Acordo Ortográfico, origens

    Zé Aparecido e a Comunidade Lusófona

Com texto de
Carlos Alberto Ribeiro De Xavier durante toda esta semana, no programa .... Vamos lembrar o Governador de Brasília, Deputado Federal e Embaixador do Brasil em Lisboa, segundo Mário Soares, e reafirmado por José Sarney e Celso Amorim, em cerimônia em sua homenagem.
Vamos lembrar o José Aparecido de Oliveira, segundo seus amigos.
1.            Todos nós concordamos, não é possível falar de José Aparecido de Oliveira sem falar de seus amigos, pois todas as suas realizações se baseavam, se amparavam em sua imensa capacidade de juntar amigos certos para cada coisa que fazia.

     Falando de amigos, lembrei-me de um comentário feito pelo também saudoso economista e excelente barítono que cantava ópera em casa, o ex-Ministro Mário Henrique Simonsen, sobre o erudito Embaixador brasileiro José Guilherme Merquior.

    O Embaixador e intelectual, o acadêmico José Guilherme Merquior chegou a ser criticado porque citava muito, em um parágrafo de texto era possível encontrar quatro, cinco ou mais citações, e creiam, não era por pedantismo. Simonsen disse que essa era a principal originalidade de Merquior: sabia reunir pensamentos e idéias e colocá-los de novo de tal maneira organizados que parecia sempre uma nova idéia.

     Pois José Aparecido de Oliveira juntava não só grandes idéias como também os autores das idéias, autores todos, seus amigos; como ele sabia escolher bons amigos capazes de grandes idéias, sempre ele conseguia combinar os gênios e realizar coisas antes consideradas impossíveis.

2.          “O primeiro projeto que Portugal teve foi o que incumbe a todos nós: o de ser”. A frase, em sua aparente singeleza, é a mais profunda de todas quantas têm amparado a minha luta pela criação de uma Comunidade de Países de Língua Portuguesa. ... “Pronunciou-a, com a sua poderosa carga de sabedoria, o meu amigo, o Professor Agostinho da Silva, que morreu domingo, em Lisboa”.[2]

    
E quem escreveu essa mensagem emocionada, em um artigo de jornal foi o Embaixador José Aparecido de Oliveira; contaminado há muito tempo pela visão otimista do mundo de Agostinho, estava em um Hotel em Brasília quando recebeu a notícia. Agostinho, com certeza, um dos principais inspiradores dos que trabalharam ou ainda laboram pela união e cooperação entre os povos lusófonos.


3.       Este é o caso. Foram se realizando os sonhos dos visionários Presidentes dos 7 Povos reunidos pelo Ministro da Cultura Zé Aparecido em São Luiz do Maranhão, em 1989; todas aquelas idéias ditas pelas autoridades máximas de cada país, foram se transformando em realidades, foram sendo concretizadas ao longo do tempo: o Acordo Ortográfico foi assinado  em 1990;  a CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa surgiu em 1996; e o IILP - Instituto Internacional da Língua Portuguesa  foi finalmente instituído pelos, então, 8 países lusófonos em 2001.Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

4. Escrevendo hoje a história do futuro sem a presença física do Zé, agora desaparecido, voltemos a seus amigos, como Agostinho da Silva, sobre quem José Aparecido de Oliveira escreveu:

 “... era homem situado no futuro. Sem deixar de ser europeu, foi africano e americano. Recordo-me do entusiasmo com que falava na carta política do próximo século (o que hoje vivemos) com as alterações profundas que colocariam a China e o Brasil como potências de primeira grandeza, tendo a África como continente de passagem e apoio à nova conduta mundial fundada na colaboração e na paz” [3]




5.                     Adotando idéias de Agostinho ,já como se fossem suas, Zé Aparecido vai buscar apoio para realizar o sonho entre seus inúmeros amigos. Vejam o que acrescenta o Zé:

    “O primeiro projeto que Portugal teve foi o que cumpre a todos nós: O de ser”, em nossa vida pessoal e em nossa vida de povos podemos fazer o futuro que for de nossa vontade e da vontade das circunstâncias.



