O diabo na livraria do cônego eduardo frieiro


Um  monstro  nas  minas  ilustradas:  O  diabo  na  livraria  do  cônego 
A  Monster  in  the  Enlightened  Minas:  O  diabo  na  livraria  do  cônego 
 
Késia  Rodrigues  de  Oliveira* 
 
Resumo:  A  figura  mitológica  do  diabo  é  elemento  recorrente  tanto  no  imaginário  popular  quanto  em  personagens  da  literatura  ocidental  sendo  atribuída  a  ele  a  representação  da  maldade.  Entretanto,  é  no  período  colonial  mineiro  que  tal  figura  aparecerá,  para  além  da  conjuntura  religiosa,  simbolizando  na  forma  de  livros,  as  ideias  iluministas  franceses.  Este  artigo  pretende  a  partir  de  uma  leitura  crítica  do  ensaio  "ʺO  diabo  na  livraria  do  cônego"ʺ,  de  Eduardo  Frieiro,  e  do  conto  "ʺ1789-­‐‑1790"ʺ,  de  Maria  José  de  Queiroz,   analisar,   sob   o   contexto   histórico   da   Inconfidência   Mineira,   as   referências   aos   livros   e   ao  diabo,  alegoria  das  ideias  libertárias,  e  sua  relação  com  o  espaço  da  biblioteca. 
 
Palavras-­‐‑chave:  Diabo.  Biblioteca.  Minas  Gerais. 
 
Abstract:  Devil'ʹs   mythological   figure   is   a   recurring   element   in   folklore   as   well   as   its   portrayal   in  Western  literature,  in  which  it  represents  evil.  However,  over  Minas  Gerais'ʹ  colonial  period  the  devil  started  to  be  perceived  as  a  symbol,  in  the  form  of  books,  of  the  French  Enlightenment  ideals,  beyond  its   religious   context.   This   paper   aims   to   analyze,   under   the   scope   of   the   Inconfidência   Mineira     Brazilian  independence  movement  and  through  the  critical  reading  of  the  essay  "ʺO  diabo  na  livraria  do   cônego"ʺ,  by   Edward   Frieiro,   and   the   short   story   "ʺ1789-­‐‑1790"ʺ,   by   Maria   José   de   Queiroz,   the  references   to   books   and   to   the   devil,   as   an   allegory   to   the   libertarian   ideology,   as   well   as   their  relationship  with  the  library'ʹs  space. 
 
Keywords:  Devil.  Library.  Minas  Gerais. 
 
Uma  biblioteca  é  como  um  grande  gabinete  mágico  que  está  cheio  de  espíritos  que  dormem  nos  livros.   
 
Emerson 
 
O  diabo  é  personagem  recorrente  no  imaginário  popular,  em  contos  e  lendas,  bem  como  na  literatura,  sendo  atribuída  a  ele  a  representação  essencial  da  maldade.  Entretanto,  é  no  período  colonial  mineiro  que   sua   representação   aparecerá,   para   além   da   conjuntura   religiosa,   simbolizando   os   ideais  iluministas  franceses,  na  forma  de  livros. 
 
Este   artigo   pretende,   a   partir   de   uma   leitura   crítica   do   ensaio   "ʺO   diabo   na   livraria   do   cônego"ʺ,   de  Eduardo  Frieiro,  e  do  conto  "ʺ1789-­‐‑1790"ʺ,  de  Maria  José  de  Queiroz,  analisar,  sob  o  contexto  histórico  da   Inconfidência   Mineira,   as   referências   aos   livros   e   ao   diabo,   alegoria   das   ideias   libertárias,   e   sua  relação  com  o  espaço  da  biblioteca. 
 
