O diabo na livraria do cônego eduardo frieiro
Um monstro nas
minas ilustradas: O diabo
na livraria do
cônego
A
Monster in the
Enlightened Minas:
O diabo na
livraria do cônego
Késia Rodrigues
de Oliveira*
Resumo: A figura
mitológica do diabo
é elemento recorrente
tanto no imaginário
popular quanto em
personagens da literatura
ocidental sendo atribuída
a ele a
representação da maldade.
Entretanto, é no
período colonial mineiro
que tal figura
aparecerá, para além
da conjuntura religiosa,
simbolizando na forma
de livros, as
ideias iluministas franceses.
Este artigo pretende
a partir de
uma leitura crítica
do ensaio "ʺO
diabo na livraria
do cônego"ʺ, de Eduardo
Frieiro, e do
conto
"ʺ1789-‐‑1790"ʺ,
de Maria José
de Queiroz, analisar,
sob o contexto
histórico da Inconfidência Mineira,
as referências aos
livros e ao
diabo, alegoria das
ideias libertárias, e sua relação
com o espaço
da biblioteca.
Palavras-‐‑chave: Diabo. Biblioteca.
Minas Gerais.
Abstract: Devil'ʹs mythological figure
is a recurring
element in folklore
as well as
its portrayal in
Western literature, in
which it represents
evil. However, over
Minas Gerais'ʹ colonial
period the devil
started to be
perceived as a
symbol, in the
form of books,
of the French
Enlightenment ideals, beyond
its religious context.
This paper aims
to analyze, under
the scope of
the Inconfidência Mineira
– Brazilian independence
movement and through
the critical reading
of the essay
"ʺO diabo na
livraria do cônego"ʺ, by
Edward Frieiro, and the
short story "ʺ1789-‐‑1790"ʺ, by
Maria José de
Queiroz, the references
to books and
to the devil,
as an allegory
to the libertarian
ideology, as well
as their relationship
with the library'ʹs
space.
Keywords: Devil. Library.
Minas Gerais.
Uma
biblioteca é como
um grande gabinete
mágico que está
cheio de espíritos
que dormem nos
livros.
Emerson
O
diabo é personagem
recorrente no imaginário
popular, em contos
e lendas, bem
como na literatura,
sendo atribuída a
ele a representação
essencial da maldade.
Entretanto, é no
período colonial mineiro
que sua representação aparecerá,
para além da
conjuntura religiosa, simbolizando os
ideais iluministas franceses,
na forma de
livros.
Este artigo
pretende, a partir
de uma leitura
crítica do ensaio
"ʺO diabo na
livraria do cônego"ʺ, de
Eduardo Frieiro, e
do conto "ʺ1789-‐‑1790"ʺ, de
Maria José de
Queiroz, analisar, sob
o contexto histórico
da Inconfidência Mineira,
as referências aos
livros e ao
diabo, alegoria das
ideias libertárias,
e sua relação
com o espaço
da biblioteca.
Num misto de
ficção e história,
a fábula "ʺ1789-‐‑1790"ʺ, integrante
do livro Como me
contaram: fábulas historiais,
de Maria José
de Queiroz, relata
a história do
erudito cônego da
Sé de Mariana,
Minas Gerais, Luís
Vieira da Silva,
considerado a pessoa
mais instruída do
Brasil em fins
do século 17,
e também dono
de uma monumental
biblioteca particular. Preso,
aos 54 anos
de idade, acusado
de liderar um
movimento de conspiração
republicana mineira, seus
livros, ou melhor,
um único livro,
como se verá
adiante, foi considerado
prova de seu
envolvimento na insurreição
mineira.
Sua livraria1 vista
como símbolo de
revolta contra a
metrópole, juntamente com
todos os seus
bens, foi confiscada
pelas autoridades e
relatada nos Autos da
Devassa. No ensaio
intitulado "ʺO diabo
na livraria do
cônego"ʺ, Frieiro analisa
esse confisco e
trata dos livros
proibidos que os
inconfidentes guardavam em
suas casas.
O cônego
possuía em sua
residência mais de
setecentos volumes, com
cerca de 270
títulos, constituindo, desse
modo, uma biblioteca
notável para aquele
tempo e lugar,
superior às bibliotecas
particulares da Europa.
