OK Artigo sobre Darcy Ribeiro
14 DE JULHO DE 1782: DARCY RIBEIRO EMBARCA PARA PORTUGAL NO NAVIO “NOSSA SENHORA DA AJUDA”, E, EM OUTUBRO, SE MATRICULA NA UNIVERSIDADE DE COIMBRA.
Carlos Alberto Ribeiro De Xavier (*)
Nascidos em alterosas paragens, seus espíritos só aspiravam as alturas do firmamento, muito além do montanhoso horizonte. E seus corpos, como águas de um regato, dirigiam‑se aos vales. As águas que correram há séculos, as que hoje correm: um só e o mesmo rio.
E, como as águas, José Álvares Maciel e seus irmãos Teotônio e Francisco, descem de Vila Rica para o Rio de Janeiro. Vêm numa comitiva de tropeiros que levam e trazem cargas entre litoral e a próspera Capitania de Minas. Produtos agrícolas e pecuários e, sobretudo, dezenas de arrobas do ouro e das pedras preciosas mineiras, mercadorias de crescente demanda nos mercados europeus. Os irmãos seguirão do Rio de Janeiro para Portugal para se matricularem na Universidade de Coimbra.
Um enxoval completo prenuncia: os filhos de D.Maciel, Capitão-mor de Vila Rica, permanecerão pelo menos três anos no exterior. As arcas com as roupas e objetos são transportadas em carro de bois e segue uma comitiva de tropas de muares que levam também diversas caixas com uma coleção científica organizada pelo Frei José Mariano da Conceição Veloso, composta de enorme quantidade de conchas, plantas, pássaros e outros pequenos animais vivos, tudo e todos sob a escolta de uma patrulha de Cavalaria dos Dragões.
O comandante é Joaquim José, experiente tropeiro, agora com 36 anos de idade e desde os 29 servindo no Regimento de Cavalaria aquartelado em Cachoeira do Campo, próximo ao Palácio Residencial do Governador. Já tinha incorporado o apelido de “o Tiradentes” mas, naquela função, era o Alferes Xavier. Amigo antigo do Capitão-mor de Vila Rica desde quando viajavam juntos para o Rio de Janeiro, no encalço dos “assaltantes do caminho do ouro” armados em emboscadas e esconderijos pelos atalhos da Serra da Mantiqueira. Agora, como um tio que viu os meninos crescerem, o Alferes oferece uma especial proteção aos rapazes. Tinha muitas habilidades: sabia tirar e colocar dentes, aliviar as dores de quem lhe pedisse socorro, indicar caminhos, detectar jazidas minerais, avaliar mercadorias, terrenos e animais de tropa. Conhecia, como as palmas de suas mãos, as Minas e os Gerais, e também a Bahia. Depois dessa viagem seria designado para uma difícil missão: descobrir por onde estrangeiros entravam pelo leste, vindo do sul da Bahia.
Tiradentes: a liberdade, vôo sem limites. Sua meninice, a orfandade, sua capacidade de se impor, de inspirar confiança a quem conhecesse, por onde andasse. A escola de vida com o padrinho, os livros, as aulas de francês. A convivência com o primo, botânico Frei Veloso, e o aprendizado sobre as plantas. A fruição da beleza da vegetação rupestre e a descoberta de suas utilidades. A canela-de-ema, tocheiro para alumiar os terreiros das casas, isca de fogo e remédio para os rins. Outras flores, pura beleza: a Laelia flava, a Cambessedessia, a Lavoisieria, nomes recentes que a ciência lhes deu. Que nome lhe daria o vento das montanhas?
Na primavera de 1775, a penúltima viagem com seu primo Frei Veloso. Ao retornar, Joaquim José se apresentou ao Comandante do Regimento dos Dragões que acabava de criar novas companhias da tropa paga. Começou no dia primeiro de dezembro, diretamente no posto de Alferes, e, mais tarde, comandou uma das oito unidades do Regimento, a de Sete Lagoas, responsável pela vigilância de toda a região dos Gerais.
As tropas de burros e os carros de bois transportam cargas dos portos do Rio para localidades distantes como Paracatu do Príncipe e Vila Boa de Goiás. Levam as mais diversas encomendas.Um aparelho de jantar de 240 peças vindas das Índias Orientais, depois de viajar de navio até Lisboa e de lá para o Rio, durante mais de seis meses atravessou montanhas, riachos, córregos e rios, veredas e planícies, vales e planaltos, em carro de bois que aguardava a encomenda no Porto da Estrela para a longa viagem de volta. Chegam intactas todas as peças! Será um presente do pároco da cidade pelo casamento dos filhos de importantes famílias de Vila Boa de Goiás..
Outra leva de porcelana não têm a mesma sorte. Ao abrirem as arcas, os compradores só encontraram cacos. Tudo quebrado! Tão lindos eram os fragmentos que eles não se desesperaram: mandaram fazer uma fonte toda embrechada com os multicoloridos pedaços de louça. Caso houve em que a encomenda tanto demorou que, ao chegar na Fazenda das Bandeirinhas, situada na localidade de Santo Antônio das Graças Brancas, distrito de Vila Rica, não encontrou mais quem a fizera em vida, o comerciante e fazendeiro local, Coronel Idelfonso Lemos, causando grande alegria aos seus descendentes que desconheciam a surpresa que o Coronel lhes reservara.
As caravanas dos viajantes passam por toda a parte e as tropas percorrem as trilhas de Minas, forjando os caminhos do futuro pela intensidade do uso.
Com as navegações, os portugueses conseguiram mudar o centro comercial da Europa, encurtando distâncias, abrindo novos entrepostos para produtos considerados raros, anteriormente. Criaram-se novos mercados para os produtos tropicais, aumentando a oferta e a concorrência.
A mudança ocorrida no fluxo de mercadorias do Oriente e da África para a Europa, conseqüência do sucesso dos navegadores portugueses, altera também a rota dos carregamentos que atravessavam desertos em incertas caravanas de camelos. Esse complexo sistema provocava atrasos e baldeações, além de encarecer os produtos e retardar negócios. Os portugueses, mais do que grandes descobridores de continentes e conhecedores da arte da navegação, tornam-se também importantes comerciantes.
A conseqüência dessas mudanças na maior colônia portuguesa é muito grande. Ao retornarem de seus estudos na Europa, os jovens filhos de donos de engenhos ou dos ricos contratadores logo se estabelecem com algum negócio. As atividades produtivas se distribuíam em vários setores, sempre buscando as vocações naturais dos terrenos e a aptidão dos solos, surgindo grandes, médios e pequenos comerciantes, mineradores, mascates e tropeiros, pois, afinal, muitos “acabavam sendo de tudo um pouco”, para se manter o alto padrão de vida. Abrem-se estradas para carros de bois sobre as precárias trilhas dos tropeiros, que já cortavam todo o território, ligando os caminhos do sul e da Bahia com os da Capitania de Minas Gerais.
“Cada ano, vêm nas frotas quantidades de portugueses e de estrangeiros, para passarem às minas. Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil, vão brancos, pardos e pretos, e muitos índios. A mistura é de toda a condição de pessoas: homens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, seculares e clérigos...” A população da Capitania de Minas Gerais representava, entre os brancos, mulatos e negros, “o dobro da população da Bahia, sede do Vice-reinado, o triplo do Rio de Janeiro e o quádruplo da de São Paulo...”
Quem viaja na dura rota do ouro sabe que o trajeto exige descanso em uma boa pousada como a de Dona Altina Cirilo. Essa pousada, parada obrigatória de tropeiros, fica na cumeeira do morro mais alto da Serra da Estrela, de onde se divisam as preciosas ondulações das barbacênicas montanhas mineiras, que ficam para trás. Último ponto de onde se podia ver as Minas e o primeiro de onde se entrevia o mar, fundindo ao azul do céu o azul do mar no horizonte infinito: o Rio de Janeiro! Ah, Minas! Desde sempre, como sonhas com o mar!
E, neste instante, de suas férreas montanhas de ouro, o mesmo ouro dos raios do sol que brilha em seus céus e com os quais compactua a matéria de que és feita, neste instante, como regatos, descem também das montanhas teus amados filhos, Minas:
De Mariana, Eugênio Gomes Seabra e Silva. Seus primos, Mário Antônio, deixando os pais em Vila Rica e José Francisco, saíram de Sabarabuçu, onde a família possui uma pequena fazenda e alguns escravos na mineração.
De Juiz de Fora, Domingos Vidal Barbosa Lage, alimenta o sonho de ser bacharel em leis como é seu pai, que agora o conduz ao Rio de Janeiro. Detém-se na Pousada de Altina Cirilo para descansar, sem saber que um dia, influenciado pelas idéias ilustradas e em nome da revolução, irá abandonar seus estudos em Coimbra, para se inscrever em um curso de Medicina em Montpellier, no Sul da França e cumprir, juntamente com José Joaquim Maya Barbalho, uma das mais importantes missões dos futuros revolucionários, intermediando os contatos com o Embaixador americano Thomas Jefferson.
Do Arraial do Tejuco, Francisco de Paula Meireles, vai terminar o curso de Filosofia e, ao regressar ao Brasil será professor de filosofia em Mariana. “Pelo seu gênio extravagante e possuindo dotes de escritor hábil e cheio de ironia, provocaria muitas questões com os professores de Gramática Latina especialmente com um seu colega de magistério, a quem cobriu de ridículo na Oração que no dia da abertura de sua aula recitou na cidade de Mariana o mestre Pascoal Bernardino de Matos, lente de Gramática Latina, depois, também impressa em Coimbra”.