Num   misto   de   ficção   e   história,   a   fábula   "ʺ1789-­‐‑1790"ʺ,   integrante   do   livro  Como  me  contaram:   fábulas  historiais,   de   Maria   José   de   Queiroz,   relata   a   história   do   erudito   cônego   da      de   Mariana,   Minas  Gerais,   Luís   Vieira   da   Silva,   considerado   a   pessoa   mais   instruída   do   Brasil   em   fins   do   século   17,   e  também   dono   de   uma   monumental   biblioteca   particular.   Preso,   aos   54   anos   de   idade,   acusado   de  liderar  um  movimento  de  conspiração  republicana  mineira,  seus  livros,  ou  melhor,  um  único  livro,  como  se  verá  adiante,  foi  considerado  prova  de  seu  envolvimento  na  insurreição  mineira. 
 
Sua  livraria1  vista  como  símbolo  de  revolta  contra  a  metrópole,  juntamente  com  todos  os  seus  bens,  foi  confiscada  pelas  autoridades  e  relatada  nos  Autos  da  Devassa.  No  ensaio  intitulado  "ʺO  diabo  na  livraria  do  cônego"ʺ,  Frieiro  analisa  esse  confisco  e  trata  dos  livros  proibidos  que  os  inconfidentes  guardavam  em  suas  casas. 
 
O   cônego   possuía   em   sua   residência   mais   de   setecentos   volumes,   com   cerca   de   270   títulos,  constituindo,  desse  modo,  uma  biblioteca  notável  para  aquele  tempo  e  lugar,  superior  às  bibliotecas  particulares  da  Europa.  A  biblioteca  de  Kant  e  Spinoza,  por  exemplo,  contavam,  respectivamente,  com  cerca  de  300  e  160  obras.  A  biblioteca  do  cônego  Vieira,  segundo  o  historiador  Luiz  Carlos  Villalta,  era  "ʺquiçá  uma  das  maiores  do  período  colonial"ʺ.2 
 
A   lista   dos   livros   demonstra   que   o   cônego   era   um   espírito   altamente   cultivado   e   receptivo,   uma  inteligência  aberta  aos  mais  variados  campos  do  saber.  Dentre  os  livros  encontrados  em  sua  biblioteca  havia   dicionários,   textos   de   oratória,   teoria   estética,   arte,   volumes   da   Enciclopédia   de   Diderot   e  d'ʹAlembert,  os  clássicos  gregos  e  latinos.  Vieira  era  "ʺcurioso  de  tudo,  e  de  tudo  havia  um  pouco  entre  seus  livros,  que  ele  teria  adquirido  sabe  Deus  com  que  dificuldades"ʺ.  3 
 
Ressalta-­‐‑se   que,   dos   oitocentos   volumes   sequestrados,   mais   da   metade   eram   em   latim,   cerca   de  noventa  em  francês,  pouco  mais  de  trinta  em  português,  seis  em  italiano,  alguns  em  espanhol,  além  de  vinte  e  quatro  livros  ingleses  que  figuram  na  relação  sem  indicação  de  títulos  e  autores.    No  geral,  "ʺo  melhor   da   livraria   de   Luís   Vieira   da   Silva   não   estava   na   quantidade,   mas   na   qualidade   das   obras  reunidas"ʺ,4  eram  obras  de  formação,  informação,  recreio,  agitação  e  propaganda  de  novas  ideias. 
 
É   importante   destacar,   ainda,   que   pouco   se   sabe   sobre   a   vida   do   clérigo   e   sua   história   pode   ser  explicada  a  partir  da  citação  do  escritor  e  bibliófilo  francês  Jules  Janin:  "ʺMuitos  homens  não  deixaram  outra  oração  fúnebre  senão  o  catálogo  de  sua  biblioteca"ʺ.5  A  vida  pessoal  de  Vieira  parece  não  ter  tido  nenhum  episódio  especial  no  período  colonial  mineiro,  entretanto,  seu  acervo  e  o  que  se  deu  com  ele  é  um  importante  registro  histórico  tanto  da  ação  inquisitória  portuguesa  na  América  como  da  aversão  aos  livros  nas  Minas  Gerais. 
 
