Oração a Antônio Ferreira Xavier
Oração a Antônio Ferreira Xavier
(Durante a inuaguração do Salão Comunitário Totonho Xavier)
Senhor Prefeito, Reverendíssimo Senhor.Bispo, Senhores Secretários Estaduais e da Prefeitura de Ouro Preto, Senhor Presidente da Associação Comunitária de Glaura, demais autoridades, Minha Família, Senhoras e Senhores,
Sob a terra onde nascemos e vivemos vão se acumulando cada vez mais os restos do que somos, o que fomos. Um ou outro lampejo persiste em nossas memórias, cintilam fugidiamente em nossos sonhos. Mas, aos poucos, tudo vai sendo soterrado na escuridão, nós também, e também nossas lembranças. É preciso alumiar os caminhos de nossa memória.
Lutamos por conservar vestígios do passado. Um nome, uma data, um lugar. O que perdemos nos prende à terra, cada vez mais, pois ela, nossa origem, é destino do nosso corpo. Nossos mortos nela repousam para sempre. Nossos mortos são nossas raízes. Penetrando sob a terra, dela já não se distinguem, formam uma só substância. Tocarmos o chão da velha fazenda é como tacá-los, tocar-lhes os corpos desfeitos pelo tempo. É como se eles estivessem presentes, assim reagem nossos corações! Pois um sopro parece permanecer – um sentimento de eterno amor, um respeito muito íntimo e profundo, um pacto? Talvez!Nós os tocamos também com nossas almas, concedendo-lhes todas as homenagens e deferências devidas às criaturas mais frágeis, mais nobres, mais mágicas.
Este elo com o passado é a base sobre a qual se firmam as velhas tradicionais estirpes como a de nossa família ouro-pretana.
O velho Francisco Xavier Cardoso, nosso bisavô, tinha nome de um mártir cristão e era aparentado com outro que morreu pela Liberdade, que também pisou as terras da Fazenda das Bandeirinhas.Era o pai de Francisco Ferreira Xavier a quem legou as terras das Bandeirinhas, o qual, por sua vez, as legaria ao último de seus filhos, Antônio, nascido um ano antes da chegada do século XX. Eles, nossos tios, eram: Fifina, Loló, América, Maria, Dudu, Dedé, Josina, Cacau, Chiquinho, Horácio, Cônego Geraldino Xavier, (que estudou no Caraça e ordenou-se padre no Seminário de Mariana), Quincas, Didina, e meu pai Antônio. A ternura e familiaridade mudaram-lhe o nome de Antônio para Totonho, Totonho Xavier.
Na vetusta Fazenda das Bandeirinhas ele residiu e viu desfilar sua vida: a perda do pai, quando tinha dois anos; aos vinte anos o término do curso de Agrônoma, no Colégio D.Bosco de Cachoeira do Campo, cumprido graças a uma bolsa de estudos concedida pelo Padre Diretor, por ter sido seu pai, Francisco, um dos fundadores do Colégio; o casamento, aos vinte e nove anos, com uma jovem de treze anos, nascida no vizinho distrito de Amarantina; - Laura de Jesus Ribeiro, filha do dentista ambulante Antônio Cirilo Ribeiro e de Dona Altina de Jesus Pessoa Ribeiro, a convivência com o irmão padre e a mãe, que os deixou, definitivamente, no fim do inverno de 1937.
A grande família Xavier foi se distribuindo pelas terras de sua propriedade original, que se estendia pelas grotas e campos, em pequenas fazendas ou sítios nos arredores do distrito de Casa Branca. Alguns foram para localidades próximas e outros, para Belo Horizonte. Vários dos irmãos tinham vocação rural e muitos se associavam, como no caso dos pastos das terras altas da localidade chamada de “Lavrinhas”, entre Ouro Preto e Ouro Branco, os quais eram usados em condomínio por toda a família Xavier, desde os tempos antigos, mantendo-se este costume até a década de 1950, quando esta área e o hábito foram sendo abandonados. A própria sede da velha Fazenda foi vendida para a Usina que mantinha a mineração e fabricação do ferro na região.