Do Serro Frio, Manuel Ferreira da Câmara Bettencourt e Sá, vai estudar direito e ciências naturais, áreas do conhecimento que o farão muito respeitado. Mais tarde, na condição de observador da Real Academia de Ciências de Lisboa e de outras sociedades científicas, acompanhará José Bonifácio de Andrada e Silva em viagem pela Europa. Voltará como o Intendente-Geral das Minas de Ouro e Diamantes da Província de Minas Gerais, trabalhando decididamente pela independência do Brasil, torna-se depois, deputado e senador.
Do grande sertão, de montes tão claros que mais se assemelhavam ao céu do que a terra, vem Darcy Ribeiro. Desde cedo acostumado a conviver com dificuldades da vida dos desbravadores das insondáveis fronteiras do norte da capitania, obstáculos só vencidos pela ajuda divina ou pela tenacidade e inteligência dos habilitantes, do Tejuco, do Grão Mogol, do Serro Frio, que desbravam o interior à procura de riquezas. Queria ver outras terras, outras pessoas. Mudar de vida. Deixar para trás o fatalismo e a submissão religiosa de sua família, claramente manifesto na recomendação que lhe mandara, por escrito, o tio Filó, que também deixou a família, mudou de nome, tornando-se o Coronel Castro Maya que fora viver em Goiás.
“Quando vim pro oeste, caí no mundo, fugindo de mim, ou melhor caí no mundo, largado na mão do destino. Isso foi que senti quando me vi outras vez, montado naquela égua dura, trotando em terras de Goiás. Senti ali que ainda era eu, mas já era outro. Sabia bem que dentro de mim, no mais íntimo, permanecia eu mesmo; mas para todos, até pra mim inclusive, eu já não era eu: era ele, com o novo nome a nova figura que tinha.”
Escapei das durezas da “vida de roceiro, enxadeiro, pobre. Escapei dela para ser outro que eu nem sabia quem era. Naquela hora, naquele lugar, eu podia descaminhar. Procurando rumo mais para o norte, teria dado em sertanejo andejo, jagunço. Quem sabe, cangaceiro? Mais para o sul, seria baiano em vida de capiau paulista. Como dei de andar mais para o centro, escapei desses destinos. Vim ser outro eu possível entre tantos que cabiam na minha sina elástica. Isso que eu sou resulta tanto de mim com minha cara e coragem como da sorte ou do azar de que não desci sem subi. Andei reto. Para o oeste. Para a frente, para o fundo do Brasil. Assim é que fui dar em mim.
Por quê? Estou ainda por entender. Terá sido vontade de Deus. Só pode ter sido sina divina, esse novelo enrolado que se desenrolou tão sem surpresa para ir me fazendo, por necessidade, como eu tinha desde sempre de ser. Detalhadamente, tudo feito para dar exatamente em mim no que fui e sou. Esta, a dita que vim cumprindo surpreso; enfrentando empresas que se armaram para me provar.”
A vida meu sobrinho, “é um novelo que Deus vai desenrolando devagar e nós cumprindo afoitos, em pecados e virtudes, sem nem saber por quê. Essa vida é na verdade uma penca de novelos. Não. Para ser exato, uma penca de bilros é o que a vida é. O rendeiro é Deus. Lá de cima, sem hora, espetando os alfinetes nos moldes de papelão de nossas sinas. Ele vai tramando, retramando, nosso destino.”
O Coronel Castro Maya conduziu o sobrinho Darcy até o Tejuco, onde tinha negócios de herança para resolver. De lá, Darcy viajou na mesma comitiva de Manoel Ferreira da Câmara Bettencourt e Sá e agora se encontram prestes a descer para o mar.
Refazer matulas, comer, descansar, trocar os animais, reparar arreios, tralhas, talabartes e demais apetrechos de tropa! Pequenos negócios, novidades, os velhos e novos amigos. O coração disparado com as possibilidades felizes que a cidade oferece!
A pousada antecedia a descida até o porto da Estrela, ponto final para as tropas pois, daí para a frente, muito poucos se aventuravam a atravessar a baixada; caminho ruins e perigosos para os animais, ineptos para esses terrenos pantanosos. Será por isto que quando aí se pernoitava, uma profunda comunhão compactuava os corações dos viajantes, ou teria Altina a magia de reunir esperanças?
Seja lá o qual for a razão, aí na Pousada de Altina Cirilo, Darcy Ribeiro, José Álvares Maciel e seus irmãos, Domingos Vidal Barbosa, Eugênio, Mário Antônio e José Francisco Gomes Seabra, Manuel Ferreira da Câmara Bettencourt e Sá, do Serro Frio e Francisco de Paula Meirelles se descobriram todos com o mesmo destino: a longínqua Coimbra. O destino! Que profunda emoção, um arrepio da alma, nos provoca a menção do fato de termos um destino. E quando encontramos os que compartilharão nosso destino, que estranhos sonhos, devaneios, premonições! Nesse encontro, muitas promessas, risos, uma cumplicidade que logo se ampliarão com a adesão de outros brasileiros, também sonhadores da liberdade e das luzes, mais luzes! Para clarear a vida dos que ficam sob o mando do obscuro Governador D. Antônio de Noronha. A travessia do Atlântico, no navio Nossa Senhora da Ajuda, e mais um dia e meio, de carruagem, até o “cidade dos estudantes”.
Em Coimbra, José Álvares Maciel se destaca bastante de seus irmãos e dos demais brasileiros. Brilhante estudante de matemática, ciências naturais, filosofia e direito. Juntamente com o baiano, Alexandre Rodrigues Ferreira, 20 anos, e o Padre Joaquim Veloso de Miranda, de Ouro Preto, que já estudava em Coimbra desde 1770, vai se tornar assistente do professor Domingos Vandelli. Maciel é um dos doze estudantes que se comprometem em reunião patriótica, a empregar todos os seus futuros esforços para alcançarem a independência do Brasil. Depois de sua formatura, com a ajuda do Prof. Vandelli empreende uma viagem à Inglaterra onde se dedica ao estudo da indústria manufatureira e da química. Voltando ao Brasil em 1788, fiel ao compromisso que em Coimbra assumira, participa ativamente da conspiração. Maciel, como os outros conjurados, é condenado à morte, sendo-lhe comutada a pena em desterro de dez anos em Angola. No degredo o governo o incumbe de montar uma fábrica de ferro naquela colônia, missão que cumpre sem voltar ao Brasil.
Outros contemporâneos dos mineiros são, Luís Antônio Carlos Furtado de Mendonça, nascido no Rio e filho do governador da capitania de Goiás, e José Bonifácio de Andrade e Silva, nascido em Santos em 1765, que estava em Coimbra já há seis meses, tendo se matriculado em Direito, Matemática, Filosofia, e Leis. Bonifácio será bacharel em Leis em 1787, em Filosofia em 1788, professor da cadeira de Metalurgia. Obterá o grau de doutor em Filosofia sem defender teses nem fazer exame privado. Após o seu bacharelado em Filosofia é admitido na Real Academia de Ciências de Lisboa e consegue, graças à proteção do duque de Lafões, uma pensão para realizar uma viagem ao estrangeiro com o fim de complementar os seus conhecimentos. Depois de concluir o curso de Química e Mineralogia em Paris, viagens à Itália, Inglaterra, Alemanha, Suécia e Noruega. Desempenharia os cargos de desembargador da Relação e Casa do Porto, Diretor-Geral de todas as minas do Reino, superintendente das obras do rio Mondego e diretor do laboratório de Química da Universidade. Durante a invasão francesa em 1807, José Bonifácio faz parte do batalhão acadêmico nos postos de major e tenente coronel. Depois da expulsão, será ainda, chefe da polícia do Porto. No Brasil, exerceria uma ação política notável, trabalhando com afinco pelo seu engrandecimento.
Em Portugal, Darcy Ribeiro se torna amigo de Francisco Mariano José Pereira da Fonseca, carioca, estudante de Filosofia e futuro Marquês de Maricá, literato, filósofo e moralista. Exercendo diversos cargos da magistratura em Portugal, vai, depois, estabelecer-se no Rio como advogado, exercendo papel importante na Independência. Será senador, ministro e conselheiro de Estado. Publicará uma coleção de máximas morais e políticas, falecendo em 1848.
A vida cultural em Coimbra é intensa e muitas atividades intelectuais, entretanto, se realizam para um público restrito aos próprios participantes, geralmente sócios de alguma sociedade secreta, seja de caráter maçônico, literário científico ou político. O que os une é a busca incessante da razão para resolução de conflitos ou para critica e contestação dos dogmas da Igreja.
Os escritos dos abades iluministas, especialmente Raynal, vinham sendo avidamente distribuídos entre os estudantes das universidades da França, Espanha, Inglaterra e da conservadora Coimbra, naturalmente.
Os livros correm de mão em mão em edições piratas, pois os filósofos franceses, por exemplo, só entravam de forma clandestina em Coimbra, onde o Reformador-Reitor D. Francisco de Lemos de Faria Pereira, deputado da Mesa Censória e do Tribunal do Santo Ofício é extremamente severo. Este brasileiro, nascido no Rio em 1735, já era Doutor em Cânones aos 19 anos, Bispo aos 33 e Reitor da Universidade de Coimbra aos 35, cumprindo o programa das reformas pombalinas. O livro de Raynal fora incluído no Index pela Inquisição desde 1779.