6.              
             “Tristão de Athayde, ensinou que “o passado não é aquilo que passa. É o que fica do que passou”.Vamos, pois, recorrer à memória, ao conselho e ao saber dessas pessoas. É preciso restaurar o sonho. “O que decidiu com a espada de Afonso Henriques foi a existência de um povo, e, por obra desse povo, a existência de outros povos. Ao mesmo tempo que a espada e a cruz iam abrindo “novos mundos ao mundo” a razão e arte construíam a língua, sem a qual o modo de ser português não se expandiria”.[4]


        
Para citar alguém que, indiscutivelmente, é responsável pela realização do sonho e da existência da CPLP é certo lembrar Mário Soares; disse o ilustre Presidente em 1989, ao lançar o Manifesto de criação do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, da iminente assinatura do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa e da futura formação da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa, sim, porque desde o início a idéia era a de reunir toda a Comunidade Lusófona, mas só os Chefes de Estado e de Governo que estiveram em São Luiz do Maranhão em 1989 assinariam o Acordo em 1990.

 Disse Mário Soares:


“É chegada a hora de nos reunirmos todos – povos e países que falam o português – e fazermos desse traço de união um motivo da nossa afirmação no mundo. Pátria de muitas pátrias, como tenho afirmado, a língua portuguesa é uma realidade viva, enriquecida pela contribuição plural de todos os que a falam e a recriam diariamente.”[5]

7.                               
No marcante encontro de Presidentes de São Luiz do Maranhão em 1989, José Sarney disse: “A língua é instrumento de unidade. Através dela podemos transmitir sentimentos, aspirações, esperanças. Comungar valores entender-nos, estreitar laços de afeto e de amizade. Foi através dela que o Padre Antônio Vieira deixou marcas, no Maranhão, de sua inteligência luminosa e pode dizer um dia: “Vós que descobriste ao mundo o que ele era, e eu vos descubro a vós o que haveis de ser”. Tal é a história. ”[6]

8.            Mas voltemos a Agostinho da Silva em um texto escrito em Lisboa em janeiro de 1990, com o título, sempre original “Carta o mais breve possível de umas vistas gerais” dirigida a Zé Aparecido:

“... o importante é que entendamos ter o Brasil convocado em 1989 para São Luiz do Maranhão, uma reunião presidencial que para, mim, soberana, de todos aos Paises de Língua Oficial Portuguesa, como que a fim de comunicar ao mundo inteiro que não se recusa a herança que passou de Camões a Vieira e nem se repele o encargo.”[7]

9.     A cabeça privilegiada de Agostinho da Silva sempre estava a pensar em todas as comunidades lusófonas, fossem elas nações independentes ou não. Em um outro texto, “Uma folhinha de quando em quando”, Agostinho explica como foi possível propor ao recém eleito Presidente do Brasil, Jânio Quadros, em 1960, a abertura de Embaixadas do Brasil em África; a assinatura de um Tratado com o Senegal e, com a receptividade de certo Zé, Secretário Particular do Presidente da República, promoveu a inauguração de um programa de bolsas de estudos existente até hoje, começando com 50 e que atualmente se somam milhares de estudantes africanos no Brasil; escreveu Agostinho: “para freqüentarem os cursos superiores que escolhessem e os completassem na Bahia, no Recife, no Rio de Janeiro ou em São Paulo”, e para “ajudar, um dia, a que um conjunto jurídico dos Países da Língua comum contribua para maior humanização do resto do mundo”.[8]

     Foi, portanto, com esse espírito de comunidade que, especialmente, Agostinho da Silva, Mário Soares e Zé Aparecido contribuíram, efetivamente, com a cooperação cultural entre povos lusófonos quando os africanos de expressão portuguesa, e muito menos o timorenses do Leste, ainda não tinham se constituído em nações soberanas.

           














[1] Carlos Alberto Ribeiro De Xavier é economista, ex-Diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro; foi Diretor e Presidente do Conselho do IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional; Chefe de Gabinete do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação em diferentes períodos e atualmente é assessor do Ministro da Educação Fernando Haddad.
[2] Artigo publicado no Jornal do Brasil - 1996
[3] Artigo publicado no Jornal do Brasil - 1996
[4] Artigo publicado no Jornal do Brasil - 1996

[5] Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Brasil, No Especial, 1990
[6] Idem, idem
[7] Carta o mais breve possível de umas vistas gerais – Agostinho da Silva
[8] Uma folhinha de quando em quando – Agostinho da Silva

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