Embora  o  clérigo  tenha  sido  acusado  de  revoltoso,  de  tramar  uma  conspiração  contra  a  metrópole,  em  sua  residência  não  foram  encontradas  nenhuma  arma  ou  equipamentos  de  artilharia,  apenas  livros.  Sua  culpa,  segundo  consta,  limitou-­‐‑se  a  terem  encontrado  em  sua  biblioteca,  como  prova  inconteste,  um  "ʺlivrinho  francês"ʺ,  relativo  à  Revolução  Francesa. 
 
O   crime   do   cônego,   ao   que   parece,   limita-­‐‑se   a   posse   de   um   gigantesco,   diverso   e   supostamente  incendiário   acervo   de   livros   que   poderiam,   supostamente,   contestar   alguns   dogmas   da   Igreja   e,  consequentemente,  difundirem  uma  rebelião  na  colônia.  Se,  de  certa  forma,  saber  é  poder,  e  que  os  livros  são  possibilidade  de  sabedoria,  o  delito  do  clérigo  configurou-­‐‑se,  assim,  na  verdade,  como  um  índice  de  ameaça  ao  poder  absoluto  da  Igreja  e  do  Estado  na  época. 
 
Embora   seu   envolvimento   com   a   Inconfidência   não   tenha   sido,   de   fato,   provado,   acredita-­‐‑se   que   o  cônego  possuía  certa  responsabilidade  intelectual  e  que  idealizava  o  fim  das  condições  que  a  colônia  era   submetida,   pois,   uma   vez   que   o   clérigo   era   "ʺilustrado,   nutrido   de   boa   ciência,   bem   informado,  muito   natural   que   Voltaire,   grande   agitador   de   ideias,   e   o   abade   Mably,   utopista,   lhe   ensinassem  política  e  rebeldia"ʺ,  afirma  Maria  José  de  Queiroz.  6 
  
A  livraria  do  clérigo,  conforme  avalia  Frieiro,  era  frequentada  pelo  diabo,  metáfora  dos  ares  libertários  oriundos  do  Iluminismo  francês.  Segundo  ele,  o  diabo  dentro  da  biblioteca  insinuava-­‐‑se  "ʺsob  o  melhor  disfarce,  a  letra  da  imprensa,  para  perturbar  e  perder  o  bom  clérigo."ʺ7  A  atribuição  da  liberdade  ao  diabo  e  do  mal  presente  no  imaginário  dos  mineiros  aos  livros,  transformou  o  cenário  da  biblioteca  em  um   "ʺambiente   infernal"ʺ,   disseminador,   portanto,   de   ideias   iluministas.   De   acordo   com   Frieiro,   na  coleção  de  livros  do  cônego  "ʺhavia  livros  perigosos  e  incendiários.  O  espírito  da  Revolta    o  espírito  de  Satã    penetrara  nela,  cavilosamente  escondido  nas  obras  dos  escritores  e  filósofos."ʺ8 
Ora  censurada  pela  ação  da  Igreja  Católica,  ora  preservada  em  esconderijos,  em  mosteiros,  do  mito  a  realidade,  o  espaço  da  biblioteca  constituiu-­‐‑se,  nesse  contexto,  como  um  ambiente  circunscrito  pelo  medo  e  pelo  enigma. 
 
Configurado   na   Alta   Idade   Média,   como   um   espaço   perigoso,   o   acesso   à   biblioteca   sempre   fora  restrito.  A  própria  reprodução  dos  livros  era  feita  apenas  pelos  monges  copistas  e,  posteriormente,  a  leitura  deles,  era  igualmente  restrita  a  uma  pequena  parcela  da  população. 
 
