, à noite - as vilas de Scarena e/ou de Sospello, situadas nos elevados montes Apeninos. Naqueles dias de abril, os três viajantes passaram por várias Vilas italianas - e finalmente chegaram a Turim, onde conheceram lavouras do arroz “piemontês” bem como as máquinas de descascar o citado arroz, sem quebrar os grãos. Seguindo depois por Novara até Milão, dali retornaram, passando por Pádova, e embarcaram em Gênova no dia 26 de abril, rumo a Nice. Porém, após dois dias de tumultuada navegação, uma repentina tempestade obrigou o piloto da nau a atracar em Noli, onde os passageiros desembarcaram no dia 28 de abril. No dia seguinte - 29 de abril, partiram todos, rumo a Nice - exaustos, outra vez em “dos de mulet”- ou lombo de mulas e em certos trechos até mesmo “... a pé” ! No dia e noite de 30 de abril, e na metade do dia primeiro (1º) de maio, emendando dois percursos, caminharam dia e noite, sem parar e sem dormir. No entardecer do citado dia primeiro de maio, conseguiram chegar a Nice, onde alguém já os aguardava, levando uma carruagem para que viajassem rumo a Marselha na madrugada da manhã seguinte, ao nascer do Sol. Por precaução, à noite anterior, em Nice, o Ministro escreveu a um amigo em Paris, pedindo que encontrasse um mensageiro eficiente e capaz de levar de Paris ao porto do Havre um volume, contendo correspondência que escreveria em Marselha, e que deveria ser despachada com urgência - em malote da nau que zarparia do Havre no dia 10 de maio, rumo à América do Norte. Em Marselha os três viajantes encontraram o recém chegado Padre Rolim - que transmitiria ao Ministro uma série de informações sobre recursos existentes na Demarcação Diamantina, os quais permitiriam transformar aquela submissa Colônia lusa - em uma “florente República”, brasileira. Em 4 de maio, Thomas Jefferson escreveu a John Jay um longo relatório (ver: Doc.45), onde avisou ter recebido inúmeras informações, inicialmente transmitidas por um emissário mineiro que entrara em contato por carta (rever: Doc.s 29 (manuscrito), Doc.s 30 e 31 (impressos) e Doc.32 (manuscrito em duas folhas avulsas, frente e verso). No mesmo texto transmitiu as recentes informações levadas pelo Padre Rolim, referentes aos recursos da região dos “diamantes do Tejuco”, situada nas proximidades da “Demarcação Diamantina”. No dia seguinte, 5 de maio, Thomas Jefferson escreveu à sua filha - a menina Martha - dando notícias sobre o difícil roteiro por ele já percorrido, e sobre seu breve retorno a Paris (ver: Doc.48). Em 10 de maio, alguns brasileiros terão celebrado a vitória de Maya Barbalho, na Defesa de sua Tese de Doutorado em Medicina, em Montpellier. Tal vitória foi alcançada na Universidade local, na presença de Thomas Jefferson - que, tendo participado das comemorações universitárias talvez ocorridas na noite do dia 10, no dia 11, hospedado pelo Reitor, visitou a Universidade, bem como a cidade e região local. No dia 12 de maio, o Ministro Thomas Jefferson também compareceu a um almoço festivo, realizado em Frontignan, na casa e cantina do Dr. Lambert - um dos mestres de Medicina na Universidade de Montpellier. Ao final da tarde, de Frontignan partiu para Cette, iniciando a segunda (2ª) etapa, daquela sua imensa jornada - durante a qual também visitou vários portos do litoral Atlântico francês, dessa vez sozinho. Tendo chegado a Nantes, visitou ali um arsenal de armas de caça, confiscadas na região de Bordeaux e ali depositadas em seu nome. De Nantes seguiu até o porto de “L´Orient” (atual Lorient) - onde decidiu visitar Rennes e dali retornar a Nantes - cumprindo este enigmático roteiro triangular em apenas seis (6) dias. Partindo de Nantes, decidiu viajar a Tours por via fluvial e, após deter-se ali durante alguns dias, de Tours retornou, finalmente, a Paris. O “Diário”, manuscrito em idioma inglês. O Ministro Thomas Jefferson reencontrou ainda uma vez o Alferes Xavier, ou emissário “Vendek” - quando o mesmo esteve em Paris acompanhado por Rolim - sendo ambos recebidos em breve e derradeira entrevista, ao final do ano de 1787. Na ocasião, ao conversar entre eles - para melhor entendimento, o Ministro Jefferson terá redigido um rápido e resumido “Diário”, relatando as providências que haviam sido tomadas por ele e seus partidários, após a sua gloriosa Declaração de Independência dos Estados Unidos da América do Norte. Tal “Diário” terá sido entregue ao emissário “Vendek” em Paris - porém, foi mais tarde confiscado no Rio de Janeiro, por guardas que, a mando do Vice Rei, aprisionaram o Alferes e o levaram - com seus “pertences”, à Fortaleza na Ilha das Cobras. Nos interrogatórios, nos quais foram ouvidos e registrados vários testemunhos, houve denúncia de que, em rara ocasião, o Alferes afirmara existir uma “...pessoa muito grande e de muito saber, que nos encaminha” - cujo nome jamais revelou. E em testemunho, prestado à Devassa pelo Capitão Antonio José de Araújo, este militar luso declarou que “Tiradentes” afirmava que: “tinha a América nas mãos” (Autos de Devassa, vol.1, fls 235 e 236). Relembrando alguns fatos anteriores: Na Universidade de Coimbra, ao final do ano letivo de 1785 - talvez no dia 16 de julho, um pequeno grupo de estudantes brasileiros, secretamente reunidos, em grave e solene ato deram-se as mãos e se Conjuraram - firmando o forte compromisso de somar esforços e, a qualquer custo e risco, tornar livre a Colônia natal. Naquele distante momento, ocorria ali o “pacto dos 12” estudantes que, ao concluírem - ou não, seus cursos superiores na Europa, certamente queriam localizar quem continuasse atuando, e cumprisse a meta de fortalecer a causa libertária do Brasil que era, até então, uma sofrida Colônia lusa. José Álvares Maciel - um estudante Conjurado e que, na ocasião, já se tornara um influente cientista, terá indicado o nome de um Alferes do Regimento de Cavalaria em Vila Rica - militar esse que chefiara a patrulha de acompanhamento da comitiva que partira de Vila Rica, três anos antes, e seguira até o porto do Rio de Janeiro - onde os irmãos Maciel (José, Teotônio e Francisco) embarcariam rumo a Lisboa, e dali seguiriam aos estudos superiores na Universidade de Coimbra. Entretanto, durante aquela jornada a caminho do Rio, os irmãos Maciel certamente ouviram o Alferes Xavier falar sobre seus intensos ideais libertários, e sobre seus projetos de instaurar, nas terras colonizadas, uma próspera República brasileira. É preciso notar que, ao chegarem de início a Lisboa, José Álvares Maciel e seus dois irmãos - em lugar de irem a Coimbra para estudar, talvez influenciados pelo Alferes - engajaram-se a uma expedição francesa que - sob comando do jovem Marquês de Lafayette, se destinava a lutar pela Independência norte americana - luta essa que então ocorria na América Setentrional, no Estado da Virgínia. Tal expedição, composta por voluntários, foi encaminhada de Portugal à França e dali à América - ao Estado da Virgínia - onde os irmãos Maciel terão conhecido líderes políticos, entre os quais o Ministro Thomas Jefferson. Dois anos e meio depois, concluída essa expedição, os três irmãos Maciel voltaram da América à Europa e, finalmente, fizeram suas respectivas matrículas em cursos da Universidade de Coimbra. José Álvares Maciel ali estudou e fez experiências - inclusive com balões estratosféricos, bem como efetuou buscas a minérios na Serra da Estrela, bem como buscas a salitre (para compor a pólvora). Tendo estudado em Coimbra desde novembro de 1782, ali permaneceu até o final do ano letivo de 1785. Junto aos seus irmãos e dois colegas (José de Sá Bettencourt e José Joaquim Maya Barbalho), José Álvares Maciel deixou Coimbra após ter prestado seu último exame em 16 de julho de 1785 (ver: Doc.12), e dali partiu rumo a Paris. Tal