Na casa onde morava o mineiro de Paracatu, Francisco de Melo Franco, 19 anos, se organiza uma festa para recepcionar os novos estudantes mineiros que chegavam, a atração maior eram os livros franceses. Foram trazidos pelo Doutor Inácio José Alvarenga, então Juiz de Fora, e Sintra, e que fora a Paris antes de voltar ao Brasil, nomeado Ouvidor da Comarca do Rio das Mortes. Alvarenga viajou acompanhado de José de Oliveira Fagundes, carioca, bacharel em Leis em 1778, mais tarde, advogado de defesa de seus conterrâneos no processo da devassa da “Conjuração Mineira”. Ele também trouxe muitos livros. Darcy já possuía uma enorme coleção de panfletos e escritos do “abade proibido” sendo o primeiro a ler a Histoire dês deux Indes obra do abade Raynal que, especialmente nesta obra, contou com a colaboração do enciclopedista Denis Diderot. Com a proibição da obra na França, em 1779, 1781 e a ordem de prisão de Raynal ordenada pelo Parlamento, houve uma explosão de vendas do livro que já estava na 14a. edição, 25.000 exemplares, um número impressionante para a época!
“A Histoire dês deux Indes ataca a Igreja, a intolerância religiosa, as guerras genocidas de conquistas, a escravidão e o comércio de negros e critica impiedosamente o governo monárquico centralizado. O Antigo Regime era o principal alvo, mas, evidentemente o assunto interessava a todos os povos colonizados e oprimidos.”
Circulavam pelas casas dos estudantes, especialmente os matriculados nos cursos de Filosofia e Direito, diversos textos dos filósofos iluministas, antes que surgisse essa que é a obra de fôlego do Abade Raynal. Resultado de vários anos de trabalho, sua Histoire é uma obra coletiva da qual participaram Pechmeja, Valadier, Lagrange, o médico Dubreuil, além de Diderot e outros, e, a exemplo dos enciclopedistas, procurava reunir diversas áreas do conhecimento “transpondo, quase diretamente, idéias recolhidas em obras contemporâneas, como fez com o Senso Comum de Thomas Paine ou Recherches philosophiques sur lês américains de Pauw. E mescla Voltaire, Montesquieu, Helvétius, Holbach e Rousseau, plagiando todos à mão solta. Sua pena amalgama idéias, cede espaço para propostas mais radicais e acende espíritos rebeldes. Prega a reforma dos sistemas monárquicos em favor do desejo expresso de um triunfo pacífico da Luzes. Acusa o excesso de luxo, a decadência dos costumes e a repartição desigual das riquezas. Propõe a liberdade comercial, o fim dos monopólios, a reforma dos impostos, a tolerância religiosa, a separação entre a Igreja e o Estado, e a ampla liberdade de expressão.”
Desde que saiu do conforto do claustro, aos 35 anos, e começou a escrever no jornal Mercure de France, Guilhaume-Thomas François Raynal, ou simplesmente Abade Raynal, publicou libelos, panfletos e artigos incendiários, em jornais e livros. Eram textos incendiários, porém o mais sulfuroso veio depois, Revolution de l’Amerique, lançado em língua francesa e inglesa. Raynal comenta minuciosamente o processo revolucionário da América Inglesa, embebido de um “entusiasmo delirante”. O livro de Raynal sobre a independência das 13 colônias da América tornou-se um “Manual de Revoluções”.
A Análise da economia global apresentada por Raynal e seus companheiros procurava “desenhar um completo mapa das colônias européias e seus Estados, suas relações comerciais, problemas políticos e diplomáticos e de investimentos de capital. Além de críticas insolentes, as narrativas alternavam um discurso descritivo onde eram apresentadas as caracteríscas e peculiaridades das colônias e de sua produção, como também a geografia física das regiões, a geologia, relações comerciais, fatos políticos e diplomáticos da história dos países colonizadores e sua evolução, com intervenções e divagações filosóficas contundentes sobre a tirania dos monarcas, a desigualdade social, a licenciosidade do clero e a desumanidade da escravidão.”
Estes livros e panfletos são o principal assunto dos infindáveis encontros de estudantes brasileiros e alguns portugueses reunidos, até altas horas, em acaloradas discussões sobre as possibilidades de um movimento emancipacionista na maior colônia portuguesa. Era preciso, entretanto, mais do que clareza das idéias. Como fazer uma revolução prosperar em um país que não dispunha de jornais ou gráficas? Como financiar a resistência? Como sair das conjecturas e partir para um plano mais prático? Claro estava que não poderiam deixar transparecer nada em Portugal e a eventual ajuda estrangeira, certamente, não viria da Inglaterra, aliada que financiava a maioria das expedições portuguesas e principal beneficiária da exploração das colônias.
Darcy é favorável à ida de Maciel a Paris sugerindo que ele procurasse um contato com o embaixador americano Thomas Jefferson com o objetivo de sondar um eventual apoio da primeira nação independente do novo mundo ao movimento nascente que já contava com muitos simpatizantes no Brasil. Parecia muito prematuro e inconveniente. Resolvem, então, que primeiro mandariam uma carta ao autor da declaração de independência americana, por intermédio de um amigo seu e Conselheiro do Rei, Mr. Vigarons, professor de medicina em Montpellier, no sul da França.
Há muita discussão se a inciação maçônica de José Alves Maciel se deu em Coimbra mesmo, apresentado pelo Mestre Domingos Vandelli, de quem fora aluno brilhante e um colaborador destacado; em Lisboa, onde estava outro amigo, Luiz Antonio Furtado de Mendonça, futuro Governador de Minas, à época, Secretário da Real Academia de Ciências de Lisboa, ou o que é também provável, em Paris, na Loja Amitié, freqüentada por Lafayette e Jefferson. O confessor de Maciel impressionava-se com sua “rara instrução” e testemunhará que o inconfidente sofrera uma profunda transformação psicológica. Nota que Maciel reconvertera-se ao cristianismo “com sinceridade “ depois de passar “pela fornalha da oficina da franco-maçonaria.”
Darcy e Maciel aproveitam a viagem de todo emissário que surgia, para mandar uma enorme quantidade de livros aos simpatizantes na Capitania de Minas, como o poeta Cláudio Manoel da Costa, o ouvidor, Tomás Antônio Gonzaga, o erudito Luiz Vieira da Silva, ao cunhado de Maciel e comandante da tropa paga, Cel. Francisco de Paula Freire de Andrada e aos padres Carlos Correia de Toledo e Melo de S. José do Rio das Mortes e José da Silva e Oliveira Rolim do Tejuco.
Para evitar as vistorias dos fiscais do vice-rei no Rio, algumas encomendas eram desembarcadas em Salvador e viajavam no lombo de burros e mulas até Vila Rica, levando quase o mesmo tempo da travessia do oceano para chegar aos destinatários. Em um desses pacotes de livros encontrou-se uma carta, atribuída a Darcy Ribeiro, que conclamava os conterrâneos para a luta:
“Mas venham todos! Você os vê? Foram milhões de almas vestidas de corpos mortais, doídos, o que nessas Minas se gastaram. Olhe de novo pra eles, olhe bem. Veja só. No princípio eram principalmente índios nativos e uns poucos brancarrões importados. Depois, principalmente negros, vindos de longe, africanos. Mas logo, veja só: eram multidões de mestiços, crioulos, daqui mesmo.
Quem somos nós? Existimos para quê? Por que? Para nada?
Somos o povo dos heróis assinalados, mas somos mesmo é o povo dessas multidões medonhas de gentes, enganadas e gastadas, o povo escarmentado na carne e na alma. Somos o povo que viu e que vê. O povo que vigia e espera.
Minas estelar, páramo, mãe do ferro, mãe do ouro e do azouque. Mãe mineral, fulgor sulfúrico. Minas sideral, lusa quina de rocha viva enterrada além-mar. Minas antiga, cruel satrapia do fel e da agonia, sou eu que te peço: ponha um final nesta agonia, relampeia agora, peça a morte. Morra! Morra e renasça. Rolem pedras saltadas do mar petrificado; rolem, arrombem o subterrâneo paredão de granito que aprisiona o povo e o tempo, escravizando, sangrando, esfomeando, assassinando. Minas, árvore alta. Minas do esperma, do milho, da pétala, da pá, da dinamite. Minas carnal da flor e da semente. Minas mãe da dor, mãe da vergonha. Minas, minha mãe crepuscular.
Havemos de amanhecer. O mundo se tinge com as tinhas da ante-amanhã”.
Quando é aberto o processo de devassa da “Conjuração Mineira” a conspiração estava nas ruas e também dentro dos palácios. Darcy Ribeiro já morava no Rio de Janeiro e freqüentava o Palácio do Vice-Rei, enquanto José Álvares Maciel, filho do chefe de polícia de Vila Rica, morava no Palácio de Cachoeira do Campo, contratado pelo Governador da Capitania de Minas e Visconde de Barbacena, Luiz Antonio Furtado de Mendonça, como preceptor de seus filhos. E, mais, o cunhado de Maciel, Comandante do Regimento dos Dragões, é o Tenente Coronel Francisco de Paula Freire de Andrada, que por sua vez, casara-se com a filha do Capitão-mor de Vila Rica, Isabel Querubina de Oliveira Maciel, dias antes da partida do irmão para Coimbra.
Assim como os padres envolvidos na conjuração têm um julgamento em separado, o que estava de acordo com a doutrina do direito canônico, sendo então condenados a viverem em conventos portugueses, Darcy, pela confiança que lhe depositava o vice-rei D. Luiz de Vasconcellos e Souza, conseguiu ficar fora do processo dos “inconfidentes”, sendo, porém julgado por uma “comissão de conselheiros” escolhidos pelo vice-rei e condenado “a viver sempre”. Darcy não podia morrer porque as causas e bandeiras da liberdade e da igualdade não seriam ganhas em pouco tempo. Como comprovamos, dois séculos depois, é guerra para muitas gerações. Muitos jovens que estudavam em Coimbra, Paris, Montpellier ou Londres, ao voltarem para o Brasil tinham alimentado a idéia de também fundar uma República ao sul do equador, seguindo os passos dos americanos que tinham conseguido realizar o ideal ilustrado. Conforme está magnificamente na Declaração de Independência dos Estados Unidos da América no Norte de 1774, Jefferson e os pais da pátria americana souberam interpretar e aplicar os princípios difundidos pelos filósofos iluministas.
