Acordo Ortográfico
Alguns Registros sobre o
Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa[1]
Carlos
Alberto Ribeiro De Xavier (*)
“O
primeiro projeto que Portugal teve foi o que incumbe a todos nós: o de ser”. A
frase, em sua aparente singeleza, é a mais profunda de todas quantas têm
amparado a minha luta pela criação de uma Comunidade de Países de Língua
Portuguesa. ... Pronunciou-a, com a sua poderosa carga de sabedoria, o meu
amigo, o Professor Agostinho da Silva, que morreu domingo, em Lisboa.”
Quem escreveu esse texto, em 1996, foi o Embaixador José
Aparecido de Oliveira, movido pela mesma visão sebastianista ou otimista do
mundo de Agostinho que, talvez, seja um dos principais inspiradores de todos os
que trabalharam ou ainda labutam pela união e cooperação entre os povos
lusófonos.
Quando os organizadores deste Encontro me convidaram para
participar falar sobre o Acordo Ortográfico, fiquei pensando o por que, pois
não sou um especialista na língua portuguesa. Mas é verdade que acompanho esse
assunto desde seu início. Funcionário público de carreira, há mais de trinta
anos tive a oportunidade de trabalhar no Brasil com assuntos vários relativos a cultura e a
educação, seja como Diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, ou do Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional-IPHAN, seja colaborando nos
trabalhos de gabinete para ministros como o embaixador Sergio Paulo Rouanet, o
deputado José Aparecido, o filólogo Antônio Houaiss, o professor Murílio
Hingel, ou ainda hoje com o atual Ministro da Educação do Brasil, Prof. Dr.
Fernando Haddad, e muitos outros, pois já contei 17 Ministros; quero dizer, que apesar dessa já longa
carreira, sinto-me muitíssimo aquém para as tarefas que me dão.
Portanto, ao aceitar o gentil convite de vir aqui,
fiquei a pensar o que poderia eu dizer sobre o Acordo Ortográfico, não sendo eu
professor de português, filólogo ou acadêmico, apenas um economista que se
desviou da rota de quase todos os seus colegas que normalmente cuidam de
números e cálculos, planos econômico-financeiros de governos e empresas e
passam completamente ao largo das questões educacionais e da cultura.
E justamente pensando no que dizer, lembrei-me de um
comentário feito pelo saudoso, também economista e excelente barítono que
cantava ópera em casa, o ex-Ministro Mário Henrique Simonsen, sobre o erudito
Embaixador brasileiro José Guilherme Merquior.
O
Embaixador citava muito, em um parágrafo de texto era possível encontrar
quatro, cinco ou mais citações, e creiam, não era por pedantismo. Simonsen
disse que essa era a principal originalidade de Merquior: sabia reunir
pensamentos e idéias e colocá-los de novo de tal maneira organizados que
parecia sempre uma nova idéia.
Sem o brilhantismo do Embaixador Merquior,
nem um milionésimo de sua competência, pretendo, pois, apresentar alguma coisa
do que já disseram importantes figuras da cultura lusófona como o professor
João Malaca Casteleiro, o filólogo Antônio Houaiss, o filósofo Agostinho da
Silva, o deputado e embaixador José Aparecido de Oliveira, o presidente Mário Soares, o escritor José
Saramago, o professor assoriano Onésimo Teotônio Almeida, a professora
brasileira Enilde Faulstich e outras personalidades mais ou menos conhecidas.
Não me acho em condições de acrescentar nada ao que já foi dito sobre o
Acordo Ortográfico, pois o que está posto nos documentos que foram aprovados
pelo Parlamento Português ou pelo Congresso Nacional do Brasil ou mesmo o que
saiu na imprensa escrita foi bastante para convencer nossos parlamentares das
razões que os acadêmicos deram como suficientes para justificar o acerto, o
Acordo.
Parece-me que todos esses senhores e senhoras
e mais todos nós que não nos cansamos de repetir e insistir pela importância
política do Acordo Ortográfico, estamos precisando de uma ajuda nova, não de
uma determinada e alta figura, mas do que disse o Padre Antônio Vieira, na
abertura do Sermão do Espírito Santo “Ille vos docebit omnia, quaequmque
dixero vobis – O Espírito Santo, diz Cristo, vos ensinará tudo o vos
que tenho dito” João, XIV[2].