Por   conterem   assuntos   que   poderiam   estimular   pensamentos   reflexivos   e   contestadores   do   saber  oficial  da  Igreja  Católica,  o  livro  foi,  de  certa  forma,  diabolizado  pelo  domínio  eclesiástico.  O  poder,  encanto   e   sedução,   produzidos   por   tal   objeto,   levaram   a   Igreja   a   tomar   severas   atitudes.   No  romance,  O  nome  da  Rosa,  de  Umberto  Eco,  a  fim  de  se  proibir  a  leitura,  envenenam  as  páginas  dos  livros.9 
 
Na  tentativa  de  ocultar  o  saber,  aos  olhos  da  Igreja  um  saber  pagão  merecedor  de  punição,  o  acesso  à  biblioteca  tornou-­‐‑se  limitado  e  esse  espaço  se  converteu  num  lugar  de  abrigo  para  os  mais  diversos  demônios   e   espíritos   incendiários   adormecidos,   prontos   a   ser   despertados   ao   virar   das   páginas     talvez  daí  o  apelo  ao  uso  do  veneno  nas  folhas. 
 
O   diabo   surge,   assim,   enquanto   símbolo   do   saber,   isto   é,   da   ameaça   do   saber   representado   pelas  bibliotecas,  pois  a  informação  restringida  a  poucos  contribui  de  certa  forma,  para  a  manutenção  da  dominação.  Pois,  conforme  dito  anteriormente,  nessa  perspectiva,  saber  é  sinônimo  de  poder. 
 
A   construção   humana   da   figura   do   diabo   teve   distintos   momentos   na   História.   Sendo   que   para   o  escritor   russo   Máximo   Gorki   o   diabo   é,   na   verdade,   "ʺuma   invenção   maligna   dos   homens   para  justificarem   suas   torpezas"ʺ.10  A   existência   do   diabo,   desse   modo,   atrelar-­‐‑se-­‐‑ia   a   uma   justificativa  filosófica  para  explicar  a  presença  do  mal  na  sociedade. 
 
Descrito  na  tradição  cristã  como  o  anjo  rebelde  blasfemador  que  se  revoltou  contra  Deus,  o  diabo  na  perspectiva   religiosa   é   a   própria   personificação   do   mal   e   da   revolta.   Na   Bíblia,   ele   pode   ser   visto  também   como   um   símbolo   do   conhecimento   e   da   liberdade,   uma   vez   que   sob   a   forma   de   uma  serpente,   o   diabo   tenta   o   homem   a   comer   o   fruto   proibido   com   o   argumento   da   obtenção   do  discernimento:  "ʺvossos  olhos  se  abrirão  e  vós  sereis  como  deuses,  versados  no  conhecimento  no  bem  e  no  mal"ʺ.  11 
 
Por  outro  lado,  na  literatura,  ele  aparece  como  um  personagem  mítico  "ʺsob  inúmeras  facetas  e  com  um  estoque  de  surpresas  sempre  renovado"ʺ  12.  Por  Dante  Alighieri,  por  exemplo,  o  diabo  é  retratado  como  um  gigante  tricéfalo  com  seis  imensas  asas,    para  Charles  Baudelaire  "ʺo  tipo  mais  perfeito  de  beleza  viril  é  o  de  Satã"ʺ.13  Ressalta-­‐‑se  que  no  campo  literário,  o  diabo  também  será  retrato  como  índice  de  criatividade,   de   liberdade   de   criação,   visto   que   a   tarefa   de   criar   é   uma   "ʺoperação   satânica   por  excelência"ʺ.14 
 
Assim,   esse   imaginário   diabólico   migrou   para   os   livros   devido   à   situação   repressiva   que   a   colônia  vivenciava,  em  que  os  livros  simbolizavam  um  conhecimento  que  vem  de  fora  e  que,  posteriormente,  trariam  uma  autonomia  de  pensamento  para  a  colônia  em  relação  à  metrópole. 
 
Desse   modo,   o   diabo   apresenta-­‐‑se   como   uma   figura   ambivalente,   pois   se   representa   "ʺo   mal"ʺ   pelo  discurso  religioso,  representa  também  "ʺo  libertador"ʺ    isto  é,  a  liberdade  do  pensar  e  do  agir    para  os  oprimidos   da   colônia.   Assim,   o   diabólico   criado   pela   Igreja   pode   ser   visto   como   um   temor   à  disseminação  da  liberdade  do  pensamento  e  da  criação.  Logo,  a  resistência  aos  livros  realizada  pela 
Inquisição   foi,   na   verdade,   o   medo   de   uma   possível   insubordinação   aos   dogmas   defendidos   pela 
Igreja. 
 