A condenação de Darcy não significava exatamente um castigo, pois, com essa idéia de “não morrer nunca”, como se fora um D. Sebastião, ele teria a oportunidade de reaparecer muitas vezes no futuro, buscando apoios para realização de suas utopias, sem ter que entrar para nenhuma Academia. E combina com suas vocações. Ele tem uma coragem feita de ferro de Minas para vencer todos os obstáculos e para concretizar os seus ideais, enfrenta martírios, prisões e exílios, tudo, desde que as causas não sejam pessoais ou menores.
Darcy compreendia bem aquilo “que os índios brasileiros, vivendo uma espécie de socialismo primitivo, uma sociedade comunitária, provocavam na mente dos pensadores europeus”.
Sabia também, que no Brasil “fazemos a burrice de comemorar a chegada dos portugueses no Rio de Janeiro, como uma data de fundação. Fizemos até monumento para os portugueses pela fundação do Rio de Janeiro, esquecendo que a coisa mais bela de nossa história pregressa é a aventura linda dos calvinistas, dos 600 europeus, suíços de Genebra, franceses, que atendendo a Calvino saíram ao embate e vieram fundar o Rio de Janeiro. Os Calvinistas saem para o mar tropical para criar aqui a cidade que devia ser a cidade do sol, a cidade perfeita, um mundo como devia ser, um mundo do amor de Deus. É de uma beleza incrível esses hungenotes perseguidos na Europa, esses protestantes, esses calvinistas que saem para fundar a utopia na baía do Rio de Janeiro. Essa baía cheia de baleias, de golfinhos. E bandos de guarás – uma garça vermelha – elas viviam em bandos tão grandes que escureciam a terra quando revoavam. Então vocês imaginem esse rubro-negro e esses hungenotes. Aqui existe uma porção de episódios terríveis porque eles encontram índios e índios desnudos e eles acham pecaminosos, e há um desencontro com aquela coisa. As brigas entre eles também eram horrorosas e eles começam a enforcar uns aos outros. Isso dava uma confusão muito grande. Mas o importante é que o Brasil é fundado, neste caso também, com a utopia, o projeto é utópico. Num segundo momento você vê os jesuítas. O movimento principal de fundação do Brasil no século XVI é quando os jesuítas, apavorados com a possibilidade de que a Reforma em curso na Europa fosse dada aqui. Apavoraram-se tanto com a implantação protestante aqui que Anchieta e Nóbrega morrem de pavor. E são eles que provocam uma grande guerra reduzida. Provocam, levantam todas as tribos que podem e lançam contra os franceses criando uma guerra tremenda. Sabe-se que nessa guerra da expulsão dos franceses morreram algumas dezenas de portugueses e franceses. Mas morreram 10 mil índios. Você imagina 10 mil índios brigando de um lado e do outro, encarniçadamente, se estraçalhando por razões que eram duas versões do cristianismo: a católica e a protestante. Os índios metidos em uma briga tipicamente européia”.
Darcy, então, ficou até satisfeito com a possibilidade de seu reaparecimento toda vez que pudesse vir e convocar parceiros para a realização de seus “planos utópicos”. Utópicos para os outros, é claro. Ele sempre acreditou em seus sonhos. Em certa época, voltou com a idade que tinha quando foi estudar em Coimbra, 19 anos, e decidiu que iria morar com os índios no planalto central do Brasil. Ficou lá por dez anos, tendo a oportunidade de aplicar o que havia aprendido do marechal Rondon e estudou muito com seus amigos Cláudio e Orlando Vilas Boas e com Noel Nütels.
Mais tarde, Darcy voltou, como um D. Sebastião, para cumprir uma antiga promessa, que fizera em Coimbra: “fundar uma Universidade livre, realmente aberta”. Acreditou no sonho de Brasília, chamou seus amigos, entre eles o grande filósofo português Agostinho da Silva e pensando grande, criou a UnB. Visitando o Agostinho todas as manhãs o Reitor Darcy Ribeiro aprendeu que “escrevemos hoje a história do futuro” e não parou mais de arquitetar planos para a felicidade dos brasileiros.
Recentemente voltou a aparecer, depois de um longo exílio, inventando escolas para o Brasil. Ele diz que esta “não é nenhuma utopia descabelada, é importante por os pés no chão”. O que ele chama de “utopia de pé no chão” é o seguinte: “não está nem no horizonte mais longínquo do povo brasileiro, uma coisa tão simples, tão singela, que todo mundo tem, como a possibilidade de se comer todo dia, uma possibilidade de todo doente ter um tratamento sem estar preocupado com a conta; uma possibilidade de cada homem ou mulher, maior de 14 anos, ter um emprego seguro; uma possibilidade de toda criança ter uma escola, mas uma escola que não seja para ofendê-la. Que não seja feita para mostrar que ela é pobre porque é burra, como a escola prova, mas uma escola que compense o atraso que a criança traz da família, dando a ela uma atenção especial. Uma escola na qual ela possa progredir”.
Depois de reinventar a educação, agora mesmo Darcy, inconfidente e pioneiro em todos esses séculos passados e vindouros, estava a construir a Universidade do século XXI, no norte fluminense. Aluno e o professor trabalhando juntos o tempo todo, era o sonho. Ambos ensinam, ambos aprendem. Recebem para estudar, pesquisar e trabalhar. Preparam o novo milênio, arquitetam o futuro, tempo em que Darcy voltará, mais uma vez, para colher os frutos das árvores que acabara de plantar e para, novamente, fazer germinar suas sementes. Mas sua utopia não se acaba aí: “Nós devíamos partir deste ponto. Há uma utopia do Brasil, como eu venho falando sempre, que é essa coisa tão singela. Essa utopia eu sempre coloco nos seguintes termos: é praticável em 10 anos obter isso. É praticável em 10 anos conseguir essa coisa elementar: organizar a economia brasileira para que todo mundo coma todo dia; organizar para que todo mundo tenha emprego e escola desde cedo. A maior necessidade desse país é tomar consciência de que esta tarefa utópica tem que ser feita mas, ela só pode ser feita se nós proibirmos o passado de proibir o futuro. Para construir aqui a beleza de nação que podemos ser. Havemos de ser! Para tanto, é indispensável impedir o passado de construir o futuro; quero dizer, tirar da gente que nos regeu e infelicitou através dos séculos o poder de continuar conformando-deformando nosso destino. É hora de lavar os olhos para ver nossa realidade.”
“Agora, existe a possibilidade de que o futuro sempre decorrerá do passado”, portanto, mãos à obra, pois o futuro já é amanhã cedo.
BIBLIOGRAFIA
Fontes citadas
ANTONIL, André João. Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas. Ed. Melhoramentos/INL/MEC, São Paulo, 1976, 2ª edição.
BRANS, Isolde Helena. Tiradentes Face a Face. Biblioteca Reprográfica Xerox, Rio de Janeiro, 1993. pp.13-15, 47, 53, 75.
BRANS, Isolde Helena. Thomas Jefferson e a Missão Vendek. Palestra proferida na Biblioteca do Congresso, em Washington. Wash. USA, 1993.
BRASÍLIA, Suplemento ao Volume IV; Estudantes da Universidade de Coimbra nascidos no Brasil. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Coimbra, 1949.
DARCY RIBEIRO, o mais civil da Casa Civil. Depoimento a Martha Alencar e Edílson Martins para a Revista Careta, Rio de Janeiro, 1981, pp. 39-45.
De XAVIER, Carlos Alberto Ribeiro. Tiradentes. Palestra proferida na Biblioteca do Congresso, em Washington. Rona Editora, Belo Horizonte, 1993.
JARDIM, Márcio. A Inconfidência Mineira; uma síntese factual. Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro, 1989.
RIBEIRO, Darcy. O Mulo. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981, 1ª edição pp. 185-209.
________. Migo, Editora Guanabara S.A., Rio de Janeiro, 1988, 1ª edição. pp. 377-378.
________. Aos trancos e barrancos; Como o Brasil deu no que deu. Editora Guanabara Dois S.A., Rio de Janeiro, 1985, 2ª edição. p. 3.
SANTOS, Miguel. O Tiradentes, Patrono da Nação Brasileira. Ed. do Autor, Gráfica Laemmert Ltda., Rio de Janeiro, 1967, 1ª edição. pp. 62-63.
RAYNAL, Guilherme-Thomas François. A Revolução da América, Tradução de Regina Clara Simões Lopes e Prefácio de Luciano Raposo de Almeida Figueiredo e Oswaldo Munteal Filho. Arquivo Nacional, Rio de Janeiro. 1993. pp. 1-9.
Fontes consultadas
AUTOS de Devassa da Inconfidência Mineira, Brasília, Belo Horizonte, edição da Câmara dos Deputados e do Governo do Estado de Minas Gerais, Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, Brasília, Belo Horizonte-MG, 1976 a 1983, 10 volumes.
CUNNINGHAM JR., Nobre E. Em Busca da Razão-a vida de Thomas Jefferson. Editorial Nódica Ltda, Rio de Janeiro, 1993.
MAXWELL, Kenneth R. A Devassa da Devassa; a Inconfidencia Mineira: Brasil-Portugal; 1750‑1808. Editora paz e Terra S.A., Rio de Janeiro, 1978, 2ª edição.
RIBEIRO, Darcy. Maíra. Ed. Círculo do Livro, São Paulo, 1980.