grupo de colegas se deteve brevemente em Montpellier, onde Maya Barbalho decidiu permanecer e matriculou-se na Universidade local em 1º de agosto de 1785 (ver: Doc.14). Ali passou a freqüentar aulas no curso trimestral de Medicina, e resolveu preparar-se para defender sua Tese de Doutorado em Medicina, sob orientação de um de seus vários mestres, o Professor Vigarons. Enquanto seus colegas prosseguiam a Paris - onde encontrariam Thomas Jefferson, o jovem Maya Barbalho - portador de adiantado mal pulmonar, terá encontrado alojamento adequado na casa de um hospedeiro, um certo Sr. Franc - cuja casa era situada nas proximidades da Universidade local, e da pequena Capela “de La Petite Sainte Anne”. Este endereço de Maya Barbalho em Montpellier, sendo do conhecimento dos colegas que até ali o haviam acompanhado, logo após passaria a figurar em um caderno ou livro de notas de viagem - as famosas “Rough Notes” do Ministro Thomas Jefferson, em Paris (ver: Doc.38) . Quanto a estes colegas brasileiros entre os quais estavam os três irmãos Maciel, ao chegarem a Paris, talvez aconselhados pelo Ministro Jefferson, dali partiram rumo à Inglaterra para conhecer, de perto, os resultados da chamada “revolução industrial inglesa”. Talvez à mesma época, em Vila Rica, ao receber e aceitar o desafio de ir à Europa, o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, em 1º de julho de 1786, redigiu e assinou um recibo dos seus soldos referentes ao segundo (2º) trimestre daquele ano de 1786 (ver: Doc.24), e terá passado a organizar-se para seguir, de imediato, à França. Na ocasião, o Alferes Xavier contaria com o apoio de seu Comandante, o jovem Tenente Coronel Francisco de Paula Freire de Andrada, que teria autorizado tal pagamento trimestral e aprovado o respectivo recibo, agindo até mesmo de forma irregular, porque tais tarefas - à época, certamente eram feitas pelo Tesoureiro oficial da tropa paga, exclusivamente. Após receber estes recursos próprios, o Alferes cumpriu últimos encargos de seu posto - ou seja, partiu de Vila Rica e terá feito cobranças em áreas distanciadas da Capital, onde recolheu taxas ou impostos devidos, os quais seriam enviados à Junta da Real Fazenda, em Vila Rica - remetidos por competentes autoridades em Curvelo. Em 11 de julho de 1786, ao chegar a Curvelo, o Alferes entregou às autoridades locais a quantia de cento e dez mil, setecentos e vinte e cinco réis (110.725 rs.), por ele arrecadados em moedas de ouro, prata e cobre (ver: Doc.25). Logo após, terá seguido ao litoral nordestino - onde tratou de embarcar em algum cargueiro luso, e assim terá cruzado o Oceano Atlântico, navegando como marinheiro, rumo à Europa. Enquanto ocorria tal início de viagem, em 27 de julho de 1786, por ordem do Governador em Minas, Dom Luiz da Cunha e Menezes - foi dada uma “Busca a papéis”, em uma propriedade rural da família dos Maciel - a paterna Fazenda “Caldeirão”, ou “dos Caldeirões. No laudo, cujo resultado concluía aquele “Auto de Busca”, foram registrados bens existentes na citada Fazenda Caldeirão e na roça “dos Carijós”. Nestes locais haviam sido encontrados, ao todo, os seguintes bens: “...cazas de vivenda terrias cobertas de telhas e sanzallas Covertas de Capim com Lavras de tirá oiro...” (sic), além de 92 escravos, e 50 cabeças de gado, bem como “...alguns móveis de muito pouco valor”. Na conclusão deste laudo foi feita uma ressalva por não ter sido encontrado o verdadeiro objetivo que dera origem ao citado “Auto de Busca”, busca essa que foi infrutífera porque: “...e não se acharão (acharam) papéis alguns, nem parte onde seguardacem” (...se guardassem - ver: Doc.26). Esta oficial busca a “papéis” terá sido provocada por alguma denúncia contra o Alferes - que, antes de viajar, estivera na Fazenda “Caldeirão” acompanhando o Sargento-Mor Rocha - um militar luso que havia sido posto à disposição do Governador de Minas porque se tornara especialista em elaborar censos e estatísticas. Tal técnico administrativo sabia, também, como produzir “papéis”, ou seja, desenhar quadros demonstrativos das inúmeras riquezas em minerais e pedras preciosas, existentes naquela região da Colônia. Nessa tarefa terá contado com a ajuda do Alferes e atendia a algum especial pedido daquele seu empreendedor amigo que, discretamente, queria conhecer tudo que estaria disponível na terra natal - quando chegasse o momento de erguer o planejado levante. Quanto à chegada de “Tiradentes” a Lisboa, a bordo de algum cargueiro luso que ali terá aportado no início de setembro de 1786 - vê-se que o Alferes terá partido rumo a Montpellier, onde teria o apoio de três estudantes de Medicina, os quais já o aguardavam - ou seja, dois cariocas, José Joaquim Maya Barbalho e José Mariano Leal, bem como um estudante mineiro, Vidal - ou Domingos Vidal Barboza. Paralelamente, cabe deixar nítido que o emissário, atuante na Europa sob codinome do pequeno grupo “Vendek”, sem dúvida alguma é o Alferes Joaquim José da Silva Xavier e, absolutamente, não é o heróico mas enfermo estudante carioca, José Joaquim Maya Barbalho - cujos últimos dias decorreram na Europa, sem ter regressado à sua terra natal. Este extraordinário jovem carioca, Maya Barbalho - tendo integrado o “pacto dos 12” em Coimbra, ao final do ano letivo de 1785 decidira inscrever-se ao curso trimestral de Medicina da Universidade em Montpellier, em 1º de agosto de 1785 (Doc.14). Contando com o apoio de um de seus mestres, o Dr. Vigarons, Maya Barbalho passou a atuar como intermediário, tratando de tornar mais fácil a troca de correspondência entre o emissário “Vendek”- que temporariamente se encontrava em Montpellier, e o Ministro Thomas Jefferson, que - à época, era o Representante de sua Nação na França, e residia em Paris. Maya Barbalho certamente pretendia, também, ser o único a ser responsabilizado pela secreta obra dos estudantes que se haviam Conjurado no “Pacto dos 12”, em Coimbra, ao final do ano letivo de 1785. Com este ato, Maya Barbalho generosamente resguardaria seus colegas quanto à autoria daquele “pacto” - onde inexistia “traição” ou “inconfidência” dos jovens brasileiros que pretendiam cooperar e agir em conjunto para tornar livre a bem amada e distante Colônia natal. Portanto, como “hipótese de trabalho”, é admissível que, ao ir a Nimes para atender ao chamado do Ministro, o emissário “Vendek” tenha substituído o estudante Maya Barbalho. Considerando que Vidal já estaria em Nimes, com a chegada do emissário “Vendek” (ou o Alferes Xavier), passaram a ser dois os discretos mineiros que acompanharam o Ministro Thomas Jefferson naquela primeira etapa da instigante e nada “estranha” jornada do grande líder, ao sul da França e norte da Itália, em 1787. Vidal havia abandonado seu curso de Medicina em Montpellier ao final de janeiro de 1787. Dali, havia seguido viajem, no início de fevereiro - rumo ao norte, em pleno inverno europeu! No dia 4 de março, o jovem havia sido encontrado em Dijon, quando ali jazia, extenuado e doente - porque vitimado pelo extremo frio setentrional. Após receber aviso de ter sido localizado o estudante que tentava encontrá-lo, o Ministro Thomas Jefferson terá acionado os primeiros cuidados e, transportando o doente até o castelo de Laye Epinnaye, ali terão sido ambos hospedados, durante quatro dias, por um casal de amigos. A seguir, tendo viajado na carruagem do Ministro Jefferson - até Lyon, Vidal terá ali recebido novos cuidados médicos - durante outros quatro dias. Com isso, a “estranha” jornada perdeu, ao todo, oito (8) dias - nos quais o estudante brasileiro terá recuperado a saúde, graças à atenção e cuidados do grande líder político norte americano. Desde então, Vidal passou a ser o primeiro dos dois mineiros que acompanharam aquela