Com a partilha dos bens, a sede da velha fazenda situada entre Cachoeira do Campo e Casa Branca coubera a Totonho e essa propriedade foi trocada, mais tarde, por uma parcela da fazenda original, onde passou a viver, na recém constituída “Fazenda Curralinho”, com sua jovem esposa. Aos 16 anos, Laura tivera sua primeira filha, Maria. Depois lhe vieram outros dezoito filhos: José, Dagmar, Odete, Geraldo, Diva, Yolanda, Dora, Ana, Antônio, Neiva, Inez, Carlos Alberto, Francisco Eduardo, Jairo, Vânia Maria, Ezilma, Estela Regina e Sandra Altina.
Totonho Xavier, prestigiado chefe político e Delegado do Distrito de Casa Branca, hoje a nossa querida Glaura, que teve seu nascimento lançado no livro número 1 de Registro Civil, conseguiu vários benefícios para sua terra natal. Foi um conselheiro muito procurado para diversos assuntos, como divisão de terras, demandas, questões de família, etc. O competente fazendeiro, mestre de muitos ofícios, agrários ou pecuários, era capaz de resolver praticamente todos os problemas comuns às atividades produtivas rurais.
Possuía muita habilidade para conciliação de interesses divergentes. Na Zona Eleitoral de Casa Branca participou de todas as campanhas, conseguindo por diversas vezes a rara façanha de promover a coligação de partidos adversários, como o PTB, a tradicional UDN e o velho PSD da década dos anos 1950. Conseguiu também, com laboriosa articulação política entre os líderes da região, Dr. José Raimundo, Dr. Teódulo Pereira, Alberto Deodato, José Aparecido de Oliveira e outros, a construção do grupo escolar que hoje tem o nome do seu sobrinho e respeitado prefeito de Ouro Preto, o médico Dr. Benedito Xavier.
Totonho permaneceu trabalhando na fazenda que construiu até o casamento da sua primeira filha em 1956, quando então resolveu mandar os filhos mais velhos viverem em Belo Horizonte, possibilitando-lhes a continuação de seus estudos, já que, até então, todos os filhos freqüentavam o curso primário em Cachoeira do Campo, onde tinha um sítio, A Marmelada, ou em Glaura, posteriormente.
Já em Belo Horizonte, para onde se mudou mais tarde com o restante da família, Totonho participou ativamente de campanhas de arrecadação de fundos para a construção da Igreja de São Pedro Apóstolo, na Floresta, merecendo, por isto, a honra de ser indicado e escolhido pelo Bispo Dom João de Rezende Costa para ser padrinho da consagração da Igreja, oportunidade em que nela entrou, solenemente, com toda sua enorme família.
Em 1968, em sua casa de belo Horizonte, confortado pela presença de todos os filhos, nora, genros e netos, ele foi chamado por Deus para seu último sono. Deixou sua esposa com quinze filhos ainda solteiros, que mais tarde se casaram, e geraram, até agora, 59 netos e 13 bisnetos. A valente dona Laura Ribeiro de Xavier, sua inseparável companheira de inúmeras lutas, sobreviveu-lhe por 25 anos. Ao deixar este mundo, uma centena de descendentes, dos quais, a maioria, Totonho não conhecera, lhe prestou merecidíssimas homenagens. A terra recebeu seu corpo, mas sua força continua viva na casa onde viveu e onde ainda se reúnem seus descendentes para comemorarem as datas festivas da família, na certeza de que a chama que animou nossos pais persiste, imorredoura no seio da grande família.
Quando nosso pai partiu, sentimo-nos como as flores da centenária Paineira do adro da Igreja Matriz de Santo Antônio, paina conduzindo uma semente para o destino desconhecido. Hoje, aqui reunidos, a família, os amigos e os conterrâneos, imensamente honrados ao ver que o Salão Comunitário, centro de congregação da comunidade Glaura, tão amada por Totonho, toma o seu nome, por uma decisão da Câmara de Vereadores de Ouro Preto.
Compreendemos, agora, que como a semente que germina e cresce, nosso Totonho Xavier revive pela força da emoção de uma ou outra lágrima que rola, assim como a chuva que traz vida e fecunda a terra.
Que minhas últimas palavras sejam de agradecimento a todas e cada uma das pessoas que contribuem para o engrandecimento da comunidade e também aprenderam gostar de Glaura, a nossa terra natal, como sua querida morada.