(*) Carlos Alberto Ribeiro De Xavier é economista, funcionário público há 30 anos e foi Diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, do IPHAN, Chefe de Gabinete do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, em várias gestões. Atualmente é assessor do Ministro da Educação
Carlos Alberto Ribeiro De Xavier (*)
Nascidos em alterosas paragens, seus espíritos só aspiravam as alturas do firmamento, muito além do montanhoso horizonte. E seus corpos, como águas de um regato, dirigiam‑se aos vales. As águas que correram há séculos, as que hoje correm: um só e o mesmo rio.
E, como as águas, José Álvares Maciel e seus irmãos Teotônio e Francisco, descem de Vila Rica para o Rio de Janeiro. Vêm numa comitiva de tropeiros que levam e trazem cargas entre litoral e a próspera Capitania de Minas. Produtos agrícolas e pecuários e, sobretudo, dezenas de arrobas do ouro e das pedras preciosas mineiras, mercadorias de crescente demanda nos mercados europeus. Os irmãos seguirão do Rio de Janeiro para Portugal para se matricularem na Universidade de Coimbra.
Um enxoval completo prenuncia: os filhos de D.Maciel, Capitão-mor de Vila Rica, permanecerão pelo menos três anos no exterior. As arcas com as roupas e objetos são transportadas em carro de bois e segue uma comitiva de tropas de muares que levam também diversas caixas com uma coleção científica organizada pelo Frei José Mariano da Conceição Veloso, composta de enorme quantidade de conchas, plantas, pássaros e outros pequenos animais vivos, tudo e todos sob a escolta de uma patrulha de Cavalaria dos Dragões.
O comandante é Joaquim José, experiente tropeiro, agora com 36 anos de idade e desde os 29 servindo no Regimento de Cavalaria aquartelado em Cachoeira do Campo, próximo ao Palácio Residencial do Governador. Já tinha incorporado o apelido de “o Tiradentes” mas, naquela função, era o Alferes Xavier. Amigo antigo do Capitão-mor de Vila Rica desde quando viajavam juntos para o Rio de Janeiro, no encalço dos “assaltantes do caminho do ouro” armados em emboscadas e esconderijos pelos atalhos da Serra da Mantiqueira. Agora, como um tio que viu os meninos crescerem, o Alferes oferece uma especial proteção aos rapazes. Tinha muitas habilidades: sabia tirar e colocar dentes, aliviar as dores de quem lhe pedisse socorro, indicar caminhos, detectar jazidas minerais, avaliar mercadorias, terrenos e animais de tropa. Conhecia, como as palmas de suas mãos, as Minas e os Gerais, e também a Bahia. Depois dessa viagem seria designado para uma difícil missão: descobrir por onde estrangeiros entravam pelo leste, vindo do sul da Bahia.
Tiradentes: a liberdade, vôo sem limites. Sua meninice, a orfandade, sua capacidade de se impor, de inspirar confiança a quem conhecesse, por onde andasse. A escola de vida com o padrinho, os livros, as aulas de francês. A convivência com o primo, botânico Frei Veloso, e o aprendizado sobre as plantas. A fruição da beleza da vegetação rupestre e a descoberta de suas utilidades. A canela-de-ema, tocheiro para alumiar os terreiros das casas, isca de fogo e remédio para os rins. Outras flores, pura beleza: a Laelia flava, a Cambessedessia, a Lavoisieria, nomes recentes que a ciência lhes deu. Que nome lhe daria o vento das montanhas?
Na primavera de 1775, a penúltima viagem com seu primo Frei Veloso. Ao retornar, Joaquim José se apresentou ao Comandante do Regimento dos Dragões que acabava de criar novas companhias da tropa paga. Começou no dia primeiro de dezembro, diretamente no posto de Alferes, e, mais tarde, comandou uma das oito unidades do Regimento, a de Sete Lagoas, responsável pela vigilância de toda a região dos Gerais.
As tropas de burros e os carros de bois transportam cargas dos portos do Rio para localidades distantes como Paracatu do Príncipe e Vila Boa de Goiás. Levam as mais diversas encomendas.Um aparelho de jantar de 240 peças vindas das Índias Orientais, depois de viajar de navio até Lisboa e de lá para o Rio, durante mais de seis meses atravessou montanhas, riachos, córregos e rios, veredas e planícies, vales e planaltos, em carro de bois que aguardava a encomenda no Porto da Estrela para a longa viagem de volta. Chegam intactas todas as peças! Será um presente do pároco da cidade pelo casamento dos filhos de importantes famílias de Vila Boa de Goiás..
Outra leva de porcelana não têm a mesma sorte. Ao abrirem as arcas, os compradores só encontraram cacos. Tudo quebrado! Tão lindos eram os fragmentos que eles não se desesperaram: mandaram fazer uma fonte toda embrechada com os multicoloridos pedaços de louça. Caso houve em que a encomenda tanto demorou que, ao chegar na Fazenda das Bandeirinhas, situada na localidade de Santo Antônio das Graças Brancas, distrito de Vila Rica, não encontrou mais quem a fizera em vida, o comerciante e fazendeiro local, Coronel Idelfonso Lemos, causando grande alegria aos seus descendentes que desconheciam a surpresa que o Coronel lhes reservara.
As caravanas dos viajantes passam por toda a parte e as tropas percorrem as trilhas de Minas, forjando os caminhos do futuro pela intensidade do uso.
Com as navegações, os portugueses conseguiram mudar o centro comercial da Europa, encurtando distâncias, abrindo novos entrepostos para produtos considerados raros, anteriormente. Criaram-se novos mercados para os produtos tropicais, aumentando a oferta e a concorrência.
A mudança ocorrida no fluxo de mercadorias do Oriente e da África para a Europa, conseqüência do sucesso dos navegadores portugueses, altera também a rota dos carregamentos que atravessavam desertos em incertas caravanas de camelos. Esse complexo sistema provocava atrasos e baldeações, além de encarecer os produtos e retardar negócios. Os portugueses, mais do que grandes descobridores de continentes e conhecedores da arte da navegação, tornam-se também importantes comerciantes.
A conseqüência dessas mudanças na maior colônia portuguesa é muito grande. Ao retornarem de seus estudos na Europa, os jovens filhos de donos de engenhos ou dos ricos contratadores logo se estabelecem com algum negócio. As atividades produtivas se distribuíam em vários setores, sempre buscando as vocações naturais dos terrenos e a aptidão dos solos, surgindo grandes, médios e pequenos comerciantes, mineradores, mascates e tropeiros, pois, afinal, muitos “acabavam sendo de tudo um pouco”, para se manter o alto padrão de vida. Abrem-se estradas para carros de bois sobre as precárias trilhas dos tropeiros, que já cortavam todo o território, ligando os caminhos do sul e da Bahia com os da Capitania de Minas Gerais.
“Cada ano, vêm nas frotas quantidades de portugueses e de estrangeiros, para passarem às minas. Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil, vão brancos, pardos e pretos, e muitos índios. A mistura é de toda a condição de pessoas: homens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, seculares e clérigos...” A população da Capitania de Minas Gerais representava, entre os brancos, mulatos e negros, “o dobro da população da Bahia, sede do Vice-reinado, o triplo do Rio de Janeiro e o quádruplo da de São Paulo...”
Quem viaja na dura rota do ouro sabe que o trajeto exige descanso em uma boa pousada como a de Dona Altina Cirilo. Essa pousada, parada obrigatória de tropeiros, fica na cumeeira do morro mais alto da Serra da Estrela, de onde se divisam as preciosas ondulações das barbacênicas montanhas mineiras, que ficam para trás. Último ponto de onde se podia ver as Minas e o primeiro de onde se entrevia o mar, fundindo ao azul do céu o azul do mar no horizonte infinito: o Rio de Janeiro! Ah, Minas! Desde sempre, como sonhas com o mar!
E, neste instante, de suas férreas montanhas de ouro, o mesmo ouro dos raios do sol que brilha em seus céus e com os quais compactua a matéria de que és feita, neste instante, como regatos, descem também das montanhas teus amados filhos, Minas:
De Mariana, Eugênio Gomes Seabra e Silva. Seus primos, Mário Antônio, deixando os pais em Vila Rica e José Francisco, saíram de Sabarabuçu, onde a família possui uma pequena fazenda e alguns escravos na mineração.
De Juiz de Fora, Domingos Vidal Barbosa Lage, alimenta o sonho de ser bacharel em leis como é seu pai, que agora o conduz ao Rio de Janeiro. Detém-se na Pousada de Altina Cirilo para descansar, sem saber que um dia, influenciado pelas idéias ilustradas e em nome da revolução, irá abandonar seus estudos em Coimbra, para se inscrever em um curso de Medicina em Montpellier, no Sul da França e cumprir, juntamente com José Joaquim Maya Barbalho, uma das mais importantes missões dos futuros revolucionários, intermediando os contatos com o Embaixador americano Thomas Jefferson.
Do Arraial do Tejuco, Francisco de Paula Meireles, vai terminar o curso de Filosofia e, ao regressar ao Brasil será professor de filosofia em Mariana. “Pelo seu gênio extravagante e possuindo dotes de escritor hábil e cheio de ironia, provocaria muitas questões com os professores de Gramática Latina especialmente com um seu colega de magistério, a quem cobriu de ridículo na Oração que no dia da abertura de sua aula recitou na cidade de Mariana o mestre Pascoal Bernardino de Matos, lente de Gramática Latina, depois, também impressa em Coimbra”.
Do Serro Frio, Manuel Ferreira da Câmara Bettencourt e Sá, vai estudar direito e ciências naturais, áreas do conhecimento que o farão muito respeitado. Mais tarde, na condição de observador da Real Academia de Ciências de Lisboa e de outras sociedades científicas, acompanhará José Bonifácio de Andrada e Silva em viagem pela Europa. Voltará como o Intendente-Geral das Minas de Ouro e Diamantes da Província de Minas Gerais, trabalhando decididamente pela independência do Brasil, torna-se depois, deputado e senador.