primeira etapa da instigante jornada, ou seja, seguiram o Ministro Jefferson nos 52 dias iniciais do amplo roteiro da jornada, percorrido pelo Ministro durante um total de 102 dias, vencidos na França e Itália, de março a maio de 1787. Chegando a Nimes, o Ministro convocou o comparecimento o imediato de “Vendek”. Este, ao receber tal chamado, datado no dia 19 de março, partiu de Montpellier e conseguiu chegar a Nimes no dia 20 ou 21 de março de 1787. O texto desta terceira e última mensagem ou resposta do Ministro, foi publicado na coleção “The papers of Thomas Jefferson”, às fls.225 do volume referente a 1787. Na presente pesquisa, tal documento foi enumerado como Doc.40, e em seu texto vê-se que o autor avisou “Vendek” que o aguardaria durante alguns dias, advertindo-o porém, que - ao procurá-lo em Nimes, deveria perguntar, somente, por um “viajante estrangeiro”- recém chegado à cidade. À margem esquerda do texto desta mensagem, há uma breve anotação do Ministro Jefferson, que ali transcreveu uma parte da penúltima frase da segunda carta de “Vendek”, copiando em alinhamento vertical, uma expressão que diz: “...que vous trouverez nécessaires”. Logo abaixo, anotou “M. 21 9.bre”, ou seja, indicou o local onde foi escrita a referida segunda carta de “Vendek”, bem como a data lançada na mesma: “Montpellier, 21 de novembro”. Esta anotação, um tanto enigmática, contém referência à segunda carta brasileira - onde o termo francês ”informations” consta manuscrito nas últimas linhas do Doc.32.2 (ver: Doc. 32, 32.1 e 32.2)- ou seja, na citada frase, o emissário “Vendek” declara o seguinte: “...je suis en état de Vous donner toutes les informations que Vous trouverez nécessaires”... Traduzindo livremente do idioma francês arcaico, o Alferes mineiro, ou emissário “Vendek”, diz: “... estou apto a Vos fornecer todas as informações que julgardes necessárias.” Ao excluir a palavra “informations” - que não consta do citado comprovante (Doc.40), torna-se nítido que a vontade do Ministro era conhecer as anunciadas e segundas “informações” que, levadas do Brasil à França pelo Padre Rolim eram confiáveis porque, este personagem - sendo oriundo da Vila do Tejuco, tudo conhecia referente às riquezas da citada região da Colônia. Este irrequieto mineiro, cujo pai era o “Caixa dos diamantes” da quase lendária “Demarcação Diamantina”, Rolim conhecia os recursos ali existentes, e detinha em seu poder as amplas “informações” que, neste caso, eram necessárias e urgentes porque tornariam decisivas as tarefas de programar o levante. À época, os três viajantes esperavam o “Clérigo do Hábito de São Pedro”, José da Silva e Oliveira Rolim - que chegaria em Marselha a bordo de uma nau que atracaria naquele porto no final de março ou início de abril de 1787. Entretanto, por algum desconhecido motivo, nos dias previstos tal nau não chegou! Enquanto esperavam a nova data da chegada, os três viajantes (o Ministro Thomas Jefferson, acompanhado pelo emissário “Vendek” e pelo estudante Vidal) - passaram a aproveitar o tempo disponível para visitar portos e cidades ou vilas francesas e italianas, situadas em áreas próximas ou no litoral do Mar Mediterrâneo. Paralelamente, é preciso notar que a jornada - cumprida em 1787 por Thomas Jefferson na Europa, e que até hoje é considerada “estranha” por alguns autores, teve origem em fatos e circunstancias de alguma forma ligados à sigilosa causa libertária brasileira. No dia 4 de maio de 1787, tendo conhecido e conversado com o recém chegado Padre Rolim, em Marselha, o Ministro Thomas Jefferson passou a escrever uma longa carta ou relatório, dessa vez endereçada ao Ministro John Jay que - à época, era o Encarregado de Assuntos Estrangeiros junto ao Congresso norte americano (ver: Doc.45). No texto dessa longa carta o Ministro Jefferson relatou detalhes sobre o povo brasileiro, e informou quanto aos recursos que estariam disponíveis, em defesa da causa libertária. No mesmo texto transcreveu outras inúmeras informações recentes, levadas por Rolim, afirmando que na Colônia sabiam produzir armamentos, mas precisariam obter canhões e munições. Precisariam, também, financiar valores para fretar naus de guerra, além de financiar os soldos às tripulações e aos oficiais, capazes de manobrar naus de grande porte. Alem disso, precisariam obter os meios de pagar os soldos a eventuais tropas terrestres, mercenárias. Ao providenciar a remessa deste longo relatório à América, junto ao envelope, o autor incluiu duas outras cartas, endereçadas a Paris e destinadas a dois assessores ou amigos (Doc.46 e Doc.47). Estas duas cartas contendo determinações a dois assessores referiam-se à remessa de seu relatório ao Ministro John Jay, e deveriam ser abertas e lidas em seu escritório e residência em Paris, sob cuidados de seu “Maitre d´hotel”. Em tais textos pediu que fosse localizado um mensageiro confiável e veloz, capaz de viajar “day and night” - sem parar, e levar de Paris ao porto do Havre o envelope contendo o urgente relatório - que deveria ser despachado no malote postal de uma nau que dali partiria no dia 10 de maio, rumo à América do Norte.. Entretanto, essa urgente remessa do relatório referente à causa brasileira, mesmo cercada de tantos esforços e cuidados, naquela ocasião falhou. Há uma versão, não confirmada, que diz ter o portador finalmente chegado ao porto do Havre quando a nau já zarpara, às 5 horas da madrugada daquela distante manhã européia... A “pá de cal” sobre este assunto foi dada meses mais tarde, em Nova York, em carta do Ministro John Jay que, em 8 de setembro de 1787, avisou ao Ministro Jefferson que as cartas de 4 de maio e 21 de junho de 1787, já haviam chegado e ambas haviam sido vistas pelo Presidente do Congresso. Entretanto, não haviam sido submetidas ao Plenário por falta de quorum. Em decorrência deste fato, também não haviam sido expedidos quaisquer Atos ou Instruções referentes às mesmas (Doc.60). Ao final do parágrafo, o Ministro John Jay discretamente acrescentou que, na sua opinião pessoal, tais cartas Honravam o autor - que ali descrevera apenas um reduzido aspecto daquele imenso empreendimento libertário. Algum tempo depois, já em Paris, o Ministro Jefferson redigiu outra carta ao Ministro Jay, datada em 19 de setembro de 1787 (ver: Doc.61), onde diz estar ansioso (“anxious”) para saber se havia sido recebida a longa carta por ele escrita em Marselha, em 4 de maio daquele ano de 1787. Esta mencionada carta de Marselha (Doc.45), causadora de tal ansiedade, era parcialmente referente à causa libertária brasileira, e continha uma discreta consulta quanto a um eventual apoio ou socorro norte americano, se no Brasil fosse detonado um levante armado. Estes fatos dão a medida do interesse de Thomas Jefferson pela causa libertária da colônia sul americana, que se dizia “compatriota” e se sentia ligada aos nascidos na ex “colônia inglesa” do ultra dimensionado Continente das três Américas (Doc.31). Voltando a focalizar o pequeno grupo de brasileiros em pauta (“Vendek”, Vidal e Rolim), vê-se que, acompanhando Thomas Jefferson, discretamente haviam assistido à Defesa de Tese de Doutorado em Medicina, vencida em 10 de maio de 1787, pelo Conjurado carioca José Joaquim Maya Barbalho, na Universidade de Montpellier. Vê-se, também que, no dia 12 de maio de 1787, o mesmo grupo terá acompanhado o Ministro e terá festejado tal vitória na vizinha vila de Frontignan, durante um almoço na casa e cantina do vinicultor e médico, o professor Dr.Lambert. Esta comemoração festiva, proporcionada pelo Dr.Lambert, foi descrita pelo próprio Ministro Thomas Jefferson, muitos anos mais tarde - em seu “Memoranda”, cuja folha inicial se vê no Doc.92. Tal momento também foi referido em carta escrita pelo