A biblioteca de
Kant e Spinoza,
por exemplo, contavam,
respectivamente, com cerca
de 300 e
160 obras. A
biblioteca do cônego
Vieira, segundo o
historiador Luiz Carlos
Villalta, era "ʺquiçá
uma das maiores
do período colonial"ʺ.2
A lista dos
livros demonstra que
o cônego era
um espírito altamente
cultivado e receptivo,
uma inteligência aberta
aos mais variados
campos do saber.
Dentre os livros
encontrados em sua
biblioteca havia dicionários, textos
de oratória, teoria
estética, arte, volumes
da Enciclopédia de
Diderot e d'ʹAlembert,
os clássicos gregos
e latinos. Vieira
era "ʺcurioso de
tudo, e de
tudo havia um pouco entre
seus livros, que
ele teria adquirido
sabe Deus com
que dificuldades"ʺ. 3
Ressalta-‐‑se que, dos
oitocentos volumes sequestrados, mais
da metade eram
em latim, cerca
de noventa em
francês, pouco mais
de trinta em
português, seis em
italiano, alguns em
espanhol, além de
vinte e quatro
livros ingleses que
figuram na relação
sem indicação de
títulos e autores.
No geral, "ʺo
melhor da livraria
de Luís Vieira
da Silva não
estava na quantidade,
mas na qualidade
das obras reunidas"ʺ,4 eram
obras de formação,
informação, recreio, agitação
e propaganda de
novas ideias.
É importante
destacar, ainda, que
pouco se sabe
sobre a vida
do clérigo e
sua história pode
ser explicada a
partir da citação
do escritor e
bibliófilo francês Jules
Janin: "ʺMuitos homens
não deixaram outra
oração fúnebre senão
o catálogo de
sua biblioteca"ʺ.5 A
vida pessoal de
Vieira parece não
ter tido nenhum
episódio especial no
período colonial mineiro,
entretanto, seu acervo
e o que
se deu com ele é
um importante registro
histórico tanto da
ação inquisitória portuguesa
na América como
da aversão aos
livros nas Minas
Gerais.
Embora o
clérigo tenha sido
acusado de revoltoso,
de tramar uma
conspiração contra a
metrópole, em sua
residência não foram
encontradas nenhuma arma
ou equipamentos de
artilharia, apenas livros.
Sua culpa, segundo
consta, limitou-‐‑se a
terem encontrado em sua biblioteca,
como prova inconteste,
um "ʺlivrinho francês"ʺ, relativo
à Revolução Francesa.
O crime do
cônego, ao que
parece, limita-‐‑se a
posse de um
gigantesco, diverso e
supostamente incendiário acervo
de livros que
poderiam, supostamente, contestar
alguns dogmas da
Igreja e, consequentemente, difundirem
uma rebelião na
colônia. Se, de
certa forma, saber
é poder, e
que os livros
são possibilidade de
sabedoria, o delito
do clérigo configurou-‐‑se, assim,
na verdade, como
um índice de
ameaça ao poder
absoluto da Igreja
e do Estado
na época.
Embora seu envolvimento com
a Inconfidência não
tenha sido, de
fato, provado, acredita-‐‑se que
o cônego possuía
certa responsabilidade intelectual
e que idealizava
o fim das
condições que a
colônia era submetida,
pois, uma vez
que o clérigo
era "ʺilustrado, nutrido
de boa ciência,
bem informado, muito
natural que Voltaire,
grande agitador de
ideias, e o
abade Mably, utopista,
lhe ensinassem política
e rebeldia"ʺ, afirma
Maria José de
Queiroz. 6
A livraria do
clérigo, conforme avalia
Frieiro, era frequentada
pelo diabo, metáfora
dos ares libertários
oriundos do Iluminismo
francês. Segundo ele,
o diabo dentro
da biblioteca insinuava-‐‑se "ʺsob
o melhor disfarce,
a letra da
imprensa, para perturbar
e perder o
bom clérigo."ʺ7 A
atribuição da liberdade
ao diabo e
do mal presente
no imaginário dos
mineiros aos livros,
transformou o cenário
da biblioteca em
um "ʺambiente infernal"ʺ, disseminador, portanto,
de ideias iluministas. De
acordo com Frieiro,
na coleção de
livros do cônego
"ʺhavia livros perigosos
e incendiários. O
espírito da Revolta
– o espírito
de Satã –
penetrara nela, cavilosamente
escondido nas obras
dos escritores e
filósofos."ʺ8
Ora censurada
pela ação da
Igreja Católica, ora
preservada em esconderijos,
em mosteiros, do
mito a realidade,
o espaço da
biblioteca constituiu-‐‑se, nesse
contexto, como um
ambiente circunscrito pelo
medo e pelo
enigma.
