A goiabada de São Bartolomeu


A goiabada de São Bartolomeu





Frei José Mariano da Conceição Veloso tornou-se um botânico famoso em Portugal no século XVIII, descrevendo e enviando plantas e frutos tropicais como também empalhando animais, tendo desenvolvido processos próprios. (*) Nessa época os europeus adaptavam receitas de sopas, saladas, doces e salgados, usando as plantas e ingredientes que aqui se encontravam. O caruru, por exemplo, foi trazido pelos portugueses junto com a couve e outras plantas alimentícias. A couve manteve seu prestígio, mas o caruru, sabe Deus o por quê, caiu em desgraça e passou a ser considerada pária na comunidade vegetal para culinária. Assim, a necessidade de manter a mesa farta e variada levou nossos ancestrais a se servirem, sem cerimônia, do material nativo, cultivado ou silvestre, mesmo que considerado muitas vezes como erva daninha. Guisados e sopas trazidos de além-mar tiveram ingredientes paulatinamente substituídos: beldoegra, dente-de-leão, ora-pro-nobis, mostarda, labaça, serralha, trevo, major-gomes, tomaram o lugar da couve-manteiga, da couve-tronchuda, da couve-de-bruxelas, e novas receitas surgiram.
Cambuquiras, flores-de-bucha, taboas, munhecas-de-samambaia e muitas outras plantas efeitaram os lombos, os pernis, as galinhas assadas, as peças de caça. O joá-manso, as amoras, o tomatinho, as capuchinhas, as gabirobas, os araçás, as flores de dente-de-leão, as sépalas de vinagreira, entre tantas outras plantas nativas, substituíram as refinadas geleias de maçã, de ameixa e de cereja tão a gosto do europeu. Da miscigenação étnica que formou o povo brasileiro, viu-se também miscigenar a culinária de muitos povos. O resultado, como sabemos, são nossas ótimas iguarias. Em muitas regiões variam os nomes das plantas. A beldoegra (Portulaca oleracea L.) também é conhecida como verdolaca, salada-de-negro, porcelana, caaponga-de-comer, bredo-de-porco, beldroega vermelha, de horta, berdoegra ou também beldroega-de-comer. O jambu (Spilanches sp.) também é conhecido como agrião-do-pará, jambu-açu, pimenteira, pimenta-d’água, gambu, erva-de-málaca. A major-gomes (Taninum sp.) é também conhecida ainda como benção-de-deus, maria-gorda, bunda-mole, ora-pro-nobis-do-miudo, carne-gorda ou língua de vaca. (**)
A goiabada cascão ou peneirada substituía com vantagem as marmeladas europeias e tornou-se uma sensação não só para o europeus que aqui estavam como as que eram enviadas para o comércio e a corte portuguesa.
Frei Veloso embalava o doce em folhas de bananeira, previamente amolecidas no fogo, com a face interna da planta voltado para o doce e o externo, o lado inferior, recoberta naturalmente por um indumento insetífugo natural, para fora, protegendo o pacote da intrusão de formigas e outros insetos, além de conservar a umidade e evitar a deterioração. Desta maneira a goiabada podia viajar meses e aqui, nas vendas das redondezas podem ficar guardadas por até dois anos sem perder sua qualidade. Dessa mesma maneira ainda se faz a goiabada nas localidades de São Bartolomeu e de Santo Antônio das Garças Brancas, (onde nasci) distritos de Ouro Preto, fundados por volta de 1710. Em Ponte Nova, extensão natural da região de Ouro Preto, se descobriu que acrescentando limão, (ácido ascórbico) ela muda de consistência. Uma prova dessa maravilha pode dar a você e sua família um gostinho dessa época remota e faz com que todos se rendam a essa feliz realidade mineira, tão distinta que pode trazer lembranças guardadas em algum recanto da memória, essas que uma vez conhecidas não permite que você se dê por satisfeita com os sucedâneos.
Carlos A.R. De Xavier, outubro de 2001

(*) Frei Veloso era primo de Tiradentes e nasceu também em São José d’el Rei. Estudou as velosiaceas, família de plantas que tem seu habitat nas “vertentes” da impressionante Serra de São José. Seus livros mais conhecidos são O Fazendeiro no Brasil e Flora Fluminense editados, claro, em Portugal. Mais tarde, estudou em Coimbra tornando-se assistente do famoso naturalista e professor de botânica Vandelli, considerado um dos maiores cientistas da natureza à época

(**) Contribuição retirada do livro “As ervas comestíveis” de Maria Aparecida Zurlo e Mitze Brandão


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