Dr. Lambert em 11 de junho de 1787, e dirigida ao Ministro Jefferson que - nessa data citada, já regressara a Paris (Doc.50 e 50.1). Tal carta contém um pedido de desculpas, formulado por este médico e professor de Medicina - que diz estar arrependido por não ter reconhecido a identidade do famoso político que o visitara em sua casa e cantina, em Frontignan, no dia 12 do anterior mês de maio de 1787. Com essa carta, o Dr. Lambert comprova a presença do grande republicano no dia em que, professores da Universidade de Montpellier e autoridades de Frontignan, ali reunidos, comemoravam a vitória da Tese de Doutorado em Medicina, vencida na Universidade de Montpellier por um aluno brasileiro - o jovem médico carioca, José Joaquim Maya Barbalho - que certamente se havia Conjurado no “pacto dos 12” em Coimbra - e fora um dos precursores da chamada “Inconfidência”- mineira e brasileira.. Nos 50 dias finais ou 2ª etapa da não mais “estranha” jornada de 1787, o Ministro Jefferson - viajando sozinho, esteve em vários portos franceses do Oceano Atlântico. Em Nantes, o Ministro Thomas Jefferson visitou um arsenal de armas de caça, confiscadas na região de Bordeaux e ali depositadas, em seu nome. Dali seguiu a L´Orient (Lorient) e a Rennes, voltando a Nantes após cumprir este roteiro triangular em apenas seis (6) dias. Ao retornar ao seu posto em Paris, seguindo parcialmente por via fluvial, o Ministro se deteve alguns dias em Tours, onde visitou um cientista, a quem entregou “coquilles” - enviadas do Brasil, talvez por Frei Velloso - o ilustre biólogo e emérito cientista, “primo-irmão” do Alferes Xavier. No dia 10 de junho de 1787, o Ministro Thomas Jefferson chegou, finalmente, ao seu destino em Paris e, a seguir, retomou seu posto de Representante da Nação norte americana, na França. Ao redigir um documento indicando locais onde sugeria instalar Consulados norte americanos, em primeiro (1º) lugar o Ministro citou a cidade ou vila de Angra, na Ilha Terceira do Arquipélago dos Açores, por ser este o local onde os navios procedentes do Brasil atracavam para reabastecimento e onde poderiam ser obtidas “...notícias” referentes a “...este país” (Doc.89). (Ver: fls.251 do volume referente ao ano de 1790, da coleção “The papers of Thomas Jefferson). Em 16 de julho de 1787, voltando da Colônia lusa à Corte de Lisboa, o ex estudante de Medicina Domingos Vidal Barbosa - ou simplesmente Vidal, pediu e obteve o seguinte Passaporte: “Manda a Rainha N.Sra. se não ponha impedimento algum a passar para o Rio de Janeiro, e dali para as Minas Geraes Domingos Vidal Barboza, por constar ser Portugez, e ter vindo a esta Corte a tratar de algumas dependências, e se recolhe à sua Patria. Lisboa em 16 de julho de 1787. Marth.de Mello e Castro” (Doc.52). A finalidade desta vinda de Vidal ao Brasil terá sido acompanhar o novo médico brasileiro, José Joaquim Maya Barbalho, cujo estado de saúde declinara e estava gravemente enfermo. Outro objetivo de Vidal seria angariar, recursos no Brasil, para poder continuar a cumprir, na Europa, objetivos talvez secretos, da missão “Vendek”. Para este fim, o emissário “Vendek” contava receber, apenas, os atrasados soldos de dois trimestres de seu trabalho, vencidos no primeiro dia de abril e primeiro dia de julho de 1787 (Doc. 53 e Doc. 54). Para tentar receber o terceiro trimestre - que venceria no primeiro dia de outubro daquele ano de 1787, o emissário “Vendek”, em manuscrito assinado pelo Alferes Joaquim José da Silva Xavier, outorgou a seguinte Procuração ao advogado, Dr. Gregório Pr.ª de Albergaria (Doc.55) - que seria a ele entregue quando Vidal chegasse ao Rio de Janeiro: “Pela prezente por mim feita e assignada faso (faço) meu bastante Procurador o Sr. Dr. Gregório Prª. de Albergaria para que como Representante posa (possa) cobrar e receber do Sr.Cap.tªm (ilegível) Maurício (sinais ilegíveis) Thesoureiro da real Fazenda setenta e dois mil reis dos meus soldos do terceiro trimestre do corrente anno q. (recebo?) como Alferes da seista (sexta) Compª do Regimento de Cavalaria paga da mesma Cp.tª (Capitania) de que é Coronel o Il.m°. e Ex.mº Sr. Luiz da Cunha e Menezes, Governador e Cap.tªm General (anotações administrativas, ilegíveis). Na assinatura consta: “Rio de Janeiro, 1 de 8brº. de 1787, Joaq.m Joze da S.ª X.er.” Sob essa assinatura há o termo ”Reconheço”, rubricado por Mxd.º , ou Francisco Xavier Maxado, um militar luso que, no ano seguinte, passaria a ser pessoa de extrema confiança do novo Governador das “Gerais”- um fidalgo ainda jovem, o “Visconde General” que - à época, era herdeiro do elevado título nobiliárquico de Visconde de Barbacena. Repetido (fl.6)O “Diário” manuscrito em inglês Nos Autos de Devassa consta um testemunho, prestado pelo Cabo de Esquadra Pedro de Oliveira e Silva que, ao ser interrogado, informou ter encontrado no Rio o seu amigo Simão Pires Sardinha, e que este lhe dissera que o Governador de Minas Gerais, bem como o Vice-Rei no Rio de Janeiro, estavam, ambos “...averiguando uma sublevação que o Alferes Joaquim José intenta fulminar”. Segundo esse testemunho, Simão Pires Sardinha comentara que havia visto tal “Diário”- e em parte o traduzira, a pedido do Alferes Xavier. Este fato, mais tarde, o terá preocupado - e o fez devolver o “Diário” ao dono, o “Tiradentes”. Quando questionado na Devassa, o Cabo de Esquadra Pedro de Oliveira e Silva declarou que Simão lhe havia dito, também, o que segue: “... e o mesmo Alferes, um dia destes, me levou um diário que declara como foi o levante da América Inglesa, para eu lhe traduzir certas passagens, o qual lhe tornei a mandar”. (Autos da Devassa, volume 1, fls.307 a 309: “Assentada” em 20 de março de 1790). Esta informação de Simão Pires Sardinha permite afirmar que, no mencionado “Diário”, o grande líder demonstrava sua intenção de citar, e/ou revelar o que seus patrícios e ele haviam feito ao decidir declarar a Independência de seu imenso país - e com isso arcar com inúmeros problemas decorrentes. Na Biblioteca do Congresso norte americano, entre textos arquivados porque atribuídos a Thomas Jefferson como autor - o fascinante “Diário” não consta e sua existência, em 1787, no Rio de Janeiro não era sequer conhecida em serviços especializados da Biblioteca do Congresso norte americano, quando consultados por esta pesquisa. Provas documentais da presença de “Tiradentes” em Lisboa, no Palácio Real de Nossa Senhora da Ajuda, em setembro de 1787. A presença do Alferes Joaquim José da Silva Xavier no Palácio Real ocorreu, inicialmente, no dia 4 de setembro de 1787, cerca de três meses e meio depois de ter acompanhado a 1ª etapa da “estranha” jornada de Thomas Jefferson, quando ambos visitaram portos franceses e italianos situados no litoral do mar Mediterrâneo, seguidos sempre pelo estudante Vidal. No início do mês de setembro de 1787, talvez ansioso pela prolongada espera de uma aguardada resposta norte americana, o Alferes Joaquim José da Silva Xavier compareceu, fardado, à Portaria do Palácio de Nossa Senhora da Ajuda, em Lisboa - onde funcionava a Chancelaria da corte lusa, e local de trabalho ou residência da Rainha, Dona Maria I. O oficial de plantão na Portaria, responsável pelo “Livro de Porta”, ou agenda do Palácio, anotou o nome e o objetivo daquele recém chegado sub oficial que, na distante Colônia, militava no Regimento dos “dragões” da Cavalaria, ou da “tropa paga”, em Vila Rica : “Joaquim Joze da Sª X.er” ____________”Licença por hum anno”............ (Doc.56, Letra “A”). A seguir, o mesmo oficial redigiu uma petição do Alferes, dirigida à Rainha, Dona Maria Iª: “Senhora, “Diz Joaq.m Joze da Sª. X.er, Alferes da Cavalaria em Minas Geraes, que tendo algumas depend.ªs (dependências) de sua Casa em esta Cid.