Configurado na
Alta Idade Média,
como um espaço
perigoso, o acesso
à biblioteca sempre
fora restrito. A
própria reprodução dos
livros era feita
apenas pelos monges
copistas e, posteriormente, a
leitura deles, era
igualmente restrita a
uma pequena parcela
da população.
Por conterem assuntos
que poderiam estimular
pensamentos reflexivos e
contestadores do saber
oficial da Igreja
Católica, o livro
foi, de certa
forma, diabolizado pelo
domínio eclesiástico. O
poder, encanto e
sedução, produzidos por
tal objeto, levaram
a Igreja a
tomar severas atitudes.
No romance, O nome
da Rosa, de
Umberto Eco, a
fim de se
proibir a leitura,
envenenam as páginas
dos livros.9
Na tentativa
de ocultar o
saber, aos olhos
da Igreja um
saber pagão merecedor
de punição, o
acesso à biblioteca
tornou-‐‑se limitado e
esse espaço se
converteu num lugar
de abrigo para
os mais diversos
demônios e espíritos
incendiários adormecidos, prontos
a ser despertados
ao virar das
páginas – talvez
daí o apelo
ao uso do veneno nas
folhas.
O diabo
surge, assim, enquanto
símbolo do saber,
isto é, da
ameaça do saber
representado pelas bibliotecas,
pois a informação
restringida a poucos
contribui de certa
forma, para a
manutenção da dominação.
Pois, conforme dito
anteriormente, nessa perspectiva,
saber é sinônimo
de poder.
A construção humana
da figura do
diabo teve distintos
momentos na História.
Sendo que para
o escritor russo
Máximo Gorki o
diabo é, na
verdade, "ʺuma invenção
maligna dos homens
para justificarem suas
torpezas"ʺ.10 A existência
do diabo, desse
modo, atrelar-‐‑se-‐‑ia a
uma justificativa filosófica
para explicar a
presença do mal
na sociedade.
Descrito na tradição
cristã como o
anjo rebelde blasfemador
que se revoltou
contra Deus, o
diabo na perspectiva
religiosa é a
própria personificação do
mal e da
revolta. Na
Bíblia, ele pode
ser visto também
como um símbolo
do conhecimento e
da liberdade, uma
vez que sob
a forma de
uma serpente, o
diabo tenta o
homem a comer
o fruto proibido
com o argumento
da obtenção do
discernimento: "ʺvossos olhos
se abrirão e
vós sereis como
deuses, versados no
conhecimento no bem
e no mal"ʺ.
11
Por outro
lado, na literatura,
ele aparece como
um personagem mítico
"ʺsob inúmeras facetas
e com um
estoque de surpresas
sempre renovado"ʺ 12.
Por Dante Alighieri,
por exemplo, o
diabo é retratado
como um gigante
tricéfalo com seis
imensas asas, já
para Charles Baudelaire
"ʺo tipo mais
perfeito de beleza
viril é o
de Satã"ʺ.13 Ressalta-‐‑se que
no campo literário,
o diabo também
será retrato como
índice de criatividade, de
liberdade de criação,
visto que a
tarefa de criar
é uma "ʺoperação satânica
por excelência"ʺ.14
Assim, esse
imaginário diabólico migrou
para os livros
devido à situação
repressiva que a
colônia vivenciava, em
que os livros
simbolizavam um conhecimento
que vem de
fora e que,
posteriormente, trariam uma
autonomia de pensamento
para a colônia
em relação à
metrópole.
Desse modo, o
diabo apresenta-‐‑se como
uma figura ambivalente, pois
se representa "ʺo
mal"ʺ pelo discurso
religioso, representa também
"ʺo libertador"ʺ – isto é,
a liberdade do
pensar e do
agir – para
os oprimidos da
colônia. Assim, o
diabólico criado pela
Igreja pode ser
visto como um
temor à disseminação
da liberdade do
pensamento e da
criação. Logo, a
resistência aos livros
realizada pela
Inquisição foi,
na verdade, o
medo de uma
possível insubordinação aos
dogmas defendidos pela
Igreja.
A
posse de livros,
metonímia do conhecimento,
durante a Inconfidência
Mineira, sobretudo daqueles
considerados
"ʺsubversivos"ʺ,
− vale lembrar
que nesse período
havia a censura
literária por meio
do Index Librorum Prohibitorum, isto
é, a lista
dos livros proibidos
pela Inquisição –
tornou-‐‑se indicação de
inteligência, humanismo, e,
principalmente, índice de
escape ao poder
opressor. Eram proibidos,
por exemplo, qualquer
livro contrário à
religião, à moral,
à cultura e
à ordem política.