A  posse  de  livros,  metonímia  do  conhecimento,  durante  a  Inconfidência  Mineira,  sobretudo  daqueles  considerados   "ʺsubversivos"ʺ,      vale   lembrar   que   nesse   período   havia   a   censura   literária   por   meio  do  Index  Librorum  Prohibitorum,  isto  é,  a  lista  dos  livros  proibidos  pela  Inquisição    tornou-­‐‑se  indicação  de  inteligência,  humanismo,  e,  principalmente,  índice  de  escape  ao  poder  opressor.  Eram  proibidos,  por  exemplo,  qualquer  livro  contrário  à  religião,  à  moral,  à  cultura  e  à  ordem  política. 
 
Embora  estritamente  fiscalizada  pela  Igreja,  conforme  afirma  Villalta  "ʺem  Minas  Gerais,  temos  indícios  de   que   havia   tentativas   de   fiscalização,   mas   elas   parecem   ineficazes"ʺ,15  pois,   além   do   registro   de  diversas   bibliotecas   particulares      pequenas   se   pensarmos   ao   número   de   letrados   na   colônia  portuguesa,   mas   significativa   a   ponto   de   fomentar   ideias   de   emancipação   política   contra   os  portugueses    registra-­‐‑se,  também,  a  presença  de  livros  proibidos  entre  figuras  mineiras  importantes,  como,  por  exemplo,  o  próprio  governador  das  Minas  na  época  da  Inconfidência. 
 
A   demonização   por   parte   das   autoridades   eclesiásticas   do   que   se   tem   como   ameaça   foi   muito  recorrente  na  história  da  colônia  da  América  portuguesa.  Por  manutenção  do  Estado  do  rito  católico,  por  exemplo,  demonizou-­‐‑se,  a  figura  do  índio,  juntamente  com  todas  as  suas  práticas  culturais.  E  essa  mesma  intolerância,  por  parte  da  Igreja  e  do  Estado,  transportou-­‐‑se  para  os  livros,  proibindo-­‐‑os  na  colônia: 
 
Se   o   imaginário   mineiro   colonial   demonizava   a   sedição,   a   Natureza   (a  miséria   do   homem   e   a   Natureza   como   se   concebia   no   século   XVIII),   a  maledicência,   o   calundu   e   os   libertinos,   estas   ideias,   ações   e   personagens  caso  se  fizessem  presentes  nos  livros,  tornavam-­‐‑nos  proibidos.16 
 
Villalta   aponta,   em   seu   estudo,   para   a   hipótese   de   que   as   bibliotecas   dos   inconfidentes   teriam  induzido,   de   certa   forma,   a   comportamentos   que   poderiam   ser   considerados   como   diabólicos.  Segundo   o   historiador,   na   biblioteca   de   Vieira   "ʺLúcifer   tinha   o   seu   império"ʺ17  e   Frieiro   destaca   a  presença   do   "ʺdoutor   herético"ʺ   circulante   nos   volumes   da   livraria   do   cônego   que   efetivamente   o  perdeu.   
 
Desse   modo,   o   livro   além   de   representar   a   liberdade   é   igualmente   um   objeto   desestabilizador   da  ordem,  capaz  de  desencaminhar  e  "ʺperverter"ʺ  seus  leitores,  ou  seja,  a  colônia.  Ainda  segundo  Frieiro,  a  própria  função  dos  ditos  bons  livros  seria  envolver  e  alterar  os  leitores:  "ʺO  destino  dos  bons  livros  é  esse:   o   de   encantar   e   perturbar,   excitando   magicamente   a   fantasia,   o   de   fecundar   e   estimular   a  faculdade  criadora  do  espírito,  irmanando  o  sonho  com  a  ação."ʺ  18 
 
É  essa  perversão  /  alteração  nos  indivíduos  construída,  nesse  contexto,  por  meio  da  leitura  de  obras  estrangeiras,   e   a   incorporação   /   aplicação   das   novas   ideias   neles   contidas   é   que   também   conferiu   a  ideia  de  monstruosidade  aos  livros  e  consequentemente,  ao  espaço  da  biblioteca,  no  período  mineiro  colonial. 
 