ª (cidade) nas quais está (estão) cada vez mais deteriorando-se-lhe os seus bens por causa da falta de sua assistência, perciza (sic) q. V. Mag.de lhe conceda Licença por tempo de hum anno, pª. Vir a esta Corte findo o qual se recolhe logo a continuar em exercer o Real Serviço: port.º (portanto) Pede a V.Mag.de seja Servida facultar-lhe a Licença por tempo de hum anno, graça esta q.V. Mag.de tem concedido em iguaes circunst.ªs” E.R.M. – ou: Espera Receber Mercê: .......................................................................(Doc.57, Letra “B”). Ao alto consta o Despacho, concedido pelo Conselho Ultramarino, que diz :“Por constar neste Conselho a justa “precizão”que o Suplicante tem da Licença que pede, lhe concedem por um anno, sem vencimento de tempo nem soldos. Lxª, 4 de Set. de 1787”. ........................(Doc.57, Letra “C”). Quanto à “Licença por hum anno”, pedida pelo Alferes no dia quatro (4) de setembro de 1787, foi concedida no dia oito (8) de setembro, conforme se vê no correspondente documento comprovante, expedido por Conselheiros do Conselho Ultramarino............................................(Doc.57, Letra “C.1”). Na mesma data e local, o Alferes foi atendido em outro setor da Chancelaria - onde retirou, ou “selhedeu” um “bilhete” - ou uma “guia de pagamento”, onde consta o seguinte: “A Joaquim Jozé da Sª (Silva) Alferes da Cavalaria em Minas Geraes, se há de passar Licença para vir a esta Corte, e para pagar o Direito que dever selhedeu este bilhete Lx.ª (Lisboa), 4 de setembro de 1787 ”................................................................................................................(Doc.58, Letra “D”). Três dias depois, em 7 de setembro de 1787, dois tesoureiros assinaram ter recebido a quantia de 540 réis, que foi por ambos lançada: “À p.(página)“57 v.(verso) do Livro de Receitas de Novos Direitos ficão (ficam) carregados aoTesouro deles quinhentos e quarenta réis” Lxª (Lisboa), 7 de Set.bº de 1787.” Assinam: Carlos And.ª da Matta e Pedro José Campos. Na mesma folha consta, ainda, o lançamento feito pelo Secretário da Rainha: “À p.(página) 146 v.º do Lº.(livro)44 do Registro Geral dos Novos Direitos fica ref.º (referido) este Conhecimento”.(Sinais e assinatura ilegíveis, feitos pelo Secretário pessoal da Rainha, Jerônimo José de Moura)..........................................................................(Doc.59,Letra “E”). Duas semanas mais tarde, no dia vinte e sete (27) de setembro, tal Licença foi novamente concedida e, dessa vez, continha um “salvo conduto” que, mesmo não tendo sido solicitado pelo Alferes, por certo o resguardaria contra desmandos de funcionários da “corte colonial”, quando este militar chegasse de volta ao Rio de Janeiro. Esta segunda (2ª) Licença, neste relatório tem o seguinte número de documento:..............................................................................................................(Doc.62, Letra “F”). No texto, Dona Maria Iª informa que Joaquim José da Silva Xavier apresentara um requerimento (Doc.63), cuja cópia enviava, pedindo autorização para construir moinhos em locais, a seu critério, “...muito abundantíssimos de ágoas”. Em 28 de setembro de 1787, às vésperas de seguir a Paris, o Alferes apresentou à Rainha um outro pedido para construir “moinhos de água” no Rio, e no recôncavo fluminense:......(Doc.63, Letra “G”1) Na mesma data a Rainha ouviu o Procurador da Real Fazenda, e logo após emitiu uma “Ordem” ao Ouvidor Geral da Comarca do Rio de Janeiro, determinando a emissão de um Parecer sobre a citada petição do Alferes, após ouvir a Câmara, Nobreza e povo”: ................................(Doc.64, Letra “G”2). No dia seguinte ao da emissão da 2ª Licença, foi redigida a “Ordem” régia ao Ouvidor Geral da Comarca do Rio de Janeiro, referente à questão “das águas” de um rio e um córrego, existentes nas imediações daquela cidade (Doc.64), bem como em rios situados no “recôncavo fluminense”. Tais fatos ocorreram no período em que alguns Conjurados brasileiros aguardavam, na Europa, a resposta norte americana sobre a ajuda, a lhes ser dada se na Colônia ocorresse um levante armado, cujos fins seriam, decididamente, libertários. Os atuantes membros daquele movimento precursor republicano, certamente sabiam que tal resposta lhes seria transmitida após ouvir o resultado da consulta, enviada pelo Ministro Jefferson ao Ministro John Jay, que a submeteria ao “Plenário” do Congresso da América Setentrional. Este fato, porém, não ocorreu porque, na ocasião faltava o regular “quorum” de representantes dos Estados que integravam a então recente República dos Estados Unidos da América do Norte. “Sumário de perguntas” a Francisco Antonio de Oliveira Lopes e os três novos projetos do Alferes. Para conhecer algo da resposta aguardada, é preciso recorrer ao “Sumário” do “Auto de perguntas”, ao qual foi submetido, principalmente, o Inconfidente Francisco Antonio de Oliveira Lopes - preso e interrogado pela Devassa em Minas em 7 de julho de 1789 - quando também foram ouvidos vários outros indiciados, entre os quais seu “primo” Vidal, ou Domingos Vidal Barboza - cujo interrogatório foi autuado no dia seguinte, 8 de julho de 1789 ..............................................................(Doc.65 e 65.1). Tal “Sumário” foi transcrito nos “Autos de Devassa”, editados na década de 1930 (2º volume, fls.81 a 95), e reeditados na década de 1980 (2º volume, fls.87 e seguintes). A ajuda pedida em 1786, por “Vendek” ao Representante dos Estados Unidos na França, não chegou a acontecer, e as condições sugeridas em 1787, limitavam-se a uma proposta de permuta - ou seja: o Brasil receberia tropas civis, mercenárias, bem como naus alugadas se, em contrapartida, financiasse a locação de tais recursos, e se passasse a adquirir produtos - oriundos da América do Norte. Tais condições terão sido transmitidas pelo Ministro ao emissário “Vendek” e ao “Padre Rolim” em Paris, ao final do ano de 1787 - e terão dado causa e provocado o imediato retorno do Alferes à corte de Lisboa, seguido por Rolim. O objetivo deste retorno urgente a Lisboa seria levar à decisão da soberana de Portugal, Dona Maria Iª, três novos projetos do Alferes, a seguir referidos: 1º) Um projeto para construir “edifícios”- ou edificações não definidas, a serem erguidas na praia carioca de Copacabana. Somente quando interrogado pela Devassa na Fortaleza da Ilha das Cobras, em 22 de maio de 1789, o Alferes Xavier afirmou que tais construções seriam um “desembarcadouro e embarcadouro” de gado bovino e eqüino. À época, existiam manadas de tais animais vivendo em estado selvagem, livres e sem dono nas pradarias do sul. O projeto do Alferes seria, talvez, capturar tais animais quando ainda bezerros e potros e transportá-los, por mar, ao Rio de Janeiro - onde seriam cuidados para que se desenvolvessem e dessem origem a futuros e extensos rebanhos.......................................................................Doc.66, concluído no Doc.67). 2°) um renovado projeto “das águas”- a serem levadas até a fonte “da Carioca” por deslizamento em longas canaletas, feitas com tábuas de madeira provavelmente impermeabilizadas com algum óleo vegetal e colocadas em adequado declive. O uso desta simples técnica poderia minorar, parcialmente, o grave problema de “falta de água”, existente - à época, na cidade do Rio de Janeiro...............(Doc.68); 3º) um projeto para construir um “...armazém para recolher trigo”, a ser erguido no Rio de Janeiro em um lote de terreno, livre de edificações, e situado entre a “ponte da Alfândega e o trapiche da Lapa” Este terceiro e último projeto, talvez negociado em Paris, tinha por base uma permuta: o Brasil receberia “naus e gente” se - em contrapartida, além de financiar tais recursos, adquirisse bacalhau ou “peixe seco” e “trigo”, produzidos na América setentrional. ...................................................