Do grande sertão, de montes tão claros que mais se assemelhavam ao céu do que a terra, vem Darcy Ribeiro. Desde cedo acostumado a conviver com dificuldades da vida dos desbravadores das insondáveis fronteiras do norte da capitania, obstáculos só vencidos pela ajuda divina ou pela tenacidade e inteligência dos habilitantes, do Tejuco, do Grão Mogol, do Serro Frio, que desbravam o interior à procura de riquezas. Queria ver outras terras, outras pessoas. Mudar de vida. Deixar para trás o fatalismo e a submissão religiosa de sua família, claramente manifesto na recomendação que lhe mandara, por escrito, o tio Filó, que também deixou a família, mudou de nome, tornando-se o Coronel Castro Maya que fora viver em Goiás.
“Quando vim pro oeste, caí no mundo, fugindo de mim, ou melhor caí no mundo, largado na mão do destino. Isso foi que senti quando me vi outras vez, montado naquela égua dura, trotando em terras de Goiás. Senti ali que ainda era eu, mas já era outro. Sabia bem que dentro de mim, no mais íntimo, permanecia eu mesmo; mas para todos, até pra mim inclusive, eu já não era eu: era ele, com o novo nome a nova figura que tinha.”
Escapei das durezas da “vida de roceiro, enxadeiro, pobre. Escapei dela para ser outro que eu nem sabia quem era. Naquela hora, naquele lugar, eu podia descaminhar. Procurando rumo mais para o norte, teria dado em sertanejo andejo, jagunço. Quem sabe, cangaceiro? Mais para o sul, seria baiano em vida de capiau paulista. Como dei de andar mais para o centro, escapei desses destinos. Vim ser outro eu possível entre tantos que cabiam na minha sina elástica. Isso que eu sou resulta tanto de mim com minha cara e coragem como da sorte ou do azar de que não desci sem subi. Andei reto. Para o oeste. Para a frente, para o fundo do Brasil. Assim é que fui dar em mim.
Por quê? Estou ainda por entender. Terá sido vontade de Deus. Só pode ter sido sina divina, esse novelo enrolado que se desenrolou tão sem surpresa para ir me fazendo, por necessidade, como eu tinha desde sempre de ser. Detalhadamente, tudo feito para dar exatamente em mim no que fui e sou. Esta, a dita que vim cumprindo surpreso; enfrentando empresas que se armaram para me provar.”
A vida meu sobrinho, “é um novelo que Deus vai desenrolando devagar e nós cumprindo afoitos, em pecados e virtudes, sem nem saber por quê. Essa vida é na verdade uma penca de novelos. Não. Para ser exato, uma penca de bilros é o que a vida é. O rendeiro é Deus. Lá de cima, sem hora, espetando os alfinetes nos moldes de papelão de nossas sinas. Ele vai tramando, retramando, nosso destino.”
O Coronel Castro Maya conduziu o sobrinho Darcy até o Tejuco, onde tinha negócios de herança para resolver. De lá, Darcy viajou na mesma comitiva de Manoel Ferreira da Câmara Bettencourt e Sá e agora se encontram prestes a descer para o mar.
Refazer matulas, comer, descansar, trocar os animais, reparar arreios, tralhas, talabartes e demais apetrechos de tropa! Pequenos negócios, novidades, os velhos e novos amigos. O coração disparado com as possibilidades felizes que a cidade oferece!
A pousada antecedia a descida até o porto da Estrela, ponto final para as tropas pois, daí para a frente, muito poucos se aventuravam a atravessar a baixada; caminho ruins e perigosos para os animais, ineptos para esses terrenos pantanosos. Será por isto que quando aí se pernoitava, uma profunda comunhão compactuava os corações dos viajantes, ou teria Altina a magia de reunir esperanças?
Seja lá o qual for a razão, aí na Pousada de Altina Cirilo, Darcy Ribeiro, José Álvares Maciel e seus irmãos, Domingos Vidal Barbosa, Eugênio, Mário Antônio e José Francisco Gomes Seabra, Manuel Ferreira da Câmara Bettencourt e Sá, do Serro Frio e Francisco de Paula Meirelles se descobriram todos com o mesmo destino: a longínqua Coimbra. O destino! Que profunda emoção, um arrepio da alma, nos provoca a menção do fato de termos um destino. E quando encontramos os que compartilharão nosso destino, que estranhos sonhos, devaneios, premonições! Nesse encontro, muitas promessas, risos, uma cumplicidade que logo se ampliarão com a adesão de outros brasileiros, também sonhadores da liberdade e das luzes, mais luzes! Para clarear a vida dos que ficam sob o mando do obscuro Governador D. Antônio de Noronha. A travessia do Atlântico, no navio Nossa Senhora da Ajuda, e mais um dia e meio, de carruagem, até o “cidade dos estudantes”.
Em Coimbra, José Álvares Maciel se destaca bastante de seus irmãos e dos demais brasileiros. Brilhante estudante de matemática, ciências naturais, filosofia e direito. Juntamente com o baiano, Alexandre Rodrigues Ferreira, 20 anos, e o Padre Joaquim Veloso de Miranda, de Ouro Preto, que já estudava em Coimbra desde 1770, vai se tornar assistente do professor Domingos Vandelli. Maciel é um dos doze estudantes que se comprometem em reunião patriótica, a empregar todos os seus futuros esforços para alcançarem a independência do Brasil. Depois de sua formatura, com a ajuda do Prof. Vandelli empreende uma viagem à Inglaterra onde se dedica ao estudo da indústria manufatureira e da química. Voltando ao Brasil em 1788, fiel ao compromisso que em Coimbra assumira, participa ativamente da conspiração. Maciel, como os outros conjurados, é condenado à morte, sendo-lhe comutada a pena em desterro de dez anos em Angola. No degredo o governo o incumbe de montar uma fábrica de ferro naquela colônia, missão que cumpre sem voltar ao Brasil.
Outros contemporâneos dos mineiros são, Luís Antônio Carlos Furtado de Mendonça, nascido no Rio e filho do governador da capitania de Goiás, e José Bonifácio de Andrade e Silva, nascido em Santos em 1765, que estava em Coimbra já há seis meses, tendo se matriculado em Direito, Matemática, Filosofia, e Leis. Bonifácio será bacharel em Leis em 1787, em Filosofia em 1788, professor da cadeira de Metalurgia. Obterá o grau de doutor em Filosofia sem defender teses nem fazer exame privado. Após o seu bacharelado em Filosofia é admitido na Real Academia de Ciências de Lisboa e consegue, graças à proteção do duque de Lafões, uma pensão para realizar uma viagem ao estrangeiro com o fim de complementar os seus conhecimentos. Depois de concluir o curso de Química e Mineralogia em Paris, viagens à Itália, Inglaterra, Alemanha, Suécia e Noruega. Desempenharia os cargos de desembargador da Relação e Casa do Porto, Diretor-Geral de todas as minas do Reino, superintendente das obras do rio Mondego e diretor do laboratório de Química da Universidade. Durante a invasão francesa em 1807, José Bonifácio faz parte do batalhão acadêmico nos postos de major e tenente coronel. Depois da expulsão, será ainda, chefe da polícia do Porto. No Brasil, exerceria uma ação política notável, trabalhando com afinco pelo seu engrandecimento.
Em Portugal, Darcy Ribeiro se torna amigo de Francisco Mariano José Pereira da Fonseca, carioca, estudante de Filosofia e futuro Marquês de Maricá, literato, filósofo e moralista. Exercendo diversos cargos da magistratura em Portugal, vai, depois, estabelecer-se no Rio como advogado, exercendo papel importante na Independência. Será senador, ministro e conselheiro de Estado. Publicará uma coleção de máximas morais e políticas, falecendo em 1848.
A vida cultural em Coimbra é intensa e muitas atividades intelectuais, entretanto, se realizam para um público restrito aos próprios participantes, geralmente sócios de alguma sociedade secreta, seja de caráter maçônico, literário científico ou político. O que os une é a busca incessante da razão para resolução de conflitos ou para critica e contestação dos dogmas da Igreja.
Os escritos dos abades iluministas, especialmente Raynal, vinham sendo avidamente distribuídos entre os estudantes das universidades da França, Espanha, Inglaterra e da conservadora Coimbra, naturalmente.
Os livros correm de mão em mão em edições piratas, pois os filósofos franceses, por exemplo, só entravam de forma clandestina em Coimbra, onde o Reformador-Reitor D. Francisco de Lemos de Faria Pereira, deputado da Mesa Censória e do Tribunal do Santo Ofício é extremamente severo. Este brasileiro, nascido no Rio em 1735, já era Doutor em Cânones aos 19 anos, Bispo aos 33 e Reitor da Universidade de Coimbra aos 35, cumprindo o programa das reformas pombalinas. O livro de Raynal fora incluído no Index pela Inquisição desde 1779.
Na casa onde morava o mineiro de Paracatu, Francisco de Melo Franco, 19 anos, se organiza uma festa para recepcionar os novos estudantes mineiros que chegavam, a atração maior eram os livros franceses. Foram trazidos pelo Doutor Inácio José Alvarenga, então Juiz de Fora, e Sintra, e que fora a Paris antes de voltar ao Brasil, nomeado Ouvidor da Comarca do Rio das Mortes. Alvarenga viajou acompanhado de José de Oliveira Fagundes, carioca, bacharel em Leis em 1778, mais tarde, advogado de defesa de seus conterrâneos no processo da devassa da “Conjuração Mineira”. Ele também trouxe muitos livros. Darcy já possuía uma enorme coleção de panfletos e escritos do “abade proibido” sendo o primeiro a ler a Histoire dês deux Indes obra do abade Raynal que, especialmente nesta obra, contou com a colaboração do enciclopedista Denis Diderot. Com a proibição da obra na França, em 1779, 1781 e a ordem de prisão de Raynal ordenada pelo Parlamento, houve uma explosão de vendas do livro que já estava na 14a. edição, 25.000 exemplares, um número impressionante para a época!
