Museu Nacional DEPOIMENTO SENTIDO
DEPOIMENTO SENTIDO
Carlos
Alberto Ribeiro De Xavier (*)
Ao ver as chamas ultrapassando os restaurados
telhados do Palácio de São Cristóvão e consumindo rapidamente todo o
magnificente acervo do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, senti como se estivesse
indefeso em uma guerra, vendo morrer meus parentes e amigos, todos em um só
sacrifício, juntos, sem que eu nada pudesse fazer. A dolorosa luz do incêndio
iluminou minha memória, fazendo passar pela minha mente os muitos momentos que vivi
no Museu Nacional, em profundos lampejos.
Na
década de 70 conheci o pesquisador do Museu Nacional Augusto Ruschi, que recebia
uma ínfima subvenção do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal-IBDF
para se doar inteiro, defendendo, protegendo e propondo formas de preservação da
Mata Atlântica do Espírito Santo, onde desenvolvia suas pesquisas com helicônias
e beija-flores.
Na mesma época, a arqueóloga francesa Annette
Laming-Emperaire encontrou o
crânio do mais antigo habitante do Brasil, que conheceríamos com o nome de
Luzia, com cerca de 12.000 anos.
Ainda na década de 1970, várias salas do Museu
Nacional passaram a ser ocupadas pelas ossadas de dinossauros brasileiros dos
gêneros Anhanguera, Ceraradactylus, Tupandactylus, Thassalodromeus, uma nova
atração, sobretudo para os jovens curiosos.
Ao deixar a direção do Jardim Botânico do Rio de
Janeiro, em 1985, eu não poderia mais deixar de me dedicar a ações de proteção
ao meio ambiente. A natureza vivia dentro de mim, era algo que eu havia
introjetado para o resto da minha vida. Tudo isto era reforçado pelas amizades
que estabeleci com figuras emblemáticas, reputações que circulavam em torno de
Luiz Emydio e de Roberto Burle Marx, como Graziela Maciel Barroso, dama da
botânica; Margareth Mee, botânica inglesa moradora do Rio; Maria do Carmo Melo
Franco Nabuco, defensora do Patrimônio; Marcelo Ipanema, agitador cultural
insubstituível; a inesquecível Nise da Silveira; as irmãs de Pacheco Leão,
Rosinha e Magu; Zanine Caldas, o arquiteto das madeiras; o próprio Augusto
Ruschi. Todos, como Roberto Burle Marx, eram nossos megafones: sem travas na
língua gritavam contra os desmatamentos e queimadas que se aceleravam por todo
o território nacional. Durante os primeiros 20 anos de existência do CONAMA,
passei a ser, primeiro, representante do IBDF, depois do IBAMA, em seguida do Ministério
da Cultura e, finalmente, do Ministério da Educação.
Assim que começou um novo governo,
em 2003, organizei um seminário no Palácio Capanema com todas as pompas e
honras para os Ministros da Cultura, Gilberto Gil; da Educação, Cristovam
Buarque; da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral; do Meio Ambiente, Marina
Silva; e o então Diretor do Jardim Botânico, Liszt Vieira. Tudo isso para que o
Diretor do Museu Nacional, o paleontólogo Sérgio Alex Kungland de Azevedo,
pudesse explicar, a todo esse importante grupo do Ministério de Lula, o estado
de precariedade a que chegara a Instituição e a necessidade de ação urgente. Na ocasião, o Ministro Gilberto Gil
pode constatar o estado crítico das instalações. Registre-se que apenas esse
ministro participou da visita guiada ao Museu.
Em 2008, realizou-se a reunião número 1.000 da
Congregação do Museu Nacional, na qual representei o Ministro da Educação; ali
foi revelado por Gilberto Velho que a antropóloga Ruth Cardoso havia doado seus
salários de um período para restaurar justamente aquela sala da Congregação
onde estávamos reunidos.
As peças tão importantes e únicas desaparecidas
nesse incêndio são itens que compunham as coleções reunidas ao longo do tempo junto
com a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios (1815) e com a Real Academia de
Belas Artes, a Biblioteca Nacional, o Jardim Botânico, a Faculdade de Medicina,
a Escola Anatômica Cirúrgica e Médica, da Academia Militar, dentre outras
iniciativas que surgiram a partir da transferência da Família Real e da Sede do
Reino para o Brasil.
Com D. Pedro I o Museu Nacional passou a receber
importantes coleções dos viajantes, definindo assim a vocação e o perfil que o
Museu Nacional conserva até hoje. Quando o Imperador Pedro II assumiu também o
papel de Ministro da Cultura, o Museu passou a ter visibilidade internacional.
D. Pedro II passou a valorizar mais ainda a ciência,
inclusive com a contratação do astrônomo belga Luiz Cruls, tornando-o adjunto
do Observatório Imperial do Rio de Janeiro e diretor do Observatório
Astronômico do Brasil. Cruls tornou-se famoso por ter dirigido a Comissão Exploradora do Planalto Central para delimitar
a área da cidade que receberia o nome de Brasília (1892 a 1894).
Com a revolução de 1930, deu-se a criação do Ministério dos
Negócios da Educação e Saúde Pública, ao qual o museu passou a ser vinculado;
só a partir de 1946 foi incorporado à Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Portanto, o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista trouxe
prestígio centenário para a UFRJ, a qual, em 53 anos, não soube conservar o
patrimônio cultural que lhe foi dado cuidar, proteger, defender, desenvolver,
preservar para as gerações futuras.
(*) Carlos
Alberto Ribeiro De Xavier é economista, funcionário público federal, foi
Diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, do IPHAN, Chefe de Gabinete e
Assessor de Ministros da Cultura e da Educação por 30 anos. Hoje é diretor da
Biblioteca Nacional de Brasília.
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