(Doc. 69). No breve retorno à Capital lusa ao final de 1787, “Tiradentes” e o “Padre Rolim”- dois mineiros inesperados - terão sido recebidos com surpreendente atenção e rapidez pela Rainha Dona Maria Iª - que, naquela mesma ocasião, após ouvir as razões do Alferes, redigiu três “Ordens” ao Vice Rei no Rio de Janeiro. Nos textos originais desses três documentos ou “Ordens”, vê-se que a soberana decidira apoiar os três projetos apresentados e, nas respectivas três cartas régias por ela enviadas ao Vice Rei no Rio de Janeiro, autoritariamente a Rainha mandou emitir “Parecer” sobre cada uma das três “benfeitorias” planejadas pelo Alferes e a serem por ele entregues ao Vice Rei quando chegasse, de volta, ao Rio de Janeiro........................................(Doc. 66 - concluido no Doc.67, Doc.68 e Doc.69). Ao finalizar cada um destes seus três textos, a Rainha diz: ”...Sou Servida ordenarvos informeis com o vosso parecer”. A Rainha também determinou - e dessa vez ao Alferes, que entregasse os originais das suas três “Ordens” ao destinatário, o Vice rei no Rio de Janeiro - bem como uma única “Ordem” a Marcelino Pereyra Cleto, o Ouvidor Geral da Comarca do Rio. Tal “Ordem das águas” ao Ouvidor, já havia sido por ela emitida em Lisboa, em 28 de setembro, antes que “Tiradentes” e o Padre Rolim seguissem a Paris. Tais fatos revelam que Dona Maria Iª ouviu com interesse as sugestões de benfeitorias, contidas nos três projetos do Alferes, e os aprovava certamente porque beneficiavam o povo colonial e eram compatíveis aos seus desígnios na gestão do trono. Confiantes no bom resultado dessa iniciativa, ao final da real audiência, os dois mineiros trataram de encontrar uma nau que os transportasse de volta ao Brasil, onde poriam em ação as idéias desenvolvidas..ou..aprofundadas..na..Europa. Ao chegarem ao Pará, terão desembarcado e dali viajado à Bahia por navegação costeira. Prosseguindo por terra, chegaram ao Tejuco - onde terão permanecido alguns dias e, pouco depois, partindo dali passaram pelo Arraial da “Água Suja”, hoje Berilo - onde visitaram a Fazenda do Sobrado, construído pelo Inconfidente Domingos de Abreu Vieira, a mando de dois dos Rolim: o Padre José, e seu irmão - o Bacharel Plácido da Silva e Oliveira Rolim....................................................................Foto: (Doc.70). O referido imóvel havia sido destinado a ser o dote de casamento de uma “sobrinha”, ou filha natural do Inconfidente Rolim, a jovem mestiça Anna Thereza de Jesus que, segundo diz a tradição local, teria nascido antes da ordenação sacerdotal de seu pai, José da Silva e Oliveira Rolim. O casamento de Anna Thereza de Jesus com o Alferes, possivelmente, terá ocorrido no Tejuco ou no referido Sobrado talvez em fevereiro de 1788 - quando este militar recém chegara da Europa. Partindo do “Arraial da Água Suja”, o Alferes Xavier passou por Vila Rica, onde procurou um seu conterrâneo - o Tenente Mello, a quem confiou o ocorrido na Europa, além de mostrar “...uns “papéis que trazia”, e que continham três “...despachos do Conselho de Ultramar”, a serem por ele entregues ao Vice Rei, quando chegasse aos bastidores da “corte” colonial do Rio de Janeiro. Após conversar com o Tenente Mello em Vila Rica, o Alferes Xavier visitou três amigas – as conhecidas “Pilatas”, sendo a primeira uma mestiça de 40 anos de idade, Ana Maria Rosa da Silva, a mãe de duas jovens mestiças - Simplícia Maria de Moura e Francisca Caetana de Moura. Os testemunhos das três “Pilatas” de alguma forma coincidem com o que foi dito ao Tenente Mello e que, mais uma vez, comprovam a ida do Alferes “Tiradentes” à Europa, onde permaneceu cerca de ano e meio, de setembro de 1786 até o final de 1787. De Vila Rica, o Alferes seguiu ao Rio de Janeiro, onde chegou no final de março de 1788 - e ali tratou de entregar aos dois destinatários os “papéis”que trouxera de Lisboa - isto é, a “Ordem” régia ao Ouvidor Geral da Comarca, Marcelino Pereyra Cleto - e as três severas “Ordens” régias ao Vice Rei. Este último, certamente irritado por ter recebido as determinações da Rainha, a ele entregues por um insubordinado Alferes, em represália, deixou a soberana sem resposta. Fingindo ignorar ou “esquecer” as três “Ordens” recebidas, desobedeceu de forma ostensiva, o que o “governo de mulher” da soberana, Dona Maria Iª, expressamente lhe ordenara fazer. Por extrema ironia, o Vice rei usava este fato como demonstração de seu prestígio e pessoal poder. As segundas (2ªs.) vias das três “Ordens” da Rainha ao Vice Rei no Rio de Janeiro terão sido pedidas por Vidal, quando voltou - da Colônia, aos bastidores da Corte de Lisboa. Dos textos das três “Ordens”, expedidas ao Vice Rei no Rio de Janeiro no final de 1787, foram extraídas segundas (2ª.s) vias em Lisboa, no mês de agosto de 1788. Estas cópias dos três (3) textos foram lançadas em uma só folha avulsa – onde consta o início do Doc.66, concluído no Doc. 67, bem como o Doc.68 e o Doc.69. Os três textos foram repetidos no Doc.84 desta pesquisa, onde também consta uma denominação alfabética (Letras “M1”, “M2” e “M3”), que teve início numa primeira edição do “Tiradentes face a face”, onde constam fotocópias de alguns documentos, ali referidos sob títulos alfabéticos, da Letra “A” em diante. As citadas Segundas Vias terão sido possivelmente pedidas por Vidal - quando este Inconfidente retornou a Lisboa após ter vindo ao Brasil em julho ou agosto de 1787 - conforme consta em seu passaporte, concedido anteriormente em Lisboa, no dia 16 de julho de 1787 (rever: Doc.52). Esta iniciativa de Vidal terá sido tomada por precaução, porque se destinava a uma eventual futura Defesa, se fossem processados os envolvidos no projetado levante, caso ocorresse alguma denúncia contra o Alferes“Tiradentes” e seus partidários, na sua Colônia natal. A “Ordem ”ao Ouvidor já havia sido despachada anteriormente pelo Conselho Ultramarino, atendendo à petição do Alferes (Doc. 63), que também já havia obtido a respectiva “Ordem” régia de Dona Maria Iª (Doc. 64). O citado ex estudante de Medicina- Domingos Vidal Barboza (sic), ou apenas Vidal, ao retornar da Colonia natal à Europa, manteve-se em Lisboa até agosto de 1788 - quando providenciou a emissão das segundas (2ªs) Vias dos textos das três cartas ou “Ordens” régias, entregues ao Alferes Xavier que, ao retornar ao Brasil trouxera, os originais das três cartas da Rainha, destinadas ao Vice Rei no Rio de Janeiro. Em agosto de 1788, a pedido de Vidal - que já voltara à Europa após viajar à Colônia, foram extraídas em Lisboa segundas (2ªs.) vias das três “Ordens”de Dona Maria Iª ao Vice Rei no Rio de Janeiro, reunidas em uma só folha avulsa, ora lançada neste relatório sob números de comprovantes: Doc.nº 66/67, Doc.nº68 e Doc.nº69. Esses três textos de segundas (2ª.s) vias, reunidos em uma só folha manuscrita, foram impressos em uma só folha fotocopiada nesta pesquisa, e foram repetidos no Doc.84 desta pesquisa. Quanto ao que passou a ocorrer com Joaquim José da Silva Xavier enquanto esperava alguma resposta do Vice Rei no Rio de Janeiro - vê-se que o Alferes tratou de continuar a erguer um ”trapiche”, ou armazém, em local onde pretendia recolher o “trigo” americano, secretamente negociado por ele, em Paris, no trimestre final de 1787. A seguir, na Câmara do Rio de Janeiro, antes de viajar de volta à Vila Rica, fez extrair duas “Certidões”, enumeradas nesse trabalho como Doc.77 e Doc 78. Estes dois mencionados documentos tiveram as medidas de seus textos reduzidas nas duas fotocópias e foram ambos situados em uma só folha, para