Embora estritamente fiscalizada
pela Igreja, conforme
afirma Villalta "ʺem
Minas Gerais, temos
indícios de que
havia tentativas de
fiscalização, mas elas
parecem ineficazes"ʺ,15 pois,
além do registro
de diversas bibliotecas
particulares – pequenas
se pensarmos ao
número de letrados
na colônia portuguesa,
mas significativa a
ponto de fomentar
ideias de emancipação
política contra os
portugueses – registra-‐‑se, também,
a presença de
livros proibidos entre
figuras mineiras importantes,
como, por exemplo,
o próprio governador
das Minas na
época da Inconfidência.
A demonização
por parte das
autoridades eclesiásticas do
que se tem
como ameaça foi
muito recorrente na
história da colônia
da América portuguesa.
Por manutenção do
Estado do rito
católico, por exemplo,
demonizou-‐‑se, a figura
do índio, juntamente
com todas as
suas práticas culturais.
E essa mesma
intolerância, por parte
da Igreja e
do Estado, transportou-‐‑se para
os livros, proibindo-‐‑os na
colônia:
Se o imaginário
mineiro colonial demonizava
a sedição, a
Natureza (a miséria
do homem e
a Natureza como
se concebia no
século XVIII), a
maledicência, o calundu
e os libertinos,
estas ideias, ações
e personagens caso
se fizessem presentes
nos livros, tornavam-‐‑nos proibidos.16
Villalta aponta, em
seu estudo, para
a hipótese de
que as bibliotecas
dos inconfidentes teriam
induzido, de certa
forma, a comportamentos que
poderiam ser considerados como
diabólicos. Segundo o
historiador, na biblioteca
de Vieira "ʺLúcifer tinha
o seu império"ʺ17 e
Frieiro destaca a
presença do "ʺdoutor herético"ʺ circulante
nos volumes da
livraria do cônego
que efetivamente o
perdeu.
Desse modo, o
livro além de
representar a liberdade
é igualmente um
objeto desestabilizador da
ordem, capaz de
desencaminhar e "ʺperverter"ʺ seus
leitores, ou seja,
a colônia. Ainda
segundo Frieiro, a
própria função dos
ditos bons livros
seria envolver e
alterar os leitores:
"ʺO destino dos
bons livros é
esse: o de
encantar e perturbar,
excitando magicamente a
fantasia, o de
fecundar e estimular
a faculdade criadora
do espírito, irmanando
o sonho com
a ação."ʺ 18
É
essa perversão /
alteração nos indivíduos
construída, nesse contexto,
por meio da
leitura de obras
estrangeiras, e a
incorporação / aplicação
das novas ideias
neles contidas é
que também conferiu
a ideia de
monstruosidade aos livros
e consequentemente, ao
espaço da biblioteca,
no período mineiro
colonial.
A posse
dos livros simbolizava
um índice de
ameaça e subversão
aos olhos da
Igreja. O acesso
às bibliotecas, restrito
aos letrados no
Brasil colonial, era
sujeito, desse modo,
a ações inquisitórias. Sendo
a representação dos
livros aproximada ao
diabo, enquanto metáfora
dos ares libertários
aspirados pela colônia,
como um monstro,
pela sua capacidade
de deturpação. Embora
o século 18
seja marcado pela
inclinação à observação
empírica do mundo
e pela busca
pelo conhecimento, qualquer
ideia ou mesmo
hábito tido por
diferente ou perturbador
pelos colonizadores eram
alvo de demonização,
censura e perseguição.
Qualquer livro francês,
por exemplo, era
proibido na colônia
por poder propagar
o espírito revolucionário da
Europa vigente na
época.
No início
do Século das
Luzes, essa diabolização ou
monstrificação de certas
obras agravou-‐‑se, principalmente por
se tratar de
uma época de
transição entre o
pensamento medieval e
o racionalismo difundido
pelo Iluminismo francês.
O período histórico,
portanto, é um
momento de dominação
e expansão do
catolicismo que atuou,
muitas vezes de
forma violenta, sobre
qualquer ideia que
divergisse da corrente
tradicional cristã. Desse
modo, era tido
como um crime
de heresia tudo
o que não
correspondesse às normas
prescritas pela Igreja.