Senhor Prefeito, Reverendíssimo Senhor.Bispo, Senhores Secretários Estaduais e da Prefeitura de Ouro Preto, Senhor Presidente da Associação Comunitária de Glaura, demais autoridades, Minha Família, Senhoras e Senhores,
Sob a terra onde nascemos e vivemos vão se acumulando cada vez mais os restos do que somos, o que fomos. Um ou outro lampejo persiste em nossas memórias, cintilam fugidiamente em nossos sonhos. Mas, aos poucos, tudo vai sendo soterrado na escuridão, nós também, e também nossas lembranças. É preciso alumiar os caminhos de nossa memória.
Lutamos por conservar vestígios do passado. Um nome, uma data, um lugar. O que perdemos nos prende à terra, cada vez mais, pois ela, nossa origem, é destino do nosso corpo. Nossos mortos nela repousam para sempre. Nossos mortos são nossas raízes. Penetrando sob a terra, dela já não se distinguem, formam uma só substância. Tocarmos o chão da velha fazenda é como tacá-los, tocar-lhes os corpos desfeitos pelo tempo. É como se eles estivessem presentes, assim reagem nossos corações! Pois um sopro parece permanecer – um sentimento de eterno amor, um respeito muito íntimo e profundo, um pacto? Talvez!Nós os tocamos também com nossas almas, concedendo-lhes todas as homenagens e deferências devidas às criaturas mais frágeis, mais nobres, mais mágicas.
Este elo com o passado é a base sobre a qual se firmam as velhas tradicionais estirpes como a de nossa família ouro-pretana.
O velho Francisco Xavier Cardoso, nosso bisavô, tinha nome de um mártir cristão e era aparentado com outro que morreu pela Liberdade, que também pisou as terras da Fazenda das Bandeirinhas.Era o pai de Francisco Ferreira Xavier a quem legou as terras das Bandeirinhas, o qual, por sua vez, as legaria ao último de seus filhos, Antônio, nascido um ano antes da chegada do século XX. Eles, nossos tios, eram: Fifina, Loló, América, Maria, Dudu, Dedé, Josina, Cacau, Chiquinho, Horácio, Cônego Geraldino Xavier, (que estudou no Caraça e ordenou-se padre no Seminário de Mariana), Quincas, Didina, e meu pai Antônio. A ternura e familiaridade mudaram-lhe o nome de Antônio para Totonho, Totonho Xavier.
Na vetusta Fazenda das Bandeirinhas ele residiu e viu desfilar sua vida: a perda do pai, quando tinha dois anos; aos vinte anos o término do curso de Agrônoma, no Colégio D.Bosco de Cachoeira do Campo, cumprido graças a uma bolsa de estudos concedida pelo Padre Diretor, por ter sido seu pai, Francisco, um dos fundadores do Colégio; o casamento, aos vinte e nove anos, com uma jovem de treze anos, nascida no vizinho distrito de Amarantina; - Laura de Jesus Ribeiro, filha do dentista ambulante Antônio Cirilo Ribeiro e de Dona Altina de Jesus Pessoa Ribeiro, a convivência com o irmão padre e a mãe, que os deixou, definitivamente, no fim do inverno de 1937.
A grande família Xavier foi se distribuindo pelas terras de sua propriedade original, que se estendia pelas grotas e campos, em pequenas fazendas ou sítios nos arredores do distrito de Casa Branca. Alguns foram para localidades próximas e outros, para Belo Horizonte. Vários dos irmãos tinham vocação rural e muitos se associavam, como no caso dos pastos das terras altas da localidade chamada de “Lavrinhas”, entre Ouro Preto e Ouro Branco, os quais eram usados em condomínio por toda a família Xavier, desde os tempos antigos, mantendo-se este costume até a década de 1950, quando esta área e o hábito foram sendo abandonados. A própria sede da velha Fazenda foi vendida para a Usina que mantinha a mineração e fabricação do ferro na região.