fins de comparação, folha essa que foi aqui enumerada como Doc.79 deste trabalho. Tais documentos são referentes à “questão das águas”. Uma petição do Alferes, solicitando autorização para instalar moinhos nas águas de um córrego e de um rio que fluem dentro ou bem próximos à cidade do Rio de Janeiro, bem como em rios do recôncavo fluminense (Doc.s 78 e 78.1), foi datada no Rio em 19 de junho de 1788, em pasta reservada às “Cartas do Senado da Câmara”, em 1788”. O trigo ali mencionado e negociado na França, brevemente chegaria ao Rio, por mar. Portanto, ao situar seu “armazém para recolher trigo” junto ao rio Andaraí, vê-se que o Alferes não havia obtido autorização para construir tal armazém - ou trapiche, no local inicialmente pretendido. Na realidade, o Alferes projetara armazenar tal “trigo” em um lote de terreno sem construções, situado “...entre a ponte da Alfândega e o trapiche da Lapa”. Em 19 de junho de 1788, sem ter obtido qualquer resposta do Vice-Rei quanto às três “Ordens” de Dona Maria Iª, e diante dos demais antagonismos enfrentados - entre os quais o mais insultuoso foi a “pateada”, por ele sofrida ao entrar na “Casa da Ópera”, em noite de festa no Rio de Janeiro - Sentindo-se humilhado, o Alferes decidiu deixar a capital do Vice reinado luso, e retornar à sua empobrecida e bem amada Capitania “das Gerais” - onde queria, de imediato, encontrar os meios de detonar o sonhado levante. No segundo semestre de 1788, o Alferes - já nas “Gerais”, constatou que sua terra natal temia enfrentar aquela ação libertária, por ele corajosamente apregoada “aos quatro ventos” pátrios. Naquele retorno à Vila Rica, talvez tenha mantido algum discreto afastamento do Regimento “dos Dragões” porque, em março de 1789, novamente decidiu descer ao Rio de Janeiro, e para esse fim obteve regular Licença. Tendo como único acompanhante o escravo “Camundongo”- talvez “emprestado” pelo Inconfidente Alvarenga - que era “dono” de um escravo conhecido por esse apelido, o ”animoso Alferes” viajou ao Rio em montaria de um burrico - talvez igualmente emprestado. Junto à sua escassa bagagem, levou o “Diário”, em idioma inglês - possivelmente escrito pelo Ministro Jefferson, na última reunião em Paris, no final de 1787. O referido “Diário” relatava os meios e os “passos” do levante que, onze (11) anos antes haviam conduzido à vitória o ideal libertário da República dos Estados Unidos. Cabe indagar se este “Diário” foi preservado, e onde se encontra atualmente - em algum Arquivo oficial, ou particular? Estará na Europa, ou em uma das três Américas? Como “hipótese de trabalho”, há mais uma indagação a ser feita para esclarecer outra dúvida: em novembro ou dezembro de 1787, durante a última visita dos dois mineiros ao “compatriota” continental em Paris, teria sido Thomas Jefferson o autor deste “Diário”- rapidamente manuscrito em idioma inglês, e entregue aos dois brasileiros em Paris? Da mesma forma cabe indagar quanto à localização dos originais das três “Ordens”, enviadas pela Rainha Dona Maria Iª ao Vice-rei no Rio, ao final de 1787. Será útil localizar e obter cópia dos três textos originais dessas três cartas régias. Terão sido arquivadas em Portugal, ou estarão ainda no Brasil? Em 11 de julho de 1789 - quando o Alferes já havia sido preso em maio, no Rio - foi redigido em Vila Rica um Relatório” (Doc.91), emitido pelo novo “Capitão General e Governador da Capitania de Minas Gerais” - o Visconde de Barbacena, um fidalgo luso ainda jovem, e certamente herdeiro deste elevado título nobiliárquico europeu. No Capítulo “IX” do citado documento, onde constam “Antecedentes” da grande Conjuração, o “Visconde General”, ou Visconde de Barbacena denunciou o “pacto”, ocorrido em Coimbra entre doze (12) estudantes brasileiros. No texto, o Visconde expressou sua opinião adversa quanto aos personagens daquele movimento precursor, por ele considerado uma grave “Inconfidência”, ou “traição” republicana. Ainda no mesmo Capítulo IX do citado relatório, remetido à Corte lusa pelo denunciante, se vê a afirmativa de que, daquele grupo de jovens conspiradores em Coimbra, “...cá se encontravam três”. Este fato revela que o Visconde conhecia os integrantes do “pacto dos 12”, alguns dos quais - ou todos, teriam sido seus alunos no período em que exercera o cargo de Regente Substituto da Cátedra pertencente ao Mestre Domenico Vandelli, na Universidade de Coimbra. À distância de bem mais de dois séculos, parece difícil, mas não impossível traçar o perfil da obra destes jovens patriotas brasileiros que, ao final do ano letivo de 1785 foram autores do “pacto dos 12” - cujos nomes, datas, objetivos se esvaíram no tempo, e cuja Memória foi deliberadamente apagada por interesses estrangeiros, dominantes na época. O mesmo ocorreu, também, com referência à obra de nosso Patrono Cívico, o quase desconhecido Alferes “sem temor”, Joaquim José da Silva Xavier, “...por alcunha o “Tiradentes”. No rascunho dos “Primeiros Embargos de Defesa” - localizado pelo historiador luso Manuel Rodrigues Lapa nos arquivos da antiga “Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, foi lançado nas últimas páginas de um volume ainda em branco, algo que paira ainda sobre a Memória da obra do Alferes Xavier: “Tiradentes, Autor e Cabeça, fallador, preterido 4 vezes sendo bom militar, pobre, tudo confessou, enthusiasta pella América Inglesa chegara da Europa e occupava-se em um trapiche no Andarahy”. Cabe notar, também, que nos “Autos da Devassa da Inconfidência Mineira”, são várias as acusações contra o Alferes, denunciando o entusiasmo que demonstrava quando citava o “exemplo da América inglesa”, e pregava sobre seu amplo sonho de “liberdade”. Em determinada ocasião, “Tiradentes” contestou o que disse uma pessoa - que o advertira quanto ao perigo de falar em “levante”. Contestando este amedrontado ouvinte, o Alferes repetidamente corrigiu: Não diga levantar”! É restaurar ! É restaurar !” Com esta expressão, o Alferes referia-se à ideal restauração da liberdade - que é inerente e/ou nasce com o ser humano - e este mesmo ser humano a perde quando se submete à opressão e à força de algum outro poder, alheio e estrangeiro. Mais raramente o Alferes “Tiradentes” falava sobre uma “... pessoa muito grande e de muito saber, que nos encaminha” - cujo nome jamais revelou. (ver: “Autos de Devassa da Inconfidência Mineira”, vol.1, fls. 229, Imprensa Oficial, ed.1976). Essa total confiança do Alferes na citada “... pessoa que nos encaminha”, também está contida em outra denúncia, feita em Vila Rica pelo Capitão do Regimento da Cavalaria paga, Antonio José de Araújo - que, ao ser ouvido na Devassa, declarou que “Tiradentes”, em seus discursos, afirmava que: “...tinha a América na mão”! (Autos de Devassa, Vol.1, fls. 235/236). No mesmo Vol.1 dos Autos da Devassa, às fls.222 a 224, também há denúncia a este fato, feita pelo 31º testemunha, Pedro Afonso Galvão de São Martinho. Cabe notar, ainda, quanto ao carioca Maya Barbalho, que seu alojamento em Montpellier desde o final de julho ou início de agosto do ano de 1785, situava-se “chez M. Franc”, ou seja, em casa de um hospedeiro, o Sr. Franc. É surpreendente constatar que este endereço de Maya, em Montpellier, constava, também, na famosa agenda ou “Rough Notes” de Thomas Jefferson, por ele lançada entre os endereços que preparava em Paris, antes de começar sua jornada ao sul da França e norte da Itália em 1787, como se vê a seguir : ”Montpellier. M.Maya. chez M.Franc. a La petite Ste.Anne” (Doc. 38 e 38.1). Quando “Tiradentes” foi submetido à primeira (1ª) inquirição na Fortaleza da Ilha das Cobras, em 22 de maio de 1789, seus guardas, inquiridores indagaram: “...a que veio a esta cidade ? De imediato o Alferes respondeu que: “...viera