Se, somente por
serem em língua
francesa, algumas obras
eram demonizadas, um
simples empenho do
estudo delas tornou-‐‑se alvo
de condenação pelas
autoridades eclesiásticas. Conforme
afirma Queiroz: "ʺque
sílabas latinas em
terras incultas e
que a aplicação
aos estudos apenasmente
amor desinteressado à
ciência e ao
saber parecia coisa
absurda aos olhos
e ouvidos dos
promotores da Devassa
da Inconfidência Mineira"ʺ.19
Em uma
terra de poucos
letrados, o conhecimento
trazido de fora
se apresentou como
um instrumento de
ruptura da tradição
medieval, uma vez
que a inovação
das ideias defendidas
pela Ilustração levaria
não só a
liberdade de pensamento
como também derrubaria
os diversos mitos
e pilares da
ciência medieval, logo,
diminuiria também o
controle da Igreja,
nessa área, sobre
a população.
O imaginário de
demonização / monstruosidade impregnou-‐‑se nos
livros pelo medo
de que a
leitura deles pudesse
causar transformações nos
indivíduos, que uma
vez
"ʺesclarecidos"ʺ
– poderiam, por
exemplo, não aceitar
certas regras ou
estatutos preestabelecidos e
pré-‐‑aprovados. Os livros
convertem-‐se, desse modo,
em monstros pelo
poder instituído que
recobre sua referência
ao medo do
desconhecido.
Segundo Jeffrey Cohen,
"ʺo monstruoso oferece
uma fuga de
seu hermético caminho,
um convite a
explorar novos espirais,
novos e interconectados métodos
de perceber o
mundo"ʺ.20 Na concepção
católica vigente da
época, as ideias
libertárias podem ser
vistas como um
monstro, como aquilo
que visa a
desestabilização do sistema,
desdobrando suas reverberações
em crime e
pecado.
A
metáfora do monstro
é, na verdade,
o perigo do
conhecimento, da autonomia
de pensamento, da
possibilidade da instauração
de um inconformismo que
uma vez despontado
não se curva
à subordinação.
Para Cohen, "ʺo
monstrum é
etimologicamente, 'ʹaquele que
revela'ʹ, 'ʹaquele que
adverte'ʹ"ʺ, tal definição
pode nos servir
para ilustrar a
concepção dos livros
na Inconfidência Mineira,
visto que estes,
juntamente com o
espaço da biblioteca,
de certa forma,
revelam o saber,
o conhecimento. A
saber, etimologicamente, "ʺdemônio significa
'ʹconhecimento'ʹ, em grego"ʺ.21
Os livros
sob o contexto
da Inconfidência Mineira
parecem corroborar a
última tese sobre
os monstros de
Cohen, pois eles:
trazem
não apenas um
conhecimento mais pleno
do nosso lugar
na história e
na história do
conhecimento de nosso
lugar, mas eles
carregam um autoconhecimento, um
conhecimento humano –
e um discurso
ainda mais sagrado
na medida em
que ele surge
de Fora. Esses
monstros nos perguntam
como percebemos o mundo
e nos interpelam sobre como temos representado
mal aquilo que
tentamos situar.22
De volta
à livraria do
cônego, após seu
confisco pela Devassa
não se tem
registros e/ou precisas
informações sobre o
seu destino. Se
o cônego esteve
de fato envolvido
em uma conspiração
contra a metrópole
não se sabe.
Fato é que
antes de ser
um inconfidente, Luís
Vieira da Silva
era um ávido
leitor. Embora seus
livros tenham sido
sequestrados, as ideias
que eles difundiam
permaneceram. As novas
ideias, o espírito
da liberdade continuou
circulando pelos ares
da colônia, pois
o monstro uma
vez libertado nunca
retorna ao cativeiro.
-‐‑-‐‑-‐‑-‐‑-‐‑
*Késia Rodrigues de
Oliveira é graduanda em
Letras na Faculdade
de Letras da
UFMG e pesquisadora
de Iniciação Científica
(CNPq) do Núcleo
de Estudos Judaicos
da UFMG.
Notas
1 Segundo o
dicionário Michaelis, “livraria” é,
no período, sinônimo
de “biblioteca”.
2 VILLALTA, Luiz
Carlos. O diabo
na livraria dos
inconfidentes. In: NOVAES,
Adauto (Org.) Tempo e
história. São Paulo:
Secretaria Municipal da
Cultura, 1992, p.
373.
3 FRIEIRO, Eduardo.
O diabo na
livraria do cônego.