Em outro importante texto, o Sermão de Nossa Senhora do Ó, Vieria nos diz: “Uma
das maiores excelências das Escrituras divinas é não haver nelas nem palavra,
nem sílaba, nem ainda uma letra que seja supérflua ou careça de mistério”.
Portanto, como queria Vieira estamos aqui
hoje escrevendo a história do futuro
e voltemos a Agostinho da Silva, sobre quem José Aparecido de Oliveira
escreveu: “era homem situado no futuro. Sem deixar de ser europeu, foi africano
e americano. Recordo-me do entusiasmo com que falava, nos anos 60 do século
passado, sobre a carta política do próximo século (o que hoje vivemos) com as
alterações profundas que colocariam a China e o Brasil como potências de
primeira grandeza, tendo a África como continente de passagem e apoio à nova
conduta mundial fundada na colaboração e na paz”[3]
“O primeiro projeto que Portugal teve foi o
que cumpre a todos nós: O de ser”. Em nossa vida pessoal e em nossa vida de
povos podemos fazer o futuro que for de nossa vontade e da vontade das
circunstâncias. “Tristão de Atayde ensinou que “o passado não é aquilo que
passa. É o que fica do que passou”. Vamos pois, recorrer à memória, ao conselho
e ao saber dessas pessoas. É preciso restaurar o sonho. O que decidiu com a
espada Afonso Henriques foi a existência
de um povo, e, por obra desse povo, a existência de outros povos. Ao mesmo
tempo que a espada e a cruz iam abrindo “novos mundos ao mundo” a razão e a
arte construíam a língua, sem a qual o modo de ser português não se
expandiria”.
João Malaca Casteleiro em um texto de
duas páginas de uma revista publicada em 1990 foi muito feliz em sintetizar em
quatro as razões ou motivos para a unificação ortográfica do português:
o primeiro, é de
ordem histórica, pois tendo surgido variação e consciência dela, se não se
fizer a unificação, será prejudicial à defesa da unidade essencial da língua
portuguesa; o segundo, é o
que se relaciona com a política externa do idioma, pois havendo duas
ortografias oficiais pode levantar problemas diplomáticos delicados e mesmo
insolúveis; o terceiro, é o que se prende ao ensino do português
no estrangeiro, pois é definitivamente desgastante para o intercâmbio dos
docentes e discentes que experimentam uma ou outra norma de escrita; o
quarto motivo tem que ver ainda com a defesa da unidade essencial da
língua, pois havendo (na oportunidade em que escreveu o Professor Malaca
Casteleiro) 7 países luso-falantes (hoje somos oito), a tendência para a deriva
ortográfica será sem dúvida maior, pelo que se impõe com muita premência a unificação
ortográfica. Finaliza o ilustre professor por justificar “a
unificação como medida de política lingüística de grande alcance, já que
facilitaria também a unificação da terminologia das diversas ciências e
técnicas”.[4]
A mesma defesa
da unidade essencial da língua fez o Deputado Virgílio Guimarães, relator do
Acordo Modificativo do Acordo Ortográfico, citando José Saramago no documento
aprovado no Congresso Nacional do Brasil pelo Decreto Legislativo no 120 de 12 de junho de 2002, quando escreve: “atingindo
apenas cerca de 2% da escrita, obviamente não uniformizaria ou empobreceria os
léxicos nacionais ou regionais. Ademais, o ilustre escritor portugês argumenta,
com razão, que a nova reforma seria importante para afirmação internacional do
idioma português.”[5]
Já a Professora
de português para estrangeiros, Enilde Faulstich, da UnB, disse certa vez que
“a implantação de uma língua em sociedades com culturas diferentes deve ser
gerenciada de acordo com as condições sociais, políticas e econômicas da
comunidade receptora. Essa percepção remete a um ponto de vista de autocrítica,
no sentido de creditar à formulação conjunta de um programa específico para
países distintos, a confiança de que conhecer o perfil da comunidade é, antes