Com a partilha dos bens, a sede da velha fazenda situada entre Cachoeira do Campo e Casa Branca coubera a Totonho e essa propriedade foi trocada, mais tarde, por uma parcela da fazenda original, onde passou a viver, na recém constituída “Fazenda Curralinho”, com sua jovem esposa. Aos 16 anos, Laura tivera sua primeira filha, Maria. Depois lhe vieram outros dezoito filhos: José, Dagmar, Odete, Geraldo, Diva, Yolanda, Dora, Ana, Antônio, Neiva, Inez, Carlos Alberto, Francisco Eduardo, Jairo, Vânia Maria, Ezilma, Estela Regina e Sandra Altina.
Totonho Xavier, prestigiado chefe político e Delegado do Distrito de Casa Branca, hoje a nossa querida Glaura, que teve seu nascimento lançado no livro número 1 de Registro Civil, conseguiu vários benefícios para sua terra natal. Foi um conselheiro muito procurado para diversos assuntos, como divisão de terras, demandas, questões de família, etc. O competente fazendeiro, mestre de muitos ofícios, agrários ou pecuários, era capaz de resolver praticamente todos os problemas comuns às atividades produtivas rurais.
Possuía muita habilidade para conciliação de interesses divergentes. Na Zona Eleitoral de Casa Branca participou de todas as campanhas, conseguindo por diversas vezes a rara façanha de promover a coligação de partidos adversários, como o PTB, a tradicional UDN e o velho PSD da década dos anos 1950. Conseguiu também, com laboriosa articulação política entre os líderes da região, Dr. José Raimundo, Dr. Teódulo Pereira, Alberto Deodato, José Aparecido de Oliveira e outros, a construção do grupo escolar que hoje tem o nome do seu sobrinho e respeitado prefeito de Ouro Preto, o médico Dr. Benedito Xavier.
Totonho permaneceu trabalhando na fazenda que construiu até o casamento da sua primeira filha em 1956, quando então resolveu mandar os filhos mais velhos viverem em Belo Horizonte, possibilitando-lhes a continuação de seus estudos, já que, até então, todos os filhos freqüentavam o curso primário em Cachoeira do Campo, onde tinha um sítio, A Marmelada, ou em Glaura, posteriormente.
Já em Belo Horizonte, para onde se mudou mais tarde com o restante da família, Totonho participou ativamente de campanhas de arrecadação de fundos para a construção da Igreja de São Pedro Apóstolo, na Floresta, merecendo, por isto, a honra de ser indicado e escolhido pelo Bispo Dom João de Rezende Costa para ser padrinho da consagração da Igreja, oportunidade em que nela entrou, solenemente, com toda sua enorme família.
Em 1968, em sua casa de belo Horizonte, confortado pela presença de todos os filhos, nora, genros e netos, ele foi chamado por Deus para seu último sono. Deixou sua esposa com quinze filhos ainda solteiros, que mais tarde se casaram, e geraram, até agora, 59 netos e 13 bisnetos. A valente dona Laura Ribeiro de Xavier, sua inseparável companheira de inúmeras lutas, sobreviveu-lhe por 25 anos. Ao deixar este mundo, uma centena de descendentes, dos quais, a maioria, Totonho não conhecera, lhe prestou merecidíssimas homenagens. A terra recebeu seu corpo, mas sua força continua viva na casa onde viveu e onde ainda se reúnem seus descendentes para comemorarem as datas festivas da família, na certeza de que a chama que animou nossos pais persiste, imorredoura no seio da grande família.
Quando nosso pai partiu, sentimo-nos como as flores da centenária Paineira do adro da Igreja Matriz de Santo Antônio, paina conduzindo uma semente para o destino desconhecido. Hoje, aqui reunidos, a família, os amigos e os conterrâneos, imensamente honrados ao ver que o Salão Comunitário, centro de congregação da comunidade Glaura, tão amada por Totonho, toma o seu nome, por uma decisão da Câmara de Vereadores de Ouro Preto.
Compreendemos, agora, que como a semente que germina e cresce, nosso Totonho Xavier revive pela força da emoção de uma ou outra lágrima que rola, assim como a chuva que traz vida e fecunda a terra.
Que minhas últimas palavras sejam de agradecimento a todas e cada uma das pessoas que contribuem para o engrandecimento da comunidade e também aprenderam gostar de Glaura, a nossa terra natal, como sua querida morada.
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