A   posse   dos   livros   simbolizava   um   índice   de   ameaça   e   subversão   aos   olhos   da   Igreja.   O   acesso   às  bibliotecas,  restrito  aos  letrados  no  Brasil  colonial,  era  sujeito,  desse  modo,  a  ações  inquisitórias.  Sendo  a  representação  dos  livros  aproximada  ao  diabo,  enquanto  metáfora  dos  ares  libertários  aspirados  pela  colônia,  como  um  monstro,  pela  sua  capacidade  de  deturpação.  Embora  o  século  18  seja  marcado  pela  inclinação  à  observação  empírica  do  mundo  e  pela  busca  pelo  conhecimento,  qualquer  ideia  ou  mesmo  hábito  tido  por  diferente  ou  perturbador  pelos  colonizadores  eram  alvo  de  demonização,  censura  e  perseguição.  Qualquer  livro  francês,  por  exemplo,  era  proibido  na  colônia  por  poder  propagar  o  espírito  revolucionário  da  Europa  vigente  na  época. 
 
No   início   do   Século   das   Luzes,   essa   diabolização   ou   monstrificação   de   certas   obras   agravou-­‐‑se,  principalmente  por  se  tratar  de  uma  época  de  transição  entre  o  pensamento  medieval  e  o  racionalismo  difundido  pelo  Iluminismo  francês. 
 
O   período   histórico,   portanto,   é   um   momento   de   dominação   e   expansão   do   catolicismo   que   atuou,  muitas   vezes   de   forma   violenta,   sobre   qualquer   ideia   que   divergisse   da   corrente   tradicional   cristã.  Desse  modo,  era  tido  como  um  crime  de  heresia  tudo  o  que  não  correspondesse  às  normas  prescritas  pela  Igreja. 
 
Se,  somente  por  serem  em  língua  francesa,  algumas  obras  eram  demonizadas,  um  simples  empenho  do   estudo   delas   tornou-­‐‑se   alvo   de   condenação   pelas   autoridades   eclesiásticas.   Conforme   afirma  Queiroz:   "ʺque   sílabas   latinas   em   terras   incultas   e   que   a   aplicação   aos   estudos   apenasmente   amor  desinteressado   à   ciência   e   ao   saber   parecia   coisa   absurda   aos   olhos   e   ouvidos   dos   promotores   da  Devassa  da  Inconfidência  Mineira"ʺ.19 
 
Em  uma  terra  de  poucos  letrados,  o  conhecimento  trazido  de  fora  se  apresentou  como  um  instrumento  de  ruptura  da  tradição  medieval,  uma  vez  que  a  inovação  das  ideias  defendidas  pela  Ilustração  levaria  não      a   liberdade   de   pensamento   como   também   derrubaria   os   diversos   mitos   e   pilares   da   ciência  medieval,  logo,  diminuiria  também  o  controle  da  Igreja,  nessa  área,  sobre  a  população.     
 
O  imaginário  de  demonização  /  monstruosidade  impregnou-­‐‑se  nos  livros  pelo  medo  de  que  a  leitura  deles   pudesse   causar   transformações   nos   indivíduos,   que   uma   vez   "ʺesclarecidos"ʺ      poderiam,   por  exemplo,  não  aceitar  certas  regras  ou  estatutos  preestabelecidos  e  pré-­‐‑aprovados.  Os  livros  convertem-­‐se,   desse   modo,   em   monstros   pelo   poder   instituído   que   recobre   sua   referência   ao   medo   do  desconhecido. 
 