de tudo, respeitar as diferenças”[6]
Para citar um
nome de indiscutível importância que é Mário Soares, busco o que disse em 1989
o ilustre Presidente, ao lançar o manifesto de criação do Instituto
Internacional da Língua Portuguesa, em São Luiz do Maranhão: “É chegada a hora de nos
reunirmos todos – povos e países que falam o português – e fazermos desse traço
de união um motivo da nossa afirmação no mundo. Pátria de muitas pátrias, como
tenho afirmado, a língua portuguesa é uma realidade viva, enriquecida pela
contribuição plural de todos os que a falam e a recriam diariamente.”[7]
Para nos
nutrirmos nas águas de um sábio, um brasileiro descendente de libaneses que se
tornou um símbolo e dedicou uma vida para construir o maior dicionário da
língua portuguesa, retiro um parágrafo do texto “Por uma política da língua” de
autoria de Antônio Houaiss:
“Uma língua de
cultura moderna é uma soma do aprendizado ágrafo mais o aprendizado gráfico. O
ágrafo – em qualquer parte da Terra – fala: não há quem não fale, no campo da
normalidade: ele internaliza entre mil a mil e quinhentas regras gramaticais, a
que obedece sem saber, e maneja entre 2.500 a 3.500 palavras (que provavelmente lhe
dão uma visão do mundo) – mas o faz sem freqüentar escolas, sem ter professores
que o corrijam, sem jamais ter sido aluno.
O literatado faz tudo o que faz o ágrafo,
com algo mais, algo, aliás, muito mais: vai à escola (organizada em rede),
aprende de professores (que constituem a mais numerosa categoria profissional
no mundo) e se faz aluno ou estudante (por um tempo básico de seis – poucos – a
oito – suficientes – anos, mais os pós e mesmo os pós-pós). Com isso, sua
eficácia produtiva aumenta espantosamente. Há quem ache que esse processo é
alienador – pois se pode fazer coisas belíssimas espontaneamente. Só que,
espontaneamente, ainda não se aprendeu a fazer química, física, biologia,
matemática, filosofia, lógica, fisiologia, botânica, zoologia, medicina e mais
quase 30 mil coisas que são necessárias ao ser humano atual”[8]
A lusofonia é caracterizada pela
tradição literatada quase milenar que se embebe numa outra tradição letrada – a
latina (que absorveu muito da grega) quase bimilenar. E graças à epopéia
descobridora lusíada abrange hoje 8 países soberanos e muitas outras
comunidades luso-falantes nos cinco continentes, todas de importante expressão
econômica, política, demográfica e de crescente tradição gráfica.
Sob qualquer que seja o ponto
de vista, trata-se, pois, de uma língua de relevância no mundo moderno,
globalizado. A primeira mundialização, como sabemos é um feito português.
Leio em duas
páginas amareladas de jornal, notícias sobre o fenômeno da globalização atual
ao mesmo tempo que fala da decadência e perda de prestígio do português no
mundo.
Em uma
delas, de novembro de 1997, o historiador brasileiro Luiz Felipe de Alencastro
enaltece o aprendizado que podemos ter
sobre a saga dos portugueses com os descobrimentos na magistral obra de
Vitorino Magalhães Godinho, aluno de Braudel, os quatro volumes de “Os
descobrimentos e a economia mundial” e destaca a primeira globalização
experimentada no séc. XVI (século que, na verdade, deveriamos começar a contar
em 1450 e só terminar em 1650). Nesse período histórico Portugal desenvolveu
uma economia global importantíssima em termos de integração de mercados e rotas
comerciais, seja com a epopéia de Vasco da Gama chegando à Índia, que tinha
pesos, medidas e dinheiro próprios e, portanto, de saída inventou-se o câmbio;
seja também com as outras grandes conquistas dos navegadores portugueses.
Com uma
visão planetária chegaram a lugares como o estreito de Ormuz e o Golfo Pérsico,
ocuparam Malaca que fica na altura de Cingapura e perto do Japão, e ainda
Macau, que fica ao lado de Hong Kong.