a esta cidade para a informação de três requerimentos, (1) um a respeito de umas águas, outro de um trapiche, e outro sobre embarque e desembarque de gados”... Salienta-se aqui a intrepidez daquele “Alferes sem temor” que, perante os inquiridores, na Devassa, assumiu ter apresentado seus audaciosos projetos à Rainha - sem revelar que a soberana, em espontâneo gesto, mandara expedir de imediato as três severas “Ordens” ao Vice Rei. Tais “Ordens” - que tanto irritaram o Vice Rei, por acréscimo lhe foram entregues através daquele insubordinado Alferes do Regimento de Cavalaria Regular de Vila Rica. Omitindo este fato, o Alferes talvez pensasse resguardar a soberana - que, por sua vez também o protegera em Lisboa, ao final de 1787 - quando mandara inserir um “salvo conduto” no texto da ampla Licença, por ela concedida - mesmo sem ter sido peticionada pelo Alferes. Com isso, a soberana indiretamente, prevenia eventuais “desmandos” de funcionários da “corte” colonial do Vice rei, quando o Alferes voltasse ao Rio de Janeiro. A Licença datada em 27 de setembro de 1787 (Doc.62, Letra “F”), foi dada pela segunda vez ao Alferes, substituindo outra, anterior e mais simples - que fora pedida e concedida em 4 de setembro de 1787. Nesta mesma data, a petição de Licença recebera parecer favorável do Conselho Ultramarino, sendo expedida, por uma Via, em 8 de setembro de 1787 (Doc.57, Letra “C1”). Na segunda Licença, mais ampla, foi introduzido um “Salvo Conduto”, cujo texto diz o que segue: “Dona Maria Iª. “Faço saber aos que esta mª Provisão virem q. por parte de Joaquim José da Sª.X.er Alferes da Cavallaria em Minas Gerais se Me Representou q. em razão de (ter?) algumas dependências de sua Casa nesta Cidade e se lhe estarem cada vez mais deteriorando seus bens pella falta de sua asistencia, não podendo dar o preciso remédio sem vir a esta Corte, com Licença Mª (minha) Me pedia fosse Servida facultarlha. E sendo visto seu Requerimento e constar a justa precisão com q. a pede, Hey por bem concederlhe a Licença por tempo de hum anno sem vencimento de tempo nem soldo.” “Pello que Mando ao Meu Gov. (Governador) e Cap.ªm General da Capitania de Minas Gerais, Ministros e Pesoaz (pessoas) a que tocar, Cumprão (cumpram) e guardem esta Provisão como nella se conthein (contém) sem duvida alguma.”“ “Pagou de Novos D.tºs. (Direitos) 540 rs. que se carregarão ao livro delles a.p 57 v do Lº (livro) 4º de sua Receita como constou do Conhecimento em p. L. 44 (ilegível) Registo gªl. a p.146. A Rainha Nos.ª S.rª. mandou pellos Ministros Concelheiros de Seu Concelho Ultr.º (Conselho Ultramarino) abaixo asignados. Caetano de Britto a fez em Lxª (Lisboa) a 7 de 7brº. de 1787. “De feitio desta 300 rs. e de asignatura 800 rs. O Secret.º Joaq.m Miguel Lopes a fez escrever. João Bapt.ª Vaz Per.ª. Francisco da Sª Corte Real. Por Desp.º do Conc.º Ultr.ºde 4 de Setb.º de 1787. José (?) e Per.ª de Castro. Pagou 540 rs e aos officiaes 428 rs. Lxª (Lisbôa).27 de 7brº de 1787. Como Vedor, Antonio José de Moura.” A partir destes e outros inúmeros fatos, a História se fez - e é parcialmente conhecida. Nesta seqüência de comprovantes documentais, foram relatados fatos coletados em trabalho de pesquisa que ainda está em andamento, e visa assinalar o andar de uma das sagas libertárias, surgidas - quase simultaneamente, no século XVIII, neste imenso Continente das três Américas. É desejável que, ainda neste início de 3º Milênio, pesquisadores brasileiros, norte americanos, franceses, italianos, e outros eventualmente interessados no tema, possam contribuir para maior conhecimento da não mais “estranha Jornada”, percorrida pelo então Ministro Thomas Jefferson, na Europa, em 102 dias de 1787. Nos primeiros 52 dias do citado período, ou primeira (1ª) etapa da jornada, o Ministro teve como acompanhantes dois mineiros - o Alferes Xavier e Vidal, os quais - somando esforços e a exemplo da América do Norte, também pretendiam levar a terra natal a um futuro maior, de bem organizada e imensa Liberdade. É preciso ainda lembrar que, na presença de Thomas Jefferson e dos mineiros que o acompanhavam, um carioca estudioso - o Conjurado ou “Inconfidente” José Joaquim Maya Barbalho, que defendeu Tese e recebeu o título de Doutorado em Medicina na Universidade de Montpellier. Seu sonho maior, porém, seria exercer seu trabalho na sua carente terra natal que certamente deixaria de ser Colônia porque ele e outros brasileiros continuariam a lutar e conseguiriam conquistar a Independência. Este conjunto de datas, fatos, e de vultos - todos impregnados por muitas esperanças - aqui apenas mencionadas ou esboçadas, formam um certo “pano de fundo”, ou “cenário”- onde atuaram fortes personagens dessa instigante face da História do Brasil e das Américas, bem como da inesgotável e sempre surpreendente face da Humanidade. Pesquisa e texto de I.Helena Brans, OAB-SP 46920, isoldehelenabrans@gmail.com Roteiro da “estranha” jornada, seguida por Thomas Jefferson na Europa, em 1787. Três.Ordens.ao.Vice.Rei.no.Rio.de.Janeiro,revelam.que.a.Rainha,Dona.Maria.Iª erafavorável.às.três.benfeitorias,planejadas pelo.Alferes.Joaquim.José.da.Silva.Xavier: A 1ª carta de “Vendek”, escrita em 2 de outubro de 1786 ao Ministro Thomas Jefferson obteve imediata resposta do Ministro que, na mesma data do recebimento - 16 de outubro de 1786, redigiu sua primeira e longa resposta a “Vendek”. Feito isso, o Ministro entregou tal resposta ao mesmo portador - o Dr. Vigarons que, por sua vez, a levaria a Montpellier e a entregaria a Maya e este a levaria ao destinatário - o emissário e titular do pequeno grupo que agia na Europa, desempenhando funções pertinentes à missão“Vendek”. No Tejuco, enquanto ainda se preparava para enfrentar a viajem de ida à Europa, o Padre Rolim - no Tabelionato local, outorgou procuração a vinte (20) pessoas residentes na região da “Demarcação Diamantina”, bem como a uma só pessoa, residente em Lisboa (ver: Doc.28). A primeira (1ª) carta brasileira, enviada pelo emissário “Vendek” ao Ministro Thomas Jefferson (Doc.29), foi datada em Montpellier, em 2 de outubro de 1786, e foi levada a Paris pelo médico e Professor de Medicina na Universidade local, o Dr.Vigarons - atendendo a um pedido de um de seus alunos, o estudante carioca, José Joaquim Maya Barbalho. A primeira (1ª) resposta do Ministro Jefferson foi escrita em Paris no dia 16 de outubro de 1786, porém só chegou em Montpellier no dia 21 de novembro de 1786. Procurada por esta pesquisa em 1963, nos Estados Unidos, porém - não foi encontrada em arquivos então consultados. Esta importante mensagem do Ministro, ainda desconhecida, constitui uma indagação até hoje não decifrada. A segunda (2ª) carta do emissário “Vendek” foi por ele escrita na data do recebimento da primeira (1ª) resposta do Ministro Jefferson, e foi citada pelo emissário mineiro no início da sua belíssima segunda carta, enviada de Montpellier a Paris, talvez pelos mesmos intermediários. A segunda (2ª) resposta do Ministro Thomas Jefferson foi escrita em 26 de dezembro de 1786, em Paris, e terá logo chegado às mãos do Alferes Joaquim José da Silva Xavier, ou “Vendek”, por atuação dos costumeiros intermediários. O texto (já publicado) desta resposta e seu teor foi apenas mencionado e/ou descrito no Doc.33 do presente relatório. A terceira (3ª) e última carta foi escrita em Montpellierpelo emissário “Vendek” em 5 de janeiro de 1787, que ali afirma estar aguardando ordem do Ministro para ir encontrá-lo em Nimes (ver: Doc.34) A terceira (3ª) e última resposta ou mensagem do Ministro Jefferson foi expedida em 19 de março de 1787 quando chegou a Nimes, acompanhado por Vidal - que o seguia desde Dijon (Doc.40).

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