Segundo   Jeffrey   Cohen,   "ʺo   monstruoso   oferece   uma   fuga   de   seu   hermético   caminho,   um   convite   a  explorar   novos   espirais,   novos   e   interconectados   métodos   de   perceber   o   mundo"ʺ.20  Na   concepção  católica  vigente  da  época,  as  ideias  libertárias  podem  ser  vistas  como  um  monstro,  como  aquilo  que  visa  a  desestabilização  do  sistema,  desdobrando  suas  reverberações  em  crime  e  pecado. 
 
A  metáfora  do  monstro  é,  na  verdade,  o  perigo  do  conhecimento,  da  autonomia  de  pensamento,  da  possibilidade   da   instauração   de   um   inconformismo   que   uma   vez   despontado   não   se   curva   à  subordinação. 
 
Para  Cohen,  "ʺo  monstrum  é  etimologicamente,  'ʹaquele  que  revela'ʹ,  'ʹaquele  que  adverte'ʹ"ʺ,  tal  definição  pode   nos   servir   para   ilustrar   a   concepção   dos   livros   na   Inconfidência   Mineira,   visto   que   estes,  juntamente   com   o   espaço   da   biblioteca,   de   certa   forma,   revelam   o   saber,   o   conhecimento.   A   saber,  etimologicamente,  "ʺdemônio  significa  'ʹconhecimento'ʹ,  em  grego"ʺ.21 
 
Os  livros  sob  o  contexto  da  Inconfidência  Mineira  parecem  corroborar  a  última  tese  sobre  os  monstros  de  Cohen,  pois  eles: 
  trazem  não  apenas  um  conhecimento  mais  pleno  do  nosso  lugar  na  história  e  na   história   do   conhecimento   de   nosso   lugar,   mas   eles   carregam   um  autoconhecimento,  um  conhecimento  humano    e  um  discurso  ainda  mais  sagrado  na  medida  em  que  ele  surge  de  Fora.  Esses  monstros  nos  perguntam  como           percebemos        o             mundo                 e             nos               interpelam          sobre     como     temos  representado  mal  aquilo  que  tentamos  situar.22 
 
De   volta   à   livraria   do   cônego,   após   seu   confisco   pela   Devassa   não   se   tem   registros   e/ou   precisas  informações  sobre  o  seu  destino.  Se  o  cônego  esteve  de  fato  envolvido  em  uma  conspiração  contra  a  metrópole  não  se  sabe.  Fato  é  que  antes  de  ser  um  inconfidente,  Luís  Vieira  da  Silva  era  um  ávido  leitor.  Embora  seus  livros  tenham  sido  sequestrados,  as  ideias  que  eles  difundiam  permaneceram.  As  novas  ideias,  o  espírito  da  liberdade  continuou  circulando  pelos  ares  da  colônia,  pois  o  monstro  uma  vez  libertado  nunca  retorna  ao  cativeiro. 
 
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*Késia   Rodrigues   de   Oliveira  é  graduanda   em   Letras   na   Faculdade   de   Letras   da   UFMG   e  pesquisadora  de  Iniciação  Científica  (CNPq)  do  Núcleo  de  Estudos  Judaicos  da  UFMG. 
 