Macau foi
fundada na mesma época que São Paulo no Brasil, mas lá, naqueles longínquos
quadrantes do globo os portugueses não puderam entrar mais que 10 quilômetros da
costa para o interior. Em Macau apenas 3% da população fala português, mas 20%
têm nacionalidade portuguesa.[9]
Em outro recorte de jornal que guardei, este de dezembro de
1995, o grande escritor brasileiro Antônio Callado lamenta a perda de prestígio
da língua portuguesa em Moçambique comparada com o avanço da língua inglesa
naquele país lusófono.
Callado comenta,
entristecido, a infância de Fernando Pessoa na África onde formou sua
sensibilidade lusitana como filho que era do cônsul de Portugal em Durban,
antigo Porto Natal na África do Sul e diz: “Pois Pessoa, estou certo, se ainda
fosse vivo teria derramado uma lágrima com o abandono do idioma em Moçambique. Algumas
lágrimas, aliás, uma por cada heterônimo. Os versos que escreveu Pessoa
inspirados na sagas dos descobrimentos figuram entre os mais belos que nos
deixou. Fernando Pessoa é único escritor da língua portuguesa a figurar na obra
de Harold Bloom sobre a literatura ocidental, e
Pessoa perguntaria: quem ouvirá os versos que escrevi, dentro de algum
tempo, se continuarem abandonando o próprio idioma, aqueles que dentro dele
nasceram? Finalizando o artigo Callado sugere: “nós, os brasileiros e os
portugueses, sabemos perfeitamente o que deveríamos fazer para estancar essa
sangria desatada: teríamos que socorrer – isto é, dar o que comer e ensinar a
ler e escrever – aos que falam a língua portuguesa no mundo inteiro”[10]
No marcante encontro de Presidentes
de São Luiz do Maranhão em 1989, José Sarney disse: “A língua é instrumento de
unidade. Através dela podemos transmitir sentimentos, aspirações, esperanças.
Comungar valores, entender-nos, estreitar laços de afeto e de amizade. Foi
através dela que o Padre Antônio Vieira deixou marcas, no Maranhão, de sua
inteligência luminosa e pode dizer um dia: “Vós descobriste ao mundo o que ele
era, e eu vos descubro a vós o que haveis de ser. Tal é a história.”[11]
Mas voltemos a Agostinho da
Silva, em um texto escrito em Lisboa em janeiro de 1990, com o título, sempre
original “Carta o mais breve possível de umas vistas gerais”: “... o importante
é que entendamos ter o Brasil convocado em 1989 para São Luiz do Maranhão, uma
reunião presidencial para mim, soberana, de todos os Páises de Língua Oficial
Porttuguesa, como que a fim de comunicar ao mundo inteiro que não se recusa a
herança que passou de Camões a Vieira e nem se repele o encargo.”[12]
A cabeça privilegiada de
Agostinho da Silva sempre estava a pensar em todas as comunidades lusófonas,
fossem elas nações independentes ou não. Em um outro texto, “Uma folhinha de
quando em quando”[13],
o incansável Agostinho explica como foi possível propor ao recém eleito
Presidente do Brasil, Jânio Quadros, em 1960, a abertura de Embaixadas do Brasil em
África; a assinatura de um Tratato com o Senegal e a inauguração de um programa
de bolsas de estudos que existe até hoje, começando com 50 e que atualmente
chegando a milhares de estudantes africanos “para freqüentarem os cursos
superiores que escolhessem e os completassem na Bahia, no Recife, no Rio de
Janeiro ou em São Paulo ,”
para “ajudar, um dia, a que um conjunto jurídico dos países da língua comum
contribua para maior humanização do resto do mundo”. Foi, portanto, com esse
espírito de comunidade que Agostinho da Silva contribuiu, efetivamente, com a
cooperação cultural entre povos lusófonos quando os africanos de expressão
portuguesa, e muito menos o Timor Leste, ainda não tinham sequer se constituído
em nações soberanas.
Essa humanização do resto do
mundo que pregava Agostinho podemos encontrar em um texto distribuído pela internet
pelo Professor Onésimo Teotônio Almeida, Diretor do Departamento de Estudos
Portugueses e Brasileiros da Brown University, nos Estados Unidos.