“A Histoire dês deux Indes ataca a Igreja, a intolerância religiosa, as guerras genocidas de conquistas, a escravidão e o comércio de negros e critica impiedosamente o governo monárquico centralizado. O Antigo Regime era o principal alvo, mas, evidentemente o assunto interessava a todos os povos colonizados e oprimidos.”
Circulavam pelas casas dos estudantes, especialmente os matriculados nos cursos de Filosofia e Direito, diversos textos dos filósofos iluministas, antes que surgisse essa que é a obra de fôlego do Abade Raynal. Resultado de vários anos de trabalho, sua Histoire é uma obra coletiva da qual participaram Pechmeja, Valadier, Lagrange, o médico Dubreuil, além de Diderot e outros, e, a exemplo dos enciclopedistas, procurava reunir diversas áreas do conhecimento “transpondo, quase diretamente, idéias recolhidas em obras contemporâneas, como fez com o Senso Comum de Thomas Paine ou Recherches philosophiques sur lês américains de Pauw. E mescla Voltaire, Montesquieu, Helvétius, Holbach e Rousseau, plagiando todos à mão solta. Sua pena amalgama idéias, cede espaço para propostas mais radicais e acende espíritos rebeldes. Prega a reforma dos sistemas monárquicos em favor do desejo expresso de um triunfo pacífico da Luzes. Acusa o excesso de luxo, a decadência dos costumes e a repartição desigual das riquezas. Propõe a liberdade comercial, o fim dos monopólios, a reforma dos impostos, a tolerância religiosa, a separação entre a Igreja e o Estado, e a ampla liberdade de expressão.”
Desde que saiu do conforto do claustro, aos 35 anos, e começou a escrever no jornal Mercure de France, Guilhaume-Thomas François Raynal, ou simplesmente Abade Raynal, publicou libelos, panfletos e artigos incendiários, em jornais e livros. Eram textos incendiários, porém o mais sulfuroso veio depois, Revolution de l’Amerique, lançado em língua francesa e inglesa. Raynal comenta minuciosamente o processo revolucionário da América Inglesa, embebido de um “entusiasmo delirante”. O livro de Raynal sobre a independência das 13 colônias da América tornou-se um “Manual de Revoluções”.
A Análise da economia global apresentada por Raynal e seus companheiros procurava “desenhar um completo mapa das colônias européias e seus Estados, suas relações comerciais, problemas políticos e diplomáticos e de investimentos de capital. Além de críticas insolentes, as narrativas alternavam um discurso descritivo onde eram apresentadas as caracteríscas e peculiaridades das colônias e de sua produção, como também a geografia física das regiões, a geologia, relações comerciais, fatos políticos e diplomáticos da história dos países colonizadores e sua evolução, com intervenções e divagações filosóficas contundentes sobre a tirania dos monarcas, a desigualdade social, a licenciosidade do clero e a desumanidade da escravidão.”
Estes livros e panfletos são o principal assunto dos infindáveis encontros de estudantes brasileiros e alguns portugueses reunidos, até altas horas, em acaloradas discussões sobre as possibilidades de um movimento emancipacionista na maior colônia portuguesa. Era preciso, entretanto, mais do que clareza das idéias. Como fazer uma revolução prosperar em um país que não dispunha de jornais ou gráficas? Como financiar a resistência? Como sair das conjecturas e partir para um plano mais prático? Claro estava que não poderiam deixar transparecer nada em Portugal e a eventual ajuda estrangeira, certamente, não viria da Inglaterra, aliada que financiava a maioria das expedições portuguesas e principal beneficiária da exploração das colônias.
Darcy é favorável à ida de Maciel a Paris sugerindo que ele procurasse um contato com o embaixador americano Thomas Jefferson com o objetivo de sondar um eventual apoio da primeira nação independente do novo mundo ao movimento nascente que já contava com muitos simpatizantes no Brasil. Parecia muito prematuro e inconveniente. Resolvem, então, que primeiro mandariam uma carta ao autor da declaração de independência americana, por intermédio de um amigo seu e Conselheiro do Rei, Mr. Vigarons, professor de medicina em Montpellier, no sul da França.
Há muita discussão se a inciação maçônica de José Alves Maciel se deu em Coimbra mesmo, apresentado pelo Mestre Domingos Vandelli, de quem fora aluno brilhante e um colaborador destacado; em Lisboa, onde estava outro amigo, Luiz Antonio Furtado de Mendonça, futuro Governador de Minas, à época, Secretário da Real Academia de Ciências de Lisboa, ou o que é também provável, em Paris, na Loja Amitié, freqüentada por Lafayette e Jefferson. O confessor de Maciel impressionava-se com sua “rara instrução” e testemunhará que o inconfidente sofrera uma profunda transformação psicológica. Nota que Maciel reconvertera-se ao cristianismo “com sinceridade “ depois de passar “pela fornalha da oficina da franco-maçonaria.”
Darcy e Maciel aproveitam a viagem de todo emissário que surgia, para mandar uma enorme quantidade de livros aos simpatizantes na Capitania de Minas, como o poeta Cláudio Manoel da Costa, o ouvidor, Tomás Antônio Gonzaga, o erudito Luiz Vieira da Silva, ao cunhado de Maciel e comandante da tropa paga, Cel. Francisco de Paula Freire de Andrada e aos padres Carlos Correia de Toledo e Melo de S. José do Rio das Mortes e José da Silva e Oliveira Rolim do Tejuco.
Para evitar as vistorias dos fiscais do vice-rei no Rio, algumas encomendas eram desembarcadas em Salvador e viajavam no lombo de burros e mulas até Vila Rica, levando quase o mesmo tempo da travessia do oceano para chegar aos destinatários. Em um desses pacotes de livros encontrou-se uma carta, atribuída a Darcy Ribeiro, que conclamava os conterrâneos para a luta:
“Mas venham todos! Você os vê? Foram milhões de almas vestidas de corpos mortais, doídos, o que nessas Minas se gastaram. Olhe de novo pra eles, olhe bem. Veja só. No princípio eram principalmente índios nativos e uns poucos brancarrões importados. Depois, principalmente negros, vindos de longe, africanos. Mas logo, veja só: eram multidões de mestiços, crioulos, daqui mesmo.
Quem somos nós? Existimos para quê? Por que? Para nada?
Somos o povo dos heróis assinalados, mas somos mesmo é o povo dessas multidões medonhas de gentes, enganadas e gastadas, o povo escarmentado na carne e na alma. Somos o povo que viu e que vê. O povo que vigia e espera.
Minas estelar, páramo, mãe do ferro, mãe do ouro e do azouque. Mãe mineral, fulgor sulfúrico. Minas sideral, lusa quina de rocha viva enterrada além-mar. Minas antiga, cruel satrapia do fel e da agonia, sou eu que te peço: ponha um final nesta agonia, relampeia agora, peça a morte. Morra! Morra e renasça. Rolem pedras saltadas do mar petrificado; rolem, arrombem o subterrâneo paredão de granito que aprisiona o povo e o tempo, escravizando, sangrando, esfomeando, assassinando. Minas, árvore alta. Minas do esperma, do milho, da pétala, da pá, da dinamite. Minas carnal da flor e da semente. Minas mãe da dor, mãe da vergonha. Minas, minha mãe crepuscular.
Havemos de amanhecer. O mundo se tinge com as tinhas da ante-amanhã”.
Quando é aberto o processo de devassa da “Conjuração Mineira” a conspiração estava nas ruas e também dentro dos palácios. Darcy Ribeiro já morava no Rio de Janeiro e freqüentava o Palácio do Vice-Rei, enquanto José Álvares Maciel, filho do chefe de polícia de Vila Rica, morava no Palácio de Cachoeira do Campo, contratado pelo Governador da Capitania de Minas e Visconde de Barbacena, Luiz Antonio Furtado de Mendonça, como preceptor de seus filhos. E, mais, o cunhado de Maciel, Comandante do Regimento dos Dragões, é o Tenente Coronel Francisco de Paula Freire de Andrada, que por sua vez, casara-se com a filha do Capitão-mor de Vila Rica, Isabel Querubina de Oliveira Maciel, dias antes da partida do irmão para Coimbra.
Assim como os padres envolvidos na conjuração têm um julgamento em separado, o que estava de acordo com a doutrina do direito canônico, sendo então condenados a viverem em conventos portugueses, Darcy, pela confiança que lhe depositava o vice-rei D. Luiz de Vasconcellos e Souza, conseguiu ficar fora do processo dos “inconfidentes”, sendo, porém julgado por uma “comissão de conselheiros” escolhidos pelo vice-rei e condenado “a viver sempre”. Darcy não podia morrer porque as causas e bandeiras da liberdade e da igualdade não seriam ganhas em pouco tempo. Como comprovamos, dois séculos depois, é guerra para muitas gerações. Muitos jovens que estudavam em Coimbra, Paris, Montpellier ou Londres, ao voltarem para o Brasil tinham alimentado a idéia de também fundar uma República ao sul do equador, seguindo os passos dos americanos que tinham conseguido realizar o ideal ilustrado. Conforme está magnificamente na Declaração de Independência dos Estados Unidos da América no Norte de 1774, Jefferson e os pais da pátria americana souberam interpretar e aplicar os princípios difundidos pelos filósofos iluministas.