Notas 
 
1    Segundo  o  dicionário  Michaelis,  “livraria”  é,  no  período,  sinônimo  de  “biblioteca”. 
2    VILLALTA,  Luiz  Carlos.  O  diabo  na  livraria  dos  inconfidentes.  In:  NOVAES,  Adauto  (Org.)  Tempo  e  história.  São  Paulo:  Secretaria  Municipal  da  Cultura,  1992,  p.  373. 
3    FRIEIRO,  Eduardo.  O  diabo  na  livraria  do  cônego.  In:  _____.    O  diabo  na  livraria  do  cônego:  como  era  Gonzaga?  e  outros  temas  mineiros.  São  Paulo:  Itatiaia;  Ed.  da  Universidade  de  São  Paulo,  1981,  p.  37. 
4    FRIEIRO,  1981,  p.  24. 
5    FRIEIRO,  1981,  p.  53. 
6    QUEIROZ,  Maria  José  de.  1789-­‐‑1790.  In:  _____.  Como  me  contaram:  fábulas  historiais.  Belo  Horizonte:  Imprensa  Publicações,  1973,  p.  72. 
7    FRIEIRO,  1981,  p.  22. 
8    FRIEIRO,  1981,  p.  22. 
9    ECO,  Umberto.  O  nome  da  rosa.  Trad.  Aurora  Fornoni  Bernardini  e  Homero  Freitas  de  Andrade.  Rio  de  Janeiro:  Nova  Fronteira,  2006,  p.  549. 
10  VILLENEUVE,   Roland.   Satã.   In:   BRUNEL,   Pierre   (Org.).  Dicionário   de   mitos   literários.  Trad.   Carlos  Sussekind.  Rio  de  Janeiro:  Jose  Olympio,  2000,  p.  814. 
11  Gn  3:5. 
12  VILLENEUVE,  2000,  p.  814. 
13  VILLENEUVE,  2000,  p.  814. 
14  VILLENEUVE,  2000,  p.  819. 
15  VILLALTA,  1992,  p.  372. 
16  VILLALTA,  1992,  p.  370. 
17  VILLALTA,  1992,  p.  377. 
18  FRIEIRO,  1981,  p.  23. 
19  QUEIROZ,  1973,  p.  71. 
20  COHEN,  Jeffrey  Jerome.  A  cultura  dos  monstros:  sete  teses.  In:  SILVA,  Tomaz  Tadeu  da.  Pedagogia  dos  monstros:  os  prazeres  e  os  perigos  da  confusão  de  fronteiras.  Trad.  Tomaz  Tadeu  da  Silva.  Belo  Horizonte:  Autêntica,  2000,  p.  31. 
21  SAGAN,  Carl.  O  mundo  assombrado  pelos  demônios.  In:  _____.  O  mundo  assombrado  pelos  demônios.  Trad.  Rosaura  Eichemberg.  São  Paulo:  Companhia  das  Letras,  2006,  p.  123. 
22  COHEN,  2000,  p.  54. 
 
Referências  BÍBLIA  DE  JERUSALÉM.  Nova  edição,  revista  e  ampliada.  Trad.  Euclides  Martins  et  alii.  São  Paulo: 
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COHEN,  Jeffrey  Jerome.  A  cultura  dos  monstros:  sete  teses.  In:  SILVA,  Tomaz  Tadeu  da.  Pedagogia  dos  monstros:  os   prazeres   e   os   perigos   da   confusão   de   fronteiras.   Trad.   Tomaz   Tadeu   da   Silva.   Belo  Horizonte:  Autêntica,  2000,  p.  23-­‐‑60. 
DELUMEAU,   Jean.  História   do   medo   no   Ocidente,   1300-­‐‑1800:   uma   cidade   sitiada.   Trad.   Maria   Lucia  Machado.  São  Paulo:  Companhia  das  Letras,  1990. 
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FRIEIRO,  Eduardo.  O  diabo  na  livraria  do  cônego.  In:  _____.    O  diabo  na  livraria  do  cônego:  como  era 
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LIVRARIA.  In:  DICIONÁRIO  Michaelis.  Disponível  em:  <www.uol.com.br/michaelis>.  Acesso  em:  04  abr.  2011.   
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SAGAN,  Carl.  O  mundo  assombrado  pelos  demônios.  In:  _____.  O  mundo  assombrado  pelos  demônios.  Trad.  Rosaura  Eichemberg.  São  Paulo:  Companhia  das  Letras,  2006.  p.  121-­‐‑140. 
VILLALTA,  Luiz  Carlos.  O  diabo  na  livraria  dos  inconfidentes.  In:  NOVAES,  Adauto  (Org.)  Tempo  e  história.  São  Paulo:  Secretaria  Municipal  da  Cultura,  1992.  p.  367-­‐‑395. 
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