Diz ele: “É tão bela aquela
frase de Vergílio Ferreira dirigindo-se a centro-europeus na Europália, que
teve lugar na Bélgica: “Da minha língua vê-se o mar”. E quem não tem ouvido ad
nauseam glosas em série à decantada frase de Bernardo Soares “A minha
pátria é a língua portuguesa”? Tem gerado ao longo dos anos uma ladainha
coletiva e eufórica de loas a esta língua de Camões e Pessoa, de Eça e de
Saramago, em côro cantada pelas sete partilhas dos países da comunidade
lusófona, a que muitos, distraidamente
quase, chamam lusíada e a que ainda há pouco, juntaram um oitavo, tão lá longe
que nem dá para se ouvir que praticamente não fala português.”[14]
Língua de várias pátrias, dela
se diz ser maleável e fraterna, com especial apetência para a comunicação, mas
além disso, também adequada à expressão de outros domínios, exatamente por ser
ainda uma língua de ciência, de técnica e de arte. Também, como o disse
Teixeira de Pascoais em A arte de ser Português, “língua de poesia e de
poetas”, capaz de estabelecer nítidas linhas de fronteira entre os discursos
racional, empírico, lógico e o literário, poético e utópico, senão
freqüentemente inexistentes...” Continuando a citar o professor Onésimo: “A
língua é um espelho, ou um reflexo do que coletivamente somos, do que o
inverso. Noutras palavras, não somos o que somos por causa da língua, e a nossa
língua não é melhor do que as outras naquilo em que não formos melhores do que
os outros. Os brasileiros desengravataram o português (como diria Vinicius de
Morais) e a língua que tinham era a nossa, barroca, dos seculos XVII e XVIII.
Fiz questão de citar o
professor açoriano que ensina português
nos Estados Unidos porque gostaria de terminar com duas imagens que me ficaram
bem nítidas na memória.
Quando fui convidado a
participar da reunião técnica, preparatória do Encontro de Ministros da
Educação dos países da CPLP, realizado em Fortaleza, em maio de 2004, tinha
acabado de assistir a uma montagem teatral, de um texto original do canadense
Robert Lepage, “Os cinco afluentes do Rio Ota”.[15]
É um espetáculo de 5 horas de
duração, que usa o teatro, cinema, mímica, música, dança, e outros meios de
expressão para contar uma história que começa em Hiroshima, antes da explosão
da bomba em 1945 e continua com os estilhaços desse evento que mudou a história
e se fizeram sentir ao longo do tempo, com diversos personagens em diferentes
cidades do mundo em 1965, 1970, 1985, 1986, 1995 e, de novo em Hiroshima, em
2000. Os cinco afluentes do rio Ota, trazem as águas das vivências dos
personagens para a mesma calha do rio Ota, levando os expectadores a se
emocionarem a cada momento.
Falei na reunião de Fortaleza
que a língua portuguesa poderia ser como as águas de um rio Ota, canalizando
para os mares as emoções, as diferenças e culturas de cada comunidade lusófona,
usando a língua portuguesa não para homogeinizar as culturas, mas, justamente o
contrário, para mostrar ao mundo como cada um de nós somos diferentes.
Disse eu em Fortaleza, e
depois mais uma vez descrevi essa imagem na Praia, durante a III Assembléia
Geral do IILP-Instituto Internacional da Língua Portuguesa, em junho de
2004, e estou repetindo agora aqui essa
mesma idéia fluida e flexível da língua como
água, que junta, recolhe, escorre, preenche e se molda sempre maleável a
cada forma que lhe damos.
Só a língua portuguesa, e não
o Caiapó, o Txucarramãe, o Guarani ou o Inanomami, ou as mais de 120 línguas
ainda faladas pelos índios do Brasil de hoje; e não as diversas línguas e
culturas nativas de Angola; e não cada uma das línguas usadas pelos povos de
Moçambique e de todas as Áfricas; só o português que circula pelo mundo, usando
a mesma norma ortográfica, será capaz de traduzir e dizer o que é sermos um
caiapó, como é o se sentir Txucarramãe, o que é o modo de vida dos Guarani que
moram no Sul do Brasil e como se ama quando somos um Ianomâmi no extremo norte
de nosso imenso país.