A condenação de Darcy não significava exatamente um castigo, pois, com essa idéia de “não morrer nunca”, como se fora um D. Sebastião, ele teria a oportunidade de reaparecer muitas vezes no futuro, buscando apoios para realização de suas utopias, sem ter que entrar para nenhuma Academia. E combina com suas vocações. Ele tem uma coragem feita de ferro de Minas para vencer todos os obstáculos e para concretizar os seus ideais, enfrenta martírios, prisões e exílios, tudo, desde que as causas não sejam pessoais ou menores.
Darcy compreendia bem aquilo “que os índios brasileiros, vivendo uma espécie de socialismo primitivo, uma sociedade comunitária, provocavam na mente dos pensadores europeus”.
Sabia também, que no Brasil “fazemos a burrice de comemorar a chegada dos portugueses no Rio de Janeiro, como uma data de fundação. Fizemos até monumento para os portugueses pela fundação do Rio de Janeiro, esquecendo que a coisa mais bela de nossa história pregressa é a aventura linda dos calvinistas, dos 600 europeus, suíços de Genebra, franceses, que atendendo a Calvino saíram ao embate e vieram fundar o Rio de Janeiro. Os Calvinistas saem para o mar tropical para criar aqui a cidade que devia ser a cidade do sol, a cidade perfeita, um mundo como devia ser, um mundo do amor de Deus. É de uma beleza incrível esses hungenotes perseguidos na Europa, esses protestantes, esses calvinistas que saem para fundar a utopia na baía do Rio de Janeiro. Essa baía cheia de baleias, de golfinhos. E bandos de guarás – uma garça vermelha – elas viviam em bandos tão grandes que escureciam a terra quando revoavam. Então vocês imaginem esse rubro-negro e esses hungenotes. Aqui existe uma porção de episódios terríveis porque eles encontram índios e índios desnudos e eles acham pecaminosos, e há um desencontro com aquela coisa. As brigas entre eles também eram horrorosas e eles começam a enforcar uns aos outros. Isso dava uma confusão muito grande. Mas o importante é que o Brasil é fundado, neste caso também, com a utopia, o projeto é utópico. Num segundo momento você vê os jesuítas. O movimento principal de fundação do Brasil no século XVI é quando os jesuítas, apavorados com a possibilidade de que a Reforma em curso na Europa fosse dada aqui. Apavoraram-se tanto com a implantação protestante aqui que Anchieta e Nóbrega morrem de pavor. E são eles que provocam uma grande guerra reduzida. Provocam, levantam todas as tribos que podem e lançam contra os franceses criando uma guerra tremenda. Sabe-se que nessa guerra da expulsão dos franceses morreram algumas dezenas de portugueses e franceses. Mas morreram 10 mil índios. Você imagina 10 mil índios brigando de um lado e do outro, encarniçadamente, se estraçalhando por razões que eram duas versões do cristianismo: a católica e a protestante. Os índios metidos em uma briga tipicamente européia”.
Darcy, então, ficou até satisfeito com a possibilidade de seu reaparecimento toda vez que pudesse vir e convocar parceiros para a realização de seus “planos utópicos”. Utópicos para os outros, é claro. Ele sempre acreditou em seus sonhos. Em certa época, voltou com a idade que tinha quando foi estudar em Coimbra, 19 anos, e decidiu que iria morar com os índios no planalto central do Brasil. Ficou lá por dez anos, tendo a oportunidade de aplicar o que havia aprendido do marechal Rondon e estudou muito com seus amigos Cláudio e Orlando Vilas Boas e com Noel Nütels.
Mais tarde, Darcy voltou, como um D. Sebastião, para cumprir uma antiga promessa, que fizera em Coimbra: “fundar uma Universidade livre, realmente aberta”. Acreditou no sonho de Brasília, chamou seus amigos, entre eles o grande filósofo português Agostinho da Silva e pensando grande, criou a UnB. Visitando o Agostinho todas as manhãs o Reitor Darcy Ribeiro aprendeu que “escrevemos hoje a história do futuro” e não parou mais de arquitetar planos para a felicidade dos brasileiros.
Recentemente voltou a aparecer, depois de um longo exílio, inventando escolas para o Brasil. Ele diz que esta “não é nenhuma utopia descabelada, é importante por os pés no chão”. O que ele chama de “utopia de pé no chão” é o seguinte: “não está nem no horizonte mais longínquo do povo brasileiro, uma coisa tão simples, tão singela, que todo mundo tem, como a possibilidade de se comer todo dia, uma possibilidade de todo doente ter um tratamento sem estar preocupado com a conta; uma possibilidade de cada homem ou mulher, maior de 14 anos, ter um emprego seguro; uma possibilidade de toda criança ter uma escola, mas uma escola que não seja para ofendê-la. Que não seja feita para mostrar que ela é pobre porque é burra, como a escola prova, mas uma escola que compense o atraso que a criança traz da família, dando a ela uma atenção especial. Uma escola na qual ela possa progredir”.
Depois de reinventar a educação, agora mesmo Darcy, inconfidente e pioneiro em todos esses séculos passados e vindouros, estava a construir a Universidade do século XXI, no norte fluminense. Aluno e o professor trabalhando juntos o tempo todo, era o sonho. Ambos ensinam, ambos aprendem. Recebem para estudar, pesquisar e trabalhar. Preparam o novo milênio, arquitetam o futuro, tempo em que Darcy voltará, mais uma vez, para colher os frutos das árvores que acabara de plantar e para, novamente, fazer germinar suas sementes. Mas sua utopia não se acaba aí: “Nós devíamos partir deste ponto. Há uma utopia do Brasil, como eu venho falando sempre, que é essa coisa tão singela. Essa utopia eu sempre coloco nos seguintes termos: é praticável em 10 anos obter isso. É praticável em 10 anos conseguir essa coisa elementar: organizar a economia brasileira para que todo mundo coma todo dia; organizar para que todo mundo tenha emprego e escola desde cedo. A maior necessidade desse país é tomar consciência de que esta tarefa utópica tem que ser feita mas, ela só pode ser feita se nós proibirmos o passado de proibir o futuro. Para construir aqui a beleza de nação que podemos ser. Havemos de ser! Para tanto, é indispensável impedir o passado de construir o futuro; quero dizer, tirar da gente que nos regeu e infelicitou através dos séculos o poder de continuar conformando-deformando nosso destino. É hora de lavar os olhos para ver nossa realidade.”
“Agora, existe a possibilidade de que o futuro sempre decorrerá do passado”, portanto, mãos à obra, pois o futuro já é amanhã cedo.
BIBLIOGRAFIA
Fontes citadas
ANTONIL, André João. Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas. Ed. Melhoramentos/INL/MEC, São Paulo, 1976, 2ª edição.
BRANS, Isolde Helena. Tiradentes Face a Face. Biblioteca Reprográfica Xerox, Rio de Janeiro, 1993. pp.13-15, 47, 53, 75.
BRANS, Isolde Helena. Thomas Jefferson e a Missão Vendek. Palestra proferida na Biblioteca do Congresso, em Washington. Wash. USA, 1993.
BRASÍLIA, Suplemento ao Volume IV; Estudantes da Universidade de Coimbra nascidos no Brasil. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Coimbra, 1949.
DARCY RIBEIRO, o mais civil da Casa Civil. Depoimento a Martha Alencar e Edílson Martins para a Revista Careta, Rio de Janeiro, 1981, pp. 39-45.
De XAVIER, Carlos Alberto Ribeiro. Tiradentes. Palestra proferida na Biblioteca do Congresso, em Washington. Rona Editora, Belo Horizonte, 1993.
JARDIM, Márcio. A Inconfidência Mineira; uma síntese factual. Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro, 1989.
RIBEIRO, Darcy. O Mulo. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981, 1ª edição pp. 185-209.
________. Migo, Editora Guanabara S.A., Rio de Janeiro, 1988, 1ª edição. pp. 377-378.
________. Aos trancos e barrancos; Como o Brasil deu no que deu. Editora Guanabara Dois S.A., Rio de Janeiro, 1985, 2ª edição. p. 3.
SANTOS, Miguel. O Tiradentes, Patrono da Nação Brasileira. Ed. do Autor, Gráfica Laemmert Ltda., Rio de Janeiro, 1967, 1ª edição. pp. 62-63.
RAYNAL, Guilherme-Thomas François. A Revolução da América, Tradução de Regina Clara Simões Lopes e Prefácio de Luciano Raposo de Almeida Figueiredo e Oswaldo Munteal Filho. Arquivo Nacional, Rio de Janeiro. 1993. pp. 1-9.
Fontes consultadas
AUTOS de Devassa da Inconfidência Mineira, Brasília, Belo Horizonte, edição da Câmara dos Deputados e do Governo do Estado de Minas Gerais, Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, Brasília, Belo Horizonte-MG, 1976 a 1983, 10 volumes.
CUNNINGHAM JR., Nobre E. Em Busca da Razão-a vida de Thomas Jefferson. Editorial Nódica Ltda, Rio de Janeiro, 1993.
MAXWELL, Kenneth R. A Devassa da Devassa; a Inconfidencia Mineira: Brasil-Portugal; 1750‑1808. Editora paz e Terra S.A., Rio de Janeiro, 1978, 2ª edição.
RIBEIRO, Darcy. Maíra. Ed. Círculo do Livro, São Paulo, 1980.
(*) Carlos Alberto Ribeiro De Xavier é economista, funcionário público há 30 anos e foi Diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, do IPHAN, Chefe de Gabinete do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, em várias gestões. Atualmente é assessor do Ministro da Educação
Comments