In: _____. O diabo
na livraria do
cônego: como era
Gonzaga? e outros
temas mineiros. São
Paulo: Itatiaia; Ed.
da Universidade de
São Paulo, 1981,
p. 37.
4 FRIEIRO, 1981,
p. 24.
5 FRIEIRO, 1981,
p. 53.
6 QUEIROZ, Maria
José de. 1789-‐‑1790.
In: _____. Como me
contaram: fábulas historiais.
Belo Horizonte: Imprensa
Publicações, 1973, p.
72.
7 FRIEIRO, 1981,
p. 22.
8 FRIEIRO, 1981,
p. 22.
9 ECO, Umberto.
O
nome da rosa.
Trad. Aurora Fornoni
Bernardini e Homero
Freitas de Andrade.
Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 2006,
p. 549.
10 VILLENEUVE, Roland.
Satã. In: BRUNEL,
Pierre (Org.). Dicionário de
mitos literários. Trad.
Carlos Sussekind. Rio
de Janeiro: Jose
Olympio, 2000, p.
814.
11 Gn 3:5.
12 VILLENEUVE, 2000,
p. 814.
13 VILLENEUVE, 2000,
p. 814.
14 VILLENEUVE, 2000,
p. 819.
15 VILLALTA, 1992,
p. 372.
16 VILLALTA, 1992,
p. 370.
17 VILLALTA, 1992,
p. 377.
18 FRIEIRO, 1981,
p. 23.
19 QUEIROZ, 1973,
p. 71.
20 COHEN, Jeffrey
Jerome. A cultura
dos monstros: sete
teses. In: SILVA,
Tomaz Tadeu da. Pedagogia
dos monstros: os
prazeres e os
perigos da confusão
de fronteiras. Trad.
Tomaz Tadeu da
Silva. Belo Horizonte:
Autêntica, 2000, p.
31.
21 SAGAN, Carl.
O mundo assombrado
pelos demônios. In:
_____. O mundo assombrado
pelos demônios. Trad.
Rosaura Eichemberg. São
Paulo: Companhia das
Letras, 2006, p.
123.
22 COHEN, 2000,
p. 54.
Referências BÍBLIA DE
JERUSALÉM. Nova edição,
revista e ampliada.
Trad. Euclides Martins
et alii. São
Paulo:
Paulus, 2010.
COHEN, Jeffrey
Jerome. A cultura
dos monstros: sete
teses. In: SILVA,
Tomaz Tadeu da. Pedagogia
dos monstros: os
prazeres e os
perigos da confusão
de fronteiras. Trad.
Tomaz Tadeu da
Silva. Belo Horizonte:
Autêntica, 2000, p.
23-‐‑60.
DELUMEAU, Jean.
História do
medo no Ocidente, 1300-‐‑1800: uma
cidade sitiada. Trad.
Maria Lucia Machado.
São Paulo: Companhia
das Letras, 1990.
ECO, Umberto.
O
nome da rosa.
Trad. Aurora Fornoni
Bernardini e Homero
Freitas de Andrade.
Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 2006.
FRIEIRO, Eduardo.
O diabo na
livraria do cônego.
In: _____. O diabo
na livraria do
cônego: como era
Gonzaga? e outros temas
mineiros. São Paulo:
Itatiaia; Ed. da
Universidade de São
Paulo, 1981. p.
13-‐‑
62.
LIVRARIA. In:
DICIONÁRIO Michaelis. Disponível
em: <www.uol.com.br/michaelis>. Acesso
em: 04 abr.
2011.
QUEIROZ, Maria
José de. 1789-‐‑1790.
In: _____. Como me
contaram: fábulas historiais.
Belo Horizonte: Imprensa
Publicações, 1973. p.
70-‐‑73.
SAGAN, Carl.
O mundo assombrado
pelos demônios. In:
_____. O mundo assombrado
pelos demônios. Trad.
Rosaura Eichemberg. São
Paulo: Companhia das
Letras, 2006. p.
121-‐‑140.
VILLALTA, Luiz
Carlos. O diabo
na livraria dos
inconfidentes. In: NOVAES,
Adauto (Org.) Tempo e
história. São Paulo:
Secretaria Municipal da
Cultura, 1992. p.
367-‐‑395.
VILLENEUVE, Roland.
Satã. In: BRUNEL,
Pierre (Org.) Dicionário de
mitos literários. Trad.
Carlos
Sussekind. Rio
de Janeiro: Jose
Olympio, 2000. p.
813-‐‑825.
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