É falando e escrevendo o mesmo português que o
mundo vai entender a diferença de ser
ovimbundu, ambundu, bakongo ou lunda-tucokwe, importantes culturas de
Angola; é falando o português de Eça de Queiroz e Machado de Assis que
poderemos entender as emoções dos povos que habitam as margens e vales dos rios
Cachéu, Mansôa ou do Gêba na Guiné-Bissau; ou ainda é lendo autores como Mia
Couto que se pode ter uma idéia original do mundo, como ele magistralmente faz
ou ter o melhor entendimento da história dos Bantos em Moçambique.
É ainda usando essa língua dos
poetas que podemos ler os versos do santomense Caetano da Costa Alegre, que
viveu até 1890 e foi publicado somente em 1916. Ele encantou-se assim:
“Tu tens horror de mim, bem
sei, Aurora
Tu és o dia, eu sou a noite
espessa,
Onde eu acabo é que teu ser
começa,
Não amas!... flor, que esta
minha alma adora.”[16]
Em português podemos ler a Declaração
de Indenpendência ou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação do Timor
Leste. Em português podemos também ler os versos do Navio do caboverdeano Jorge Barbosa, ou ainda esses
quase despretenciosos versos de Manuel Bandeira, em Irene no Céu:
“Irene Preta,
Irene boa,
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no
céu:
-
Licença, meu branco! E São Pedro bonachão:
-
Entra Irene. Você não precisa pedir licença”
Não sei se é mesmo um
pensamento que tem origem na China, mas recebi como sabedoria oriental o
seguinte:
“...o mar só é grande,
porque teve a humildade de se colocar um nível abaixo de todos os rios e,
assim, recebe as águas de todos eles.”
Pois que a ssim seja a língua portuguesa, um rio que
leve junto com suas águas para o mar, uma boa idéia de como somos ricos por nos
entendermos em uma mesma língua e nos compreendermos tão bem, sendo tão
diferentes e originais.
Humanizar o resto do mundo
como queria Agostinho da Silva, é a nossa tarefa e de todos que virão depois de
nós.
(*)Carlos
Alberto Ribeiro De Xavier é economista, ex-Diretor do Jardim Botânico do Rio de
Janeiro; foi Diretor e Presidente do Conselho do IPHAN-Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional; Chefe de Gabinete do Ministério da Cultura e do
Ministério da Educação em diferentes períodos e atualmente trabalha no Gabinete
do MEC, como Assessor Especial do Ministro Fernando Haddad.
[1] Texto
adaptado a partir de palestrra proferida no Ciclo de Debates e Conferências da
segunda edição dos “Encontros Lusófonos”, realizado de 17 a 19 de março de 2005 na
Universidade de Lisboa, juntamente com Prof.Dr. Malaca Casteleiro, de Portugal
e Amélia Mingas, de Angola. (Revista em 2008)
[2]
Pregado na cidade de São Luiz do Maranhão (1657) editado pela Comissão Nacional
para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1997
[3]
Artigo publicado no Jornal do Brasil - 1996
[4]
Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Brasil, No
Especial, 1990.
[5]
Parecer do Relator do Projeto de Decreto Legislativo no 416-A, de 2000, Anais da Câmara dos
Deputados, do Brasil, maio de 2000
[6] “A
Língua Portuguea como fator de integração. A Cooperação na área da Educação,
Enilde Faulstich, publicado pelo IPRI-Fundação Alexandre de Gusmão para o
Seminário “A CPLP-Oportunidades e Perspectivas, 28 e 29 de maio de 2002,
Brasília, Brasil.
[7]
Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Brasil, No
Especial, 1990.
[8] Revista
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Brasil, No
Especial, 1990.
[9]
Jornal do Brasil, pag. 123, de 16 de novembro de 1997
[10]
Folha de São Paulo,Ilustrada, pag. 9, de 2 de dezembro de 1995
[11]
Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Brasil, No
Especial, 1990.
[12]
Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Brasil, No
Especial, 1990.
[13]
Carta a diversos amigos, janeiro de 1991
[15] Programa
de “Os Sete Afluentes do Rio Ota”, edição do Centro Cultural do Banco do
Brasil, Brasília, 2004
[16] Versos
recolhidos de “Mãos Dadas - Poemas da Língua Portuguesa”, interpretados por
Lauro Moreira, editados pela EMC Digital, com apoio do